Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, novembro 11, 2013

Frutas

Ah, minhas crianças, venho aqui lhes dizer que as frutas não nascem das gôndolas.


Venho contar como é bom catar amoras no mato e voltar pra casa inteiramente roxo, manchado até debaixo das unhas, com a roupa inutilizada, a barriga saciada e a alma lavada.

Como é bom aprender a usar uma faquinha inocente para “cascar” laranja sem estragar a casca e depois girar recitando as letras do alfabeto pra ver em que letra ela arrebentava. E essa letra, duvido que vocês saibam, crianças, seria a letra da pessoa com quem você iria casar.

Como é bom subir num pé de jabuticaba e ir “pocando” as cascas com os dentes e cuspindo os caroços no chão, deixando sementes de novas árvores e novas infâncias.

Como é bom ver as mangas “madurarem” quando chega a hora, comer o jambo oco e perfumado debaixo de uma sombra, torcer pra chegar o tempo de pitanga, fazer careta com a carambola roubada ainda verde da casa da esquina, gostar mais de um vizinho do que do outro porque na casa dele tem pé de ameixa japonesa.

Ah, minhas crianças, as frutas não são produtos em oferta, não brotam em bandejas, não vêm do outro lado do mundo a preços com muitos zeros. Isso são outras coisas.

As frutas, meus pequenos, são casca, caroço e caldos. São delícias lambuzadas, catadas, divididas, esperadas. São indicações e pontos de encontro “debaixo da bananeira”, “depois daquele lote que tem limão-capeta”, “a casa do Fulano é a que tem um cajueiro bem na entrada”.

Ou talvez não sejam mais isso. Talvez só existam descascadas e picadas no prato, na lancheira que vai pra escola, na gondola, na feira, no sacolão.

E se for assim, tudo bem, porque esse mundo não é mais meu. O meu ainda tem, e sempre terá, uma mão esticada, um corpo equilibrado, um olhar fixo na amora mais alta, aquela pretinha, madurinha, perfeita pra fazer o dia.
 
 
 
 
Direto na têmpora:  Sacrilege - Yeah Yeah Yeahs

sexta-feira, novembro 08, 2013

Duas coisas

Raso o bastante para não se afogar. Fundo que sirva para aprender a nadar.

Perto o bastante para poder voltar. Longe que justifique a vontade de chegar.

Simples o bastante para tirar o ar. Complexo demais para se tentar explicar.

Uma coisa e outra.

Duas coisas e uma.

Dois caminhos e todos.





Direto na têmpora: My moon my man - Feist

Madri

Madri, a cidade dos sonhos do casal. Juntaram grana por três anos até terem condições de fazer aquela viagem da maneira correta: lugar na primeira classe, hotel cinco estrelas, reservas nos melhores restaurantes. Compraram uma câmera nova, os guias mais descolados e ela ainda deu aquele upgrade nas roupas que iria levar dentro da mala recém-adquirida.

O primeiro dia foi perfeito. Temperatura amena, céu azul, caminhando pelas ruas e parando para beber um bom vinho espanhol e saborear uns tapas. Um jantar romântico, uma lua cheia e uma noite perfeita na suíte gigantesca deram o toque final no início maravilhoso de viagem.

Manhã seguinte, após um café da manhã leve e saborosíssimo, saem felizes do hotel, mãos dadas, sorriso no rosto. Ela observa as ruas e ele, involuntariamente, segue por alguns segundos o decote de uma madrilenha de parar o trânsito da união europeia inteira.

Escapou rápido da distração e virou-se para dar de cara com o olhar furioso da mulher. Ainda tentou disfarçar:

- Bonita, né?

A resposta foi um silêncio gelado que durou o restante da viagem inteira. Os 5 dias seguintes seguiram-se protocolares, distantes, sem emoção alguma por parte dela e cheios de olhares pidões, piadas e presentes por parte dele.

Na última noite ele, desesperado para consertar tudo o que aquele olhar rápido e inconsequente havia estragado, fez uma loucura e comprou um colar que sairia praticamente pela metade do que havia custado a viagem inteira.

Na mesa do café da manhã ele então entregou o colar junto com o mais sincero e profundo olhar de arrependimento.

Ela então desabou a chorar e deu nele um abraço apaixonado e arrependido. Imediatamente ele soltou o discurso de improviso:

- Tudo bem, meu amor, eu entendo. Ciúmes é um negócio normal. Eu é que me sinto péssimo por ter estragado nossa viagem com essa bobagem. Justo eu, que tenho a mulher mais maravilhosa do mundo ao meu lado...

Então, antes que ele continuasse, ela interrompeu.

- Não é por isso que eu estou chorando, Julio. É que eu só queria voltar no tempo para não ter jogado sua passagem no rio Manzanares naquele dia em que eu vi você olhando para aquela mulher.

E assim foi, ela de volta pra casa e Julio dormindo três dias no aeroporto para economizar com hospedagem e conseguir pagar o colar que havia comprado.




Direto na têmpora: Trophy Wife - The National

Nomes

Maldita memória. Como ele pôde esquecer o nome daquele menino que fazia natação com ele? Fernando? Bernardo? Eles foram melhores amigos desde bem pequenininhos até os 13 anos de idade, quando o garoto mudou-se para Vitória.

