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terça-feira, outubro 07, 2014

And the Oscar goes to...

Eu consegui acertar que Pimentel seria eleito no primeiro turno, que Anastasia seria eleito e que o segundo turno seria entre Dilma e Aécio. Nos três casos, no entanto, as diferenças foram muito menores do que eu imaginava. Ou seja, estou bem em prever o razoavelmente óbvio, mas descalibrado nos números. 

Agora o desafio é falar, sem previsões, sobre o cenário atual da nossa política e dar lá os meus pitacos. Afinal, se nada mudar, foi minha última eleição como redator, diretor de criação ou coordenador de campanhas políticas. A partir de agora, sou apenas eleitor, e aí nossa análise precisa ser ainda mais imparcial e clara. Segue o blablabla:

1) O Brasil nunca esteve tão dividido. Somente em 26 de outubro vamos saber se a favor ou contra Dilma e o PT mas, sem sombra de dúvidas, nunca estivemos tão extremamente polarizados.

2) Ainda não dá pra saber quem será nosso próximo presidente ou presidenta, mas Aécio já é um grande vencedor. Saiu como concorrente contra uma candidata que poderia eleger-se no primeiro turno, caiu para terceiro lugar com a chegada de Marina e, quando todos achavam que estava fora da disputa, reagiu de forma impressionante, chega ao segundo turno com uma diferença mínima e é o candidato com maiores possibilidades de vencer o PT desde a primeira eleição de Lula. Ou seja, escapou do esquecimento como força política nacional e já deixou claro que, mesmo se não ganhar, deve ser o candidato do PSDB nas próximas eleições presidenciais.

3) Estamos diante de um cenário teoricamente bom para Minas. Se Dilma vence, tem o aliado Pimentel como Governador do Estado. Se Aécio vence, Pimentel talvez seja o petista mais próximo dele em Minas, como vimos na primeira eleição de Márcio Lacerda. Em qualquer dos casos, Minas deve receber um maior apoio do Governo Federal.

4) Nunca se viu uma eleição tão suja e rasa em seus ataques gratuitos e falta de debate. Virou mesmo torcida de futebol e os bons argumentos se perdem em meio ao gigantesco número de bobagens ditas de todos os lados. Uma pena.

5) Deputados estaduais e federais continuam sendo o grande desafio. Elegemos celebridades, filhos de velhas figuras políticas, racistas, homofóbicos, enfim, o que há de pior e depois não entendemos quando se diz que é difícil governar.

6) Qualquer que seja o novo presidente eu não acredito que haverá reforma política. Não se discutirão o voto facultativo, o financiamento público de campanha, a forma de suplência no senado, a proporcionalidade dos votos para deputados, o fim da reeleição. Duvido que não continue tudo como está nesse quesito.

7) Os próximos 4 anos, salvo alguma mudança radical no cenário mundial, serão difíceis para qualquer governante. É apertar o cinto e aguentar o tranco.

8) Os próximos 20 dias serão de uma agressividade ainda maior entre os candidatos e o Facebook vai ficar praticamente irrespirável.

9) O Brasil está implorando por uma terceira via. Marina? Não sei. Só sei que quem vier tomará pedrada de PT e de PSDB, mas um bom nome pode ajudar a romper a polaridade.

10) Espero que as divergências acabem na eleição e que possamos analisar prós e contras do próximo presidente sem o filtro do "meu lado, seu lado" e sem a cegueira que costuma vir com as paixões. Menos irracionalidade e fé cegas, mais debate e capacidade de se abrir para argumentos. Mas esse é apenas um desejo, uma vontade bobinha. Não há nada no triste horizonte das ofensas, berreiros e chutes na costela que me indique essa possibilidade.

terça-feira, setembro 17, 2013

Fome

A vida come sonhos no café da manhã e devora planos perfeitos no almoço.

Para o jantar, um ou dois amores eternos, nada mais.

É que a vida não se permite ficar gorda e farta, prefere ser de um magro quase triste, curta e suficiente.

A vida é escassa em regra, quase sempre, quase para todos, e é preciso celebrar a opulência dos momentos (alguns, enfim) para poder ser feliz.
 
 
Direto na têmpora: Recover - Chvrches

terça-feira, agosto 27, 2013

Entusiasta



















O especialista sabe. O entusiasta pergunta.
O especialista conhece. O entusiasta procura.
O especialista executa. O entusiasta experimenta.
O especialista responde. O entusiasta conversa.
O especialista é profissional. O entusiasta é apaixonado.




Direto na têmpora: Let's Go Surfing - The Drums


quinta-feira, abril 18, 2013

Homofobia, bullying e o que já fiz

Eu cresci homofóbico e eu cresci fazendo bullying. Naquela época era normal e pareceria até estranho não agir dessa forma.

