quarta-feira, abril 23, 2008

De volta a Liras de Sintra

O inverno em Liras de Sintra avistava-se do mar, em certas brumas morosas que davam novas e conhecidas cores ao cair do sol. Ao chegar, trazia um frio sem neves, mas que alojava-se sob as roupas e nem o crepitar de algum fogo vivente fazia amainar.

Os céus ainda mais azuis, os telhados ainda mais acanelados, os rostos ainda mais marcados, adquirindo novas rugas e dores nos dias monótonos que teimavam em ser sempre o mesmo.

Na entrada do pequeno bosque das oliveiras que marcava a cidade ao sul, propriedade não sua, morava Inês Velho Brandão. Ao seu lado, um cachorro algo perdigueiro, de longas sestas no alpendre e parcos carinhos pedidos.

Mulher de poucas falas, o lenço permanente atado à cabeça e um sorriso incompleto e curto, Inês fazia de satisfazer os viajantes sua ocupação. Já fora mais requisitada e de uma destas visitas restou José, o filho único de pai nenhum.

Hoje, sustentam-se mais pela caça do que pelo amor. A José, a morte vem por instinto e Inês cansa mãos e olhos nas longas noites em que arranca peles e estripa os coelhos prodigamente abatidos e vendidos em feiras de domingos. Sentem um pelo outro a necessidade de uma companhia, mas ninguém ousaria dizer amor.

Um dia morrerá o cão e José partirá atrás de algo maior. Inês será novamente só ela e não mais venderá o corpo. Roubará azeitonas, pedirá um auxílio, olhará a cidade onde sempre esteve e nunca viveu. Na casa não baterão mais viajantes e Liras de Sintra já dela não se lembrará.




Direto na têmpora: I don't like mondays - Boomtown Rats

5 comentários:

ndms disse...

Muito bonito o conto, porém, muito triste ( estranho, verdade ?

redatozim disse...

Muitas coisas são assim, ndms, bonitas e tristes. Valeu o elogio.

ndms disse...

Consegui ? ( 24.000 )

don oliva disse...

Sem dúvida, Liras de Sintra é um sítio a não perder.

Gostei do nome “Inês Velho Brandão”... e da frase “cachorro algo perdigueiro, de longas sestas no alpendre e parcos carinhos pedidos”, inclusivamente “... filho único de pai nenhum”.

E quando dizes: “... a morte vem por instinto e Inês cansa mãos e olhos nas longas noites em que arranca peles e estripa os coelhos prodigamente abatidos e vendidos em feiras de domingos...”

Sabes mais como portugueses a falar... ó pá! Diria eu que estou a ler um texto escrito por quem regista a dor profunda d’alma lusitana.

"Óh, deus, ih, ué!!!"

redatozim disse...

Don Oliva, mesmo sem ter nunca ido, sabe que o "clima" português me atrai muito? Pode ser isso. Ah, quem bom que gostou.