Ernesto? Rodrigo? Re… Ro… o nome com certeza era com “R”. E o sobrenome… com “C”! Não, com “G”, isso, certeza de que era com “G”.

Rogério Gomide? Reinaldo Gouvêa?

Os dois passavam o final de semana brincando no clube, poxa! Ele tinha uma irmã mais nova que usava óculos grossos e o pai tinha um Opala.

Roberval? Não, claro que não era Roberval.

A mãe era dona de casa e fazia um bolo de cenoura absurdo de bom. Era torcedor do Guarani de Campinas, olha só que loucura.

Rinaldo Gonçalves? Rubens Guimarães?

Renato! Isso, o nome dele era Renato. Renato Guerra? Renato Góes? Renato Gomes! Pronto, agora tinha certeza, Renato Gomes era o nome do amigo.

Virou-se para o computador e começou uma busca frenética. Google, Facebook, LinkedIn e dá-lhe milhares de Renato Gomes, mas nenhum que fosse seu velho colega de infância.

Ficou horas nessa obsessão infrutífera até que o chefe chamou sua atenção.

- E aí, Marcelo, cadê o relatório?

Chamado ao dever, esqueceu o assunto e seguiu seu dia com as tarefas chatas e repetitivas de sempre.

À noite, deitou-se exausto e dormiu rápido. Foi acordado no meio da madrugada com um momento de clareza: Henrique Costa! Nem Renato e nem Gomes, Henrique Costa era o nome do coleguinha. O bom e velho Henrique Costa, como poderia esquecê-lo?

Levantou da cama em um salto para o susto da mulher e partiu para o computador rumo a mais uma longa busca através de uma infindável selva de homônimos. Não importava, daquela vez ele estava seguro de que acharia seu amigo perdido, o grande Henrique Costa.

Infelizmente o nome certo não era esse, era Henrique Castro. E Marcelo nunca mais soube dele.

Maldita memória.




Direto na têmpora: Simmer Down - The Specials

quinta-feira, outubro 03, 2013

Louco por ela

Tinha começado a correr há cerca de um mês e já se sentia melhor. As roupas começavam a ficar mais largas, o fôlego e o sono melhoravam, sentia-se um novo homem.

Claro que era difícil controlar a dieta e acordar às 5h30 da matina para se exercitar, mas por causa da ruivinha do escritório ele nem sequer pensava nos problemas.

Apaixonou-se por ela assim que a viu e chegou a receber alguns olhares interessantes poucos dias depois. Bastou isso para que ele resolvesse mudar de vida e entrar em forma de vez.

Os colegas repararam a mudança e o incentivavam cada vez mais. Era como se treinasse para uma maratona em que o prêmio fossem os beijos da ruivinha. Era um homem em uma missão e nada poderia pará-lo.

Passou a usar roupas mais modernas e a exalar confiança. Sentia-se pronto. Hoje seria o dia em que puxaria papo com sua musa e a chamaria para sair. Toda a dor, todo o cansaço, toda a forme, tudo valeria a pena.

Posicionou-se estrategicamente perto da copa e aguardou sua paixão chegar para tomar um café como fazia diariamente. Vinha como uma amiga, sorridente, leve, quase um sonho.

Um tempo atrás a amiga poderia atrapalhar, mas para o “novo” ele nada seria empecilho. Preparou-se para a abordagem e já ia abrindo a boca quando ouviu a ruivinha dizer:

- Tô apaixonada mesmo, viu? Ele é muito fofo. Adoro gordinhos!

Fingiu que cumprimentava alguém e mudou sua trajetória rumo ao elevador. Dois minutos depois estava pedindo um X-Tudo na lanchonete da esquina. Com bacon extra, é claro.




Direto na têmpora: Let me go - Cake

segunda-feira, setembro 23, 2013

12 coisas

--> Das 12 coisas com as quais sonhei, uma eu esqueci por completo e me deixa vago como um resposta sua, perdido como uma palavra minha, sem sentido como estarmos juntos.

Das 12 coisas com as quais sonhei, apenas uma importa e se deixa torta sobre a mesa da sala, como uma colher estragada, um lenço rasgado e eu finjo que não vejo, que não ligo, que não dói.

Das 12 coisas com as quais sonhei, 11 já não me pertencem e correm soltas por um outro sonho amarelo, feito de 12 coisas ou mais.




Direto na têmpora: Boyfriend - Best coast

Cão

O cachorro estava há uns três dias esquivando-se da chuva sob a marquise do prédio, às vezes dormindo, às vezes ensopado e tremendo de frio. 

Não sei o que comia, o que fazia, mas estava ali, olhos baixos, enrodilhado como um cúmplice que aguarda. Era preto, de patas grandes e dava a impressão de que simplesmente não queria ser visto.

Talvez tenha sido exatamente isso que me fez subir com ele.

Deixei o cão livre para circular, mas ele não cheirou nada, não vasculhou nada, mal olhou ao redor. Simplesmente deitou-se entre o sofá de couro e a parede e ali ficou, dormitando de olhos abertos.

Fui para o quarto, liguei a tv e só depois me lembrei de que o bicho poderia estar com fome ou sede. Coloquei um resto de frango frio e um pote de margarina com água perto do sofá.