A questão da homossexualidade era vista por mim e por quase todos os meus amigos como algo estranho. Ser chamado de "veado" competia com ser chamado de "filho da puta". As piadas com os gays estavam na televisão, vinham de nossos pais e colegas e, pra dizer a verdade, quase não conhecíamos homossexuais. Claro que havia, por exemplo, o cabelereiro gay, mas que tratávamos como uma excentricidade.

O tempo foi passando e eu comecei a conviver com homossexuais, primeiramente através da minha mãe, que tinha muito contato com gays. Aos poucos, muito lentamente, fui percebendo que essas não eram pessoas afetadas, sem profundidade, apenas personagens exóticos que circulavam enquanto nós vivíamos.

Comecei a notar que pagavam contas, batiam ponto, se decepcionavam, eram amigos, discordavam, concordavam, enfim, faziam tudo como eu.

A estranheza ia diminuindo, mas pra mim eles estavam bem como pessoas que eu encontrava de vez em quando. Eles lá e eu cá.

Só um bom tempo depois, quando comecei a ter amigos homossexuais e a realmente conviver com eles, é que percebi que a orientação sexual era como a cor do cabelo: não era credencial para mais nada a não ser a orientação sexual em si.

Existem gays e heteros chatos, negros e brancos engraçados, gordos e magros cruéis, altos e baixos com um coração de ouro. O que importa é a pessoa e não quem ela ama ou deixa de amar, com quem ela transa ou deixa de transar.

Ir contra esse direito da busca pela felicidade é ir contra o ser humano. É abrir espaço para que amanhã os perseguidos sejam os evangélicos ou os turcos ou os homens de cabelos cacheados.

Eu considero essa visão política e religiosa dos direitos dos homossexuais tão estúpida quanto era há alguns anos questionar, com base na religião e na política, o direito dos negros à liberdade e à igualdade. Mas ela existe e precisa ser combatida.

Eu, que durante muito tempo achei que não tinha problema criticar, menosprezar ou humilhar alguém por ser gay, estou aprendendo o quanto isso é idiota. Eu que achava que minhas piadas não feriam e que se ferissem, foda-se, penso um pouco mais antes de falar.

Ainda sou homofóbico em medidas que não percebo, racista em medidas que não percebo e faço bullying em medidas que não percebo. Se você procurar nas coisas que disse e fiz, certamente vai achar idiotices que me deixariam com vergonha e me colocariam ao lado de quem eu hoje sou contra.

Mas pelo menos agora tento ser consciente e pensar no outro ser humano que é tão sensível, falível, forte, estúpido e genial quanto eu e que simplesmente prefere fazer amor com alguém do mesmo sexo.

É que eu acho que a homofobia acaba primeiro na gente. E sei que ainda estou longe, mas não sigo mais de olhos fechados.




Direto na têmpora: FAT - Violent Femmes


quinta-feira, março 28, 2013

Minha opinião sobre o estágio

Acho que fazer estágio é algo muito diferente hoje do que era na minha época.

Antes de mais nada, ninguém fazia estágio para pagar faculdade. O nome disso era emprego, estágio era outra coisa.

Estágio era pra aprender, pra entrar no mercado, para conhecer os feras. Eu fiz estágio na SMPB com Geraldo Leite, Marcos Camargos Aderbal Teixeira Rocha Jr, Roberto Boca, Ricardo Carvalho, Amaury Vieira Silva e, se me lembro bem, recebi meio salário pra isso. Vou te falar, foi fundamental.

Se eu fosse estudante hoje, aceitaria alegremente meio salário mínimo para fazer estágio com profissionais como Márcia Lima, Cris Cortez, Dan Zecchinelli, Guilherme Araujo e tantos outros. 

Claro que o estagiário precisa de uma remuneração digna, mas outro dia eu vi gente reclamando de salário de R$ 1.500,00 para estagiários. Será que é isso mesmo? Mil e quinhentos reais (recebido, não pago) é pouco para quem está estudando fazer um período de aula prática tão importante?

Peraí. É claro que o estagiário contribui com a agência e merece ser recompensado, mas ele está ali pra conhecer, pra ganhar experiência e se formar.

Eu tive estagiários que hoje são profissionais fodaços. Gente como Laura Esteves e André Maia que sempre se importaram mais em crescer do que em fazer o pé de meia enquanto estagiavam.

O resultado aparece depois, quando entram pro mercado e juntam o talento que já têm com a experiência que ganharam. Aí eles arrebentam e ninguém segura.

Mas isso não foi um presente, foi uma vitória. E eles souberam a hora de ouvir, a hora de contribuir e a hora de assumir o show.