Dormi com a televisão ligada e acordei com o sol na cara.

Na sala, o frango havia sumido e o pote de margarina estava vazio. O animal permanecia como se nunca houvesse se movido.

Continuamos assim por quase um mês, praticamente estranhos um ao outro. Eu colocava frango e água, ele comia e bebia. Ele fazia suas necessidades, eu limpava. Nenhum carinho, nenhum latido, nenhuma aproximação, nenhuma amizade aparente.

Um dia, deixei a porta aberta enquanto conversava com um amigo e ele foi embora. Segundo o porteiro, saiu andando com a maior calma do mundo.

Nunca mais voltou.

E eu nunca fiquei tão sozinho.





Direto na têmpora: One step beyond - Madness

quinta-feira, setembro 19, 2013

Cachimbos, Flores e Isqueiros (texto do amigo Don LC)

Ao virar certa rua viu um velho sentado na calçada com um chapéu roto e uma roupa em mesma condição. Com o intuito de aparecer uma ser de alma boa tirou algumas moedas e colocou no chapéu do velho, este por sua vez olhou o homem com um olhar frio e profundo e começou a dizer:
_Sentei-me aqui para observar a rua, moro nessa casa.

O homem ainda de pé frente ao velho curvou-se para poder ouvir melhor o idoso, que falou com voz grave e levemente sombria.

_Vê este cachimbo? Disse levantando o ítem para o homem. _Eu costumava ter o prazer de acendê-lo na minha mocidade, neste mesmo lugar onde estou agora, enquanto eu o pitava meus filhos brincavam nessa rua e minha mulher fazia a comida.

_E hoje não o faz mais? Perguntou o homem com certa curiosidade.

_Não, já faz 20 anos que não acendo esse cachimbo, o isqueiro que eu usava não esta mais comigo.

_Ora, mas não seja por isso, tome o meu isqueiro.

_Não posso, veja que no meu cachimbo tem um nome de mulher.

_Sim vejo, mas o que tem isso haver?

_É o nome de minha esposa, ela me deu o cachimbo junto com o isqueiro.

_E o senhor perdeu o isqueiro? Perguntou o homem com um arrepio.

_Sim, mais que isto meu jovem, perdi minha esposa. E o velho olhou para o céu com se estivesse buscando algo.

_Bem, mas o que o isqueiro tem haver com sua condição de viúvo?

_Quando me casei com minha mulher, ela me deu esse cachimbo e o isqueiro. Quando fomos para nossa lua de mel perdemos nossas alianças e ela com o isqueiro iluminou uma parte escura e lá achamos o simbolo de nossa união, e eu disse a ela que enquanto ela estivesse comigo ela iria iluminar as trevas que eu encontrasse.

_Ainda sim, não entendo, mas é uma boa história.

_Quando Clara morreu, ela levou consigo a minha luz, eu não via nada além de escuridão e o corpo dela cheio de luz, pois nas mãos dela coloquei meu isqueiro junto com as nossas alianças.

_Entendi. E ficou com o cachimbo como lembrança? Perguntou o homem com certa comoção

_Filho, eu fiquei com o cachimbo pois todos os dias nesta data eu me sento aqui e visto este terno e coloco o chapéu na posiçao que está.

_ E por qual motivo?

_Foi nessa data que nos conhecemos, eu passando por (como você) aqui e o vento tirou meu chapéu, quando ela passava eu me agachei para pegar e ela deixou cair uma flor no meu chapéu. Naquele dia encontrei meu grande amor. Namoramos e neste mesmo lugar aceitamos nos casar e comprei esta casa a custo de muito suor.

_Mas que historia fantástica! O homem não disfarçava a admiração que sentia.

_Todos os dias eu me sentava aqui e clara pegava meu isqueiro para acender o fogão e me agradecia com um beijo e acendia meu cachimbo. Quando ela morreu perdi a graça de acender o cachimbo sem sentir o cheiro dela. Desde então, me sento aqui nessa data na esperança de ver uma flor no meu chapéu ou de sentir um o cheiro dela enquanto meu cachimbo se acende.

_Entendo, mas por que vc se veste com esse terno tão surrado e fora de moda?

_Este é o terno que eu encontrei Clara, que me casei com ela e que batizei meus cinco filhos. Tambem é o terno que velei minha amada.

O velho estava com o ar pesado como se quizesse ficar sozinho. O homem pegou suas moedas pediu desculpas ao velho por te-lo confundido com um mendigo e seguiu sua rota pensando em tudo o que o velho dissera. Naquele dia ele queria ser um marido mais amoroso e um pai mais presente.

Ele voltou pelo mesmo caminho e deu com uma multidão, olhou assustado o lugar onde o velho estava sentado quando um vento forte jogou seu cigarro longe. Seguiu a guimba com os olhos e viu que ela parou perto do amigo que estava estranhamente imóvel, se aproximou para ver melhor abrindo caminho entre a multidão.

O velho estava morto, em seu chapéu tinha uma flor branca e seu cachimbo estava aceso. O homem desabou em um pranto sentido com alegria e comoção. Chegou em casa, beijou sua esposa como jamais a beijou e aos seus filhos disse o tanto que eles eram importantes para ele.