Admiro muito gente assim, que entende bem que para poder voar, é preciso primeiro aprender a caminhar.

De novo, sou totalmente a favor de uma remuneração digna para os estagiários, mas acho que muita gente ainda precisa entender que o reconhecimento é uma conquista, não um direito divino. E que poder aprender com quem sabe é uma puta oportunidade.




Direto na têmpora: Amongst the dead forever - Kult Country

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Manuais de amar

Certa vez eu participei de uma palestra com um respeitado escritor mineiro que alertava sobre a necessidade de suar e ralar muito para escrever boa literatura.

Ao final do discurso ele ainda advertia: desconfie dos escritores que dizem ser inspirados, pois um livro deve ser fruto de esforço.

Eu, como alguém que tem uma sabida implicância com as normas, padrões e fórmulas, tive um pequeno derrame ao ouvir a sentença. Então quer dizer que a qualidade da obra é medida menos pela obra em si e mais pelo processo de criação?

Se descobríssemos amanhã que Fernando Pessoa escrevia sem esforço isso faria dele um merda? Se Picasso pintasse sem sofrer ele seria um embuste? Se um conto de Guimarães Rosa saísse em uma sentada isso seria picaretagem?

Achei e ainda acho o argumento do autor mineiro extremamente reducionista, tolo e claramente usado para defender uma visão própria e fechada da produção literária.

A mim, como leitor, importa o resultado. Mil vezes um livro delicioso escrito em um final de semana do que um fardo pouco criativo que levou anos para ficar pronto.

Já como autor, também pouco me importa se a ideia vem pronta ou se preciso extraí-la a fórceps. Basta que ao ler o fruto do trabalho eu possa dizer a mim mesmo que aquilo ficou bom e que teria orgulho de mostrar aos outros.

O resto é coisa de quem quer inventar manuais até para se amar.
 
Direto na têmpora: Time for heroes - The Libertines
 

quinta-feira, janeiro 17, 2013

É bom até que não é mais

Tem uma música da Regina Spektor chamada "On The Radio" que em determinado momento diz assim:

"This is how it works
You're young until you're not
You love until you don't
You try until you can't
You laugh until you cry
You cry until you laugh
And everyone must breathe
Until their dying breath"


Eu acho essa letra linda porque na vida tudo é quase sempre assim: muito bom até que não é mais. O tempo passa, o mundo muda, a gente também. O genial vira bobo, o apaixonante vira chato, o engraçadíssimo vira comum e a gente segue em frente sem ter a obrigação de gostar pra sempre do que já gostou um dia.

Não é falta de esforço, não é desistir das coisas, é simplesmente entender que imobilidade não é exatamente uma qualidade. Pelo menos não na maioria dos casos.


Claro que não vale pra tudo, mas vale muito pra empresas. O que era lindo ontem é comum hoje. O que era fundamental é desnecessário, o que era uma fórmula vira uma bobagem.


Porque o tempo passou, o mundo mudou e tem gente que n ão quer ver, não quer entender que "you try until you can't". Simples assim.

Não é ingratidão com o passado, com o vivido, com o caminho trilhado. É saber que tudo tem seu tempo e que evoluir é o exercício de reconhecer e escolher caminhos novos.


E que tudo aquilo que funcionava muito bem um dia pode deixar de funcionar.




Direto na têmpora: Monsterpussy - The Vaselines

segunda-feira, agosto 20, 2012

Irreversível

Dizem que a morte é irreversível. Na verdade, não sei.

Até onde percebo, nunca estive morto e não faltam crenças por aí a me defenderem milhares de conceitos diferentes sobre a morte e o que acontece após a mesma.

Já com a vida é diferente. Podemos até ter outras depois, mas nenhuma será igual a esta. É o barro com que trabalhamos hoje, é o que nos resta e o que nos sobra.

É nesse breve percurso, que algumas vezes nos parece tão longo, que deixamos o rastro de nossos erros, nossas mãos estendidas, nossas ações, nossas intenções, nossas conquistas, perdas e paixões. 

Pode ser que haja outra chance em outro lugar, em outra vida, em outra dimensão. Quem sabe?

A verdade é que nessa vida que vivemos, nesse insignificante e único nanoinstante do infinito que nós é dado, não há remendo. Nosso trajeto é nosso legado para outros trajetos tão curtos como os nossos.

A vida, sim, é irreversível, meus amigos. E viver bem é o único caminho.




Direto na têmpora: Remember - The Raveonettes

sexta-feira, agosto 17, 2012

Paixão

Eu respeito e acredito no poder de tudo aquilo que te faça viver melhor e ser mais feliz, seja uma religião, uma dieta ou um programa de tv.