Naquele dia ele percebeu o quão bela pode ser a morte quando a vida é cheia de amor.




Direto na têmpora: No surprises - Radiohead

terça-feira, setembro 17, 2013

Fome

A vida come sonhos no café da manhã e devora planos perfeitos no almoço.

Para o jantar, um ou dois amores eternos, nada mais.

É que a vida não se permite ficar gorda e farta, prefere ser de um magro quase triste, curta e suficiente.

A vida é escassa em regra, quase sempre, quase para todos, e é preciso celebrar a opulência dos momentos (alguns, enfim) para poder ser feliz.
 
 
Direto na têmpora: Recover - Chvrches

segunda-feira, setembro 16, 2013

Esmola

Passou ao lado do mendigo e, sem olhar, tirou a nota de dois reais da carteira e jogou displicentemente na vasilha de plástico que jazia à frente do senhor sujo e de cabelos brancos. Vinte passos à frente, entrou na cafeteria e, ao abrir a carteira, deu falta da nota de cem que havia sacado mais cedo.

- Entreguei pro mendigo por engano.

Imediatamente, quase por reflexo, olhou em volta. O maltrapilho havia sumido e levado sua grana. 

Que descuido! Não que o dinheiro fosse fazer falta, ele andava bem de vida com o novo salário, mas dava raiva demais um ato tão bobo custar tanto.
A raiva começava a subir junto com o café que ele bebia amargamente. Quem mandou ser bonzinho? Quem mandou querer ajudar e dar esmolas pra um vagabundo qualquer? Um grande otário de coração mole, era isso que ele era.
Sentia o rosto queimando de vergonha e frustração e já não olhava para os outros. Abriu o jornal que trazia com ele e fingiu ler alguma coisa para evitar que percebessem, por alguma arte mágica, como ele havia sido burro.
De repente, uma voz grave ecoou pela cafeteria.
- Ô, menina, vê aí um outro café pro dotô e pode colocar um pão de queijo também, viu?
Virou-se e deu de cara com o mendigo sorrindo seu sorriso pobre em dentes, um gigantesco buquê de rosas vermelhas na mão.
- O lanche hoje é por minha conta, dotô, pode aproveitar.
E antes que pudesse esboçar qualquer reação, sentindo-se observado pelo planeta inteiro, ouviu o outro dizer ainda, cheio de simpatia genuína.
- E as flores são pra patroa. Fala que eu mandei um beijo pra ela. O nome é Francisco, viu? 




Direto na têmpora:  Block after block - Matt & Kim

quinta-feira, setembro 12, 2013

Brinquedos

Meu brinquedo favorito era uma bola de couro pesada demais para a força das minhas pernas. E ainda assim eu enchia o pé e achava que eu era o Rivelino vendo a redonda avançar poucos centímetros. 

Meu brinquedo favorito era um capacete de bombeiros muito grande para a minha cabeça que eu tirava dos olhos enquanto dizimava incêndios e salvava vidas sem nunca deixar de fazer eu mesmo a sirene. 

Meu brinquedo favorito era um Forte Apache em que eu era os índios e os soldados e montava estratégias e mudava os rumos da batalha com um único herói desgarrado que avançava sozinho e vencia tudo. 

Meu brinquedo favorito era ver Sophia brincando. Jogando as bolinhas que faziam barulho, puxando o carrinho que acendia luzes, ninando a Minnie como se fosse um bebê. 

Meu brinquedo favorito é ser pai, é dizer pra ela que vá, é pedir a ela que fique, é fazer carinho, é olhar no olho, é ganhar um beijo, é contar histórias. Meu brinquedo favorito é o hoje, meu brinquedo favorito é pra sempre, meu brinquedo favorito é a vida.




Direto na têmpora: One for the road - Arctic Monkeys

quinta-feira, agosto 22, 2013

Mapas

Délio tinha uma mancha de nascença nas costas, logo abaixo da nuca. Talvez por causa da localização, longe das suas vistas, nunca deu muita bola pra ela nos primeiros anos de vida.

Até que um dia, já com seus 19 anos, uma namorada reparou:

- Dé, alguém já te falou que essa marca nas suas costas é igualzinha ao mapa da Fança?

Délio, que nunca tinha reparado no formato do mapa da França, respondeu que não, mas ficou pensativo com aquele comentário.

Os dias passavam e Délio cada vez mais se convencia de que aquilo só podia ser um sinal, uma indicação clara de que seu destino estava do outro lado do Atlântico, em Paris, Cannes ou em alguma cidadezinha do interior francês.

Começou a estudar a língua, informou-se sobre literatura, cinema, queijos e vinhos franceses e, assim que se formou em Turismo, partiu para encontrar o caminho que estava impresso em sua pele desde que nasceu.

No país novo conseguiu trabalho, fez amigos e, beirando os 30 anos, arranjou uma companheira francesa que, em sua mente, talvez fosse o grande objetivo daquela mensagem hereditária com a qual sempre convivera. Nunca mais voltou ao Brasil e tinha plena certeza de que toda a sua vida, cada minuto de sua existência, só fazia sentido por causa de Marie.

Casaram-se e já no primeiro ano ela engravidou. Com três anos de casamento veio o segundo pimpolho, mas, com a mesma mágica súbita que tudo começou, as coisas azedaram por volta do quinto ano.

Já não conversavam, a paciência de um com o outro rareava e as discussões entre eles ganhavam proporções gigantescas e faziam fama na vizinhança. Separaram-se após seis anos de união, não sem antes enfrentarem uma longa batalha judicial repleta de acusações mútuas e dor.

Era um homem ferido, traído pelos sinais.

Dali em diante já não se animava com relacionamentos românticos, desiludido pela peça que lhe havia pregado o destino, a maldita mancha que, na verdade, não era uma indicação de felicidade, mas o aviso de um desastre.

Viveu solitário e morno,sem grandes paixões, sem grandes momentos, sem grandes reviravoltas. Essa não era definitivamente a vida que esperava na França.

Aos 60 anos, em um exame de rotina, o médico comentou:

- Curiosa essa sua mancha nas costas. Alguém já te disse que ela tem o fomato do...

- Sim, do mapa da França. Eu sei...

- Mapa da França? Não, na verdade ela se parece com um mapa, mas não da França.

E mostrando a mancha através de um espelho completou o raciocínio de forma definitiva.

- Tá vendo? É o mapa da Alemanha sem tirar nem pôr. Perfeito!

E assim terminou a consulta, com Délio amargo, murcho, derrotado. Bem de saúde, sem dúvida, mas cheio de ódio pela antiga namorada dos 19 anos e sua terrível ignorância em Geografia.





Direto na têmpora: Ice Cream Truck - Casiotone For The Painfully Alone

quarta-feira, agosto 21, 2013

Caos

Tico ouviu um estrondo e imediatamente ficou alerta. Era novo naquela região e de onde vinha, uma fazenda tranquila no interior do Estado, esse tipo de barulho não era comum.

Tico havia chegado a Belo Horizonte coisa de dois dias atrás e ainda se acostumava com os sons, as cores e os movimentos da cidade. Saiu de casa praticamente uma única vez para uma consulta de rotina e de resto ficava por ali, meio sem ter o que fazer no apartamento.

Poucos segundos depois, um novo estrondo. E mais outro. Uma sucessão de explosões fez com que Tico corresse em busca de abrigo temendo o pior. O que seria aquilo?

Circulou o apartamento pequeno, mas apenas confirmou o que já sabia: estava sozinho. Tadeu havia saído mais cedo e deixado que ele enfrentasse aquela loucura sem um único conselho ou dica sobre como agir.

O barulho não parava. Às vezes cedia e parecia que ia sumir apenas para voltar com mais violência ainda.

Tico se encolhia e apavorava cada vez mais. Por onde andaria Tadeu? Será que corria mais risco do que ele diante daquela balbúrdia?

Os minutos passaram como se fossem horas e Tico ali, começando a madrugada sem pregar os olhos ouviu o barulho da porta. Ficou indeciso entre correr para saber de Tadeu o que havia acontecido ou manter-se seguro e encolhido em sua cama.

Ao ouvir a voz de Tadeu sentiu-se mais confiante e correu ao seu encontro. O rapaz estava suado, agitado, cumprimentou Tico praticamente sem olhar e seguiu para o quarto dando socos no ar, saltando, agindo como Tico nunca tinha visto e como não conseguia compreender.

O barulho continuava e Tico aproveitou um momento de calma em que Tadeu sentou-se na sala para subir em seu colo.

Só então o rapaz percebeu como seu cão devia estar realmente assustado com aquela confusão toda.

- Ô, Tico, que susto, hein, garoto? Foi o Galo, Tico! É campeão, pretinho! A gente é campeão, pô!




Direto na têmpora: I need fun in my life - The Drums

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Manuais de amar

Certa vez eu participei de uma palestra com um respeitado escritor mineiro que alertava sobre a necessidade de suar e ralar muito para escrever boa literatura.

Ao final do discurso ele ainda advertia: desconfie dos escritores que dizem ser inspirados, pois um livro deve ser fruto de esforço.

Eu, como alguém que tem uma sabida implicância com as normas, padrões e fórmulas, tive um pequeno derrame ao ouvir a sentença. Então quer dizer que a qualidade da obra é medida menos pela obra em si e mais pelo processo de criação?

Se descobríssemos amanhã que Fernando Pessoa escrevia sem esforço isso faria dele um merda? Se Picasso pintasse sem sofrer ele seria um embuste? Se um conto de Guimarães Rosa saísse em uma sentada isso seria picaretagem?

Achei e ainda acho o argumento do autor mineiro extremamente reducionista, tolo e claramente usado para defender uma visão própria e fechada da produção literária.

A mim, como leitor, importa o resultado. Mil vezes um livro delicioso escrito em um final de semana do que um fardo pouco criativo que levou anos para ficar pronto.

Já como autor, também pouco me importa se a ideia vem pronta ou se preciso extraí-la a fórceps. Basta que ao ler o fruto do trabalho eu possa dizer a mim mesmo que aquilo ficou bom e que teria orgulho de mostrar aos outros.

O resto é coisa de quem quer inventar manuais até para se amar.
 
Direto na têmpora: Time for heroes - The Libertines
 

sexta-feira, agosto 24, 2012

Meu amigo, o jerico

Desde que eu era pequeno minha mãe sempre dizia: "pára com isso, menino, que ideia de jerico".

Acho que era a coisa que eu mais ouvia.

Quando eu quis comer algodão porque não me achava fofinho, ela disse isso.

Quando eu resolvi ir atrás da minha paixão, Rapunzel, e eles me acharam pedindo carona na beira da estrada com a mochila no ombro, ela também disse isso.

Até quando eu derreti uma joiazinhas dela pra fazer um megasuperanel ela disse isso!

Fui ouvindo, fui ouvindo e acabei mesmo acreditando que eu tinha um amigo chamado Jerico e que vivia tendo ideias muito legais que minha mãe odiava.

Só muito tempo depois fui saber que jerico era tipo um burro. Naquela época, o Jerico pra mim era um menino da minha idade, do meu tamanho, só que muito mais esperto e maneiro do que eu.

Resolvi assumir a amizade e pra tudo o que eu precisava, sabia que podia contar com o Jerico.

Na hora da prova eu não sabia qual era a capital da Bolívia? Perguntava pro Jerico e a resposta vinha fácil: Inhapim.

Não sabia o que dizer pra menina mais linda da escola? Fala pra ela que você é um robô e que foi programado pra ficar ao lado dela até ganhar um beijo, se não você vai destruir a cidade.

Queria entrar pro time de futebol, mas era péssimo? Vai de óculos escuros e bengala, o treinador vai achar que pra quem é cego você até que joga muito bem.

E assim foi. Sempre que eu precisava, o Jerico estava do meu lado. Claro que as sugestões dele nem sempre funcionavam, mas uma coisa eu preciso dizer: ele nunca era chato. Mesmo quando tudo dava errado, eu e ele morríamos de rir e nos preparávamos para outra situação com a mesma vontade de fazer tudo, menos o que todo mundo fazia.

Fui crescendo, entrei para a faculdade, me formei, me casei e hoje trabalho em uma grande empresa. Não vejo mais o Jerico com tanta frequência, mas quando a coisa aperta, quando tudo fica muito comum, eu chamo meu amigo e lá vamos nós descobrir até que ponto somos loucos e até onde os outros são capazes de ir.

Tem dado certo. E sabe a menininha do robô? Tá esperando o nosso terceiro filho.

Valeu, Jerico!


PS - historinha inspirada pela Sophia, que sempre tem as mais adoráveis ideias de jerico.


Direto na têmpora: Naked in the city again - Hot Hot Heat

quinta-feira, agosto 09, 2012

Álbum de fotografias

Gino tinha 21 anos e, no meio do curso de Engenharia Química, com tantas provas, matérias e preocupações com estágios e empregos, já começava a sentir falta da época do colégio.

Foi assim que bateu nele a vontade de rever as fotos da velha turma: as festas, os encontros, a bagunça na escola e a formatura do ensino fundamental.

Abria os arquivos e relembrava rostos, piadas, aventuras e parecia que já não estava mais no meio da faculdade, e sim vivendo novamente os bons momentos dos seus 17 anos. Tudo havia se passado há apenas 4 anos, mas pareciam séculos.

Até que um rosto chamou a atenção de Gino. Começou a reparar em um menino de cabelos claros e olhos bem pretos que aparecia em todas as fotos. Engraçado, não se lembrava dele.

Com certeza não eram da mesma sala, mas o garoto podia ser de outra classe. A idade era mais ou menos a mesma dele na época e não seria estranho se eles tivessem amigos em comum.

Passou as fotos na escola, as fotos das festas, da formatura e o menino sempre estava ali, sorridente, brincalhão e irritantemente desconhecido.

Deu de ombros, desligou o computador e foi dormir. Inútil, a imagem do menino tão presente e que escapava da sua memória o mantinha acordado. Resolveu mandar um email com uma das fotos para ver se alguém da turma se lembrava.

Acordou no dia seguinte, correu pra mais uma das intermináveis aulas e, no meio do caminho, foi checar os emails. Dos 13 emails para amigos que havia enviado, 7 haviam respondido e nem um sequer se lembrava do garoto.

Achou aquilo estranho e ficou mais impressionado ainda quando de noite descobriu que nenhum dos colegas se lembrava do rapaz. Encaminhou a foto para a turma inteira e, 3 dias depois, tinha a certeza na caixa de emails: ninguém sabia quem era o mocinho de olhos escuros.

Os dias se passavam e Gino ficava cada vez mais incomodado com aquilo. A coisa chegou a tal ponto que se resolveu a matar estágio e foi até a escola falar com os professores. Como podia se esquecer de alguém que estivera tão perto dele em tantas ocasiões? Algum educador com certeza poderia esclarecer o mistério.

Chegou à escola e deu de cara com o Romão da portaria. O Romão estava ali há uns 30 anos e seria a pessoa certa para esclarecer as coisas.

Conversaram fiado, trocaram novidades e logo depois o Gino já foi mostrando a foto. Romão olhou, olhou e um tempo depois perguntou.

- Como é que você fez isso? 

- Isso o quê?

- Essa foto com o Rui.

- Ah, então esse de cabelo claro chama Rui? De que turma ele era?

- Chamava Rui, sim. Como é que você fez isso?

- Fiz o quê, Romão? São as fotos da minha época aqui na escola.

Romão balançou a cabeça. Gino ficou olhando pra ele sem entender até que o velho porteiro falou.

- Gino, essa foto é impossível. O Rui estudou aqui 20 anos antes de você. Ele tinha uns 16 anos quando se enforcou no banheiro do vestiário. Eu sei porque fui eu quem tirou o corpo da corda. Agora, me responde como é que você fez isso?

Gino saiu correndo. Apagou todas as fotos do computador, reformatou a máquina e jurou nunca mais dizer uma palavra sobre o assunto para ninguém. Nunca mais procurou o Romão e nem buscou o contato dos velhos amigos.

O medo durou uns 3 anos. Dormia de luz acesa,acordava sobressaltado, olhava pra trás sempre que estava sozinho e sentia arrepios e calafrios a todo o instante.

Com o tempo foi esquecendo as fotos, esquecendo o menino-fantasma e seguiu sua vida. Formou-se, casou, teve duas filhas e assim seguia sua história.

Em uma manhã de domingo qualquer acordou com uma bagunça tremenda na sala. Levantou-se e encontrou as baixinhas com as fotos do casamento espalhadas pela sala. Comentavam que o pai usava cavanhaque, que estava mais magro, que não tinha cabelos, brancos, que a mãe que estava linda, que a avó estava engraçada.

Juntou-se a elas, pegou uma foto a esmo e gelou ao ver, bem atrás dele e da mulher, aqueles cabelos claros, aquele sorriso vivo e aqueles malditos olhos bem pretos que olhavam direto para a câmera.




Direto na têmpora: Jane Says - Jane's Addiction

segunda-feira, julho 09, 2012

Cadê Sophia?

 A festa já ia começar, mas cadê Sophia Comelli? Ninguém sabia.

Todo mundo já tinha chegado, a música estava animada, mas nada da Sophia chegar.

Tinham jogos, brincadeiras, correria e diversão, mas cadê Sophia Comelli? Não tinha chegado, não…

Foi aí que, um pouco preocupada, a meninada do Bolão começou a imaginar.

-       Será que um E.T., chegou na casa dela para tomar chá? – perguntou Enzo.

-       Pode ter sido que as plantas cresceram tanto que ela não conseguiu sair – argumentou Ana Carolina.

-       E se o pai dela virou um urso? – disse João Pedro.

-       E se a mãe dela virou uma pata? – espantou-se Maria.

-       Hmmm… eu acho que ela ficou comendo amora até perder a hora – rimou o Lucas Szuster.

-       Ou comendo broa até ficar à toa – completou Sophia Zeferino.

-       Pra mim, ela atrasou porque choveu mel e ela ficou grudada – sugeriu o João Victor.

-       Pois, pra mim, ela quis vestir uma roupa de geleia e ficou toda atrapalhada – respondeu a Ana.

-       Eu acho que uma bruxa quis sequestrá-la – assustou-se o Pedro França.

-       Eu acho que um ogro deixou ela presa dentro da mala – gritou a Julinha.

-       Aposto que ela errou o caminho e foi parar na Bahia – pensou alto o Henrique.

-       Ou pegou um ônibus e foi visitar a tia – falou baixinho a Lalá.

-       O foguete dela pode ter ficado sem gasolina – comentou o Dudu.

-       Ela pode ter ficado conversando com um sapo bonina – arriscou a Cacá.

-       Vai que um elefante sentou no pé dela – exclamou o Thomás.

-       Vai que a cara dela ficou toda amarela – emendou a Nicole.

-       Quem sabe ela está cuidando de mil gatos? – supôs o Marcelo.

-       Quem sabe ela precisou comprar mil sapatos? – divagou a Jojô.

-       Ela pode ter ganhado um sorteio de um milhão – animou-se o Lucas Passeado.

-       Ela pode ter ficado afundada no colchão – matutou o João Camilo.

Estavam todos assim, imaginando coisas malucas, quando chegou a Sophia bem feliz e sorridente.

-       SOPHIA, ONDE VOCÊ ESTAVA? – berraram todos juntos.

E então ela respondeu.

-       Meninada, meninada, vocês não sabem o que aconteceu. Eu já estava saindo de casa quando um E.T. amigo meu apareceu para tomar chá. Quando ele foi embora, eu tentei vir, mas as plantas tinham crescido tanto que fecharam a porta. Aí eu cortei tudo, mas meu pai virou um urso, minha mãe virou uma pata e eu demorei um tempão pra desfazer o feitiço. Quando eu acabei, fiquei horas comendo amoras e depois comendo broa. Aí caiu uma chuva de mel e eu fiquei toda grudada, vesti minha roupa de geleia e fiquei toda atrapalhada. Quando estava prontinha, uma bruxa tentou me sequestrar. Escapei dela, mas um ogro me pegou e prendeu dentro da mala. Foi uma luta pra escapar, mas saí correndo, errei o caminho e fui parar na Bahia. Precisava voltar depressa, então peguei um ônibus, mas, no meio do caminho, resolvi visitar minha tia. Pra chegar na hora, só mesmo de foguete, mas, imaginem só, o meu estava sem gasolina. Fiquei triste, mas aí chegou um sapo bonina e conversou comigo pra me animar. Quando fui me levantar, tinha um elefante no meu pé. Briguei pra ele sair e fiquei com a cara amarela de tanto gritar. Enquanto tiravam o elefante do meu pé e eu lavava meu rosto, passaram mil gatinhos e eu resolvi cuidar de todos eles. Foi aí que eu lembrei de um monte de aniversários e fui na loja comprar mil sapatos de presente. Comprei um cupom e ganhei um milhão na hora. Estava muito cansada de tanta atividade, então fui tirar um cochilo e, juro que é verdade, fiquei afundada no colchão. Quando consegui me livrar, peguei o dinheiro do sorteio, comprei um avião e pedi pro moço me trazer até aqui.

E aí, depois de tanta conversa, de tanta bagunça, de tanta aventura, de tanta história e de tanta confusão, sabe o que acontece? A festa acabou. Ah, e esta história também. Tchau!




Direto na têmpora: On Melancholy Hill - Gorillaz

quinta-feira, junho 14, 2012

Verde

- Então tá bom, chegando em casa eu te conto a novidade, tá?

- Novidade? Que novidade, Guta?

- É segredo, curioso. Em casa você fica sabendo.

Pronto, bastou aquilo pra bagunçar o dia dele. Cabeça voando, falava consigo mesmo diante da tela imóvel do computador.

- Segredo? Guta nunca teve segredo pra mim. Bom, coisa ruim não deve ser pela voz dela. Ou então é bom pra ela e ruim pra mim. E se a novidade for aquele curso na França que ela sempre sonhou? E se ela estiver indo embora?

Ficou naquela, entre intrigado e irritado pela tal novidade. Na volta, o caminho que ele fazia diária e calmamente de bicicleta, agora parecia a subida da Graciosa. A cabeça não parava. Maldita curiosidade.

O tempo no elevador, outra eternidade. Abriu a porta e se deparou com ela a sorrir no meio da sala. A mesma Guta, mas agora com cabelos completamente verdes.

- Cabelo verde, Guta? Sério?

- Não gostou?

- Não sei. Verde? Difícil de acostumar.

- Pois é, resolvi hoje cedo, assim, de surpresa.

- É? Mas cabelo verde? Tem certeza? De onde você tirou essa ideia?

- Sei lá, assim que eu soube que o juiz havia autorizado a adoção hoje cedo decidi que queria ser a primeira mãe de cabelo verde da minha família.

Ele não parava de chorar. Seria pai. E então era verde a cor da alegria.




Direto na têmpora:  Can't get used to losing you - The English Beat

sexta-feira, junho 08, 2012

Leitorinha

Sophia comprou seu primeiro livro "grande" para ler sozinha: "Tito, o cãozinho roubado". DEita na sala para ler. Lê antes de dormir. Senta com o livro à mesa. Uma delícia de se ver como ela diz em tons de conquista que já acabou a página 19.

E lá vai ela, parecida comigo em algumas coisas, com a Fernanda em outras e com ela mesma em muitas.

Minha leitorinha, meu denguinho, minha menina tão melhor que eu.




Direto na têmpora: Turn to stone - Electric Light Orchestra

segunda-feira, maio 07, 2012

Biblioteca solidária maio 2012

Chegou o frio e com ele a Biblioteca solidária do tio Maurilo. A ideia é a mesma. Vendo os livros que já li (e tem dois da Fernanda também) ao preço de um cobertor. Você pode pagar em cobertor ou em dinheiro: só 10 reais.

E pra completar, estou vendendo meus livros infantis Esse Bicho Virou História e Na Horta, no Jardim, No Quintal ao preço de 10 reais + um cobertor (ou 20 reais).

O funcionamento é o mesmo: quem mandar primeiro o email para mauriloandreas@gmail.com garante o livro, sem chororô. Pelo Facebook, pelo blog ou pelo twitter não vale.

Chega de papo e segue a lista:

A cabana – William P. Young
Momo e o senhor do tempo – Michael Ende
Agora é que são elas – Paulo Leminski
O romancista ingênuo e o sentimental – Orhan Pamuk
Milarepa – Eric-Emmanuel Schmitt
As pequenas memórias – José Saramago
Expedição ao inverno – Aharon Appelfeld
La ley de la ferocidad – Pablo Ramos
Romance sem palavras – Carlos Heitor Cony
A escalada – Anatoli Boukreev / G. Weston DeWalt
Azul – Rubén Darío
Submarino – Joe Dunthorne
Fala, amendoeira – Carlos Drummond de Andrade
O clube do suicídio – Robert Louis Stevenson
Steve Jobs – Walter Isaacson
Desonra – J. M. Coetzee
A máquina de fazer espanhóis – Valter Hugo Mãe
Nova York – Will Eisner
Sandman (Noites sem fim) – Neil Gaiman
Nada me faltará – Lourenço Mutarelli
Inconfidências de uma adolescente – Marcita Coelho
O galo músico – Fernando Sabino
Amores guardados – Lêda Couto
Sinal e ruído – Neil Gaiman
A comédia trágica ou a tragédia cômica de Mr. Punch – Neil Gaiman
Slam – Nick Hornby
Pequeñas intenciones – Jorge Consiglio




Direto na têmpora: Do you - Portugal The Man