Quem sou eu para tentar te ensinar o que é felicidade quando ainda estou aprendendo que o que é bom pra mim pode ser veneno para os outros?

O fato é que eu acredito na força das paixões. Muitas vezes eu não compreendo alguém que dá a vida por um time de futebol ou que esbraveja e rompe amizades por conta de uma visão política, mas eu admiro. De verdade. E torço pra que essa paixão não seja um equívoco, mas sim um motor que faça a pessoa ser melhor, mais completa, mais "ela mesma".

Até porque, sobre alguém sem paixões há muito pouco o que se dizer.




Direto na têmpora: Sir, Your Fashion Has the Cold Heart of A Killer - The Beautiful Girls


quinta-feira, agosto 16, 2012

O que a gente tem a dizer

Durante anos encontrei profissionais de publicidade que sabiam exatamente como dizer as coisas. Como dizer que o consumidor iria pagar mais, como dizer que aquela promoção era imperdível, como dizer que meu achocolatado era melhor do que o outro. Na verdade, sempre fui, ou tentei ser, um deles.

Os reis da forma, os mestres da boa ideia. Admirava, admiro e respeito todos eles. O título que marca, o roteiro bem sacado são uma forma de trazer leveza, beleza e criatividade ao dia do público. E de vender, é claro.

O problema é que, já faz algum tempo, somos convidados a participar do processo de descobrir, junto ao cliente, "o que deve ser dito". É um passo anterior, que fornece a base para a grande ideia sobre "como dizer".

Talvez seja um momento mais assustador do que a chegada do computador e mais revolucionário do que a popularização da internet. Precisamos nos envolver mais, abrir nossas mentes para outros processos, outras demandas, outras questões.

O desafio de sermos mais completos do que julgávamos necessário faz com que uns aproveitem e outros se encolham.

Por enquanto é uma decisão de cada um. Em pouco tempo será uma questão de sobrevivência. Melhor escolher seu lado agora e arregaçar as mangas, filhote.




Direto na têmpora: One - Vampire Weekend

terça-feira, junho 05, 2012

Radicais livres

Essa semana foi pródiga em topar com pessoas de raciocínio extremista sobre os mais diversos temas. Gente que não entende que você escolher uma coisa não faz com que ela seja perfeita e que não basta fechar os olhos para que os problemas daquilo que você defende sumam.

Gente, por exemplo, que acha absurdo quando uma ditadura censura um jornal, mas acha normal quando um líder de esquerda fecha uma tv. Pouco importa que os argumentos dos dois lados sejam exatamente iguais, a pessoa sempre usa dois pesos e duas medidas.

E isso tem acontecido recentemente não apenas com posições políticas, futebolísticas ou religiosas, mas até mesmo nos assuntos mais bestas. Não sei se as pessoas estão mais extremistas e indisponíveis para ouvir os outros ou se tem sido apenas um azar meu mesmo.

De qualquer forma, a única verdade absoluta é que o torresmo é feito por anjos cozinheiros em um castelo cercado por unicórnios e temperado com arco-íris. O resto sempre é discutível.




Direto na têmpora: Drive - Blind Melon

segunda-feira, março 26, 2012

Inocentes

A culpa não é de quem mata, não é de quem estupra, nem é de quem rouba.

A culpa não é de quem oferece e nem de quem aceita propina, não é de quem sonega, não é de quem propaga, não é de quem se nega.

A culpa não é de quem cria, não é de quem revisa, não é de quem aprova, não é de quem produz.

A culpa está no outro, está no fundo, já não está.

Culpa? Nem morto.

Culpa? Estamos em falta.

Culpa? Pegue aqui uma justificativa qualquer e bons sonhos.




Direto na têmpora: Safari - The Breeders

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Preconceito

O ser humano é curioso e temerário diante do diferente. Desde crianças, sempre que estamos diante de algo que não compreendemos ou que não corresponde aos padrões apreendidos inicia-se uma batalha dentro de nós entre o instinto de descobrir e o de se afastar.

Grande parte da nossa personalidade e dos caminhos que seguiremos depende das proporções com que combinamos estes fatores de medo e curiosidade.

Com o tempo, a curiosidade tende a se transformar em empatia e o medo tende a se transformar em raiva. Nasce assim o preconceito.

Fui criado em uma época em que piadas sobre gays e negros eram comuns até mesmo em programas infantis como os Trapalhões. Entendo que também no humor existe a capacidade de diminuir, de subjugar, de excluir alguém pela piada, mas sempre consegui enxergar o lado do riso que mostra com leveza a diferença e aproxima mais do que afasta.

São linhas tênues.

Sempre tive amigos negros, alguns namoricos com mulheres negras e nunca entendi bem o preconceito. Para mim a diferença da cor da pele é a mesma da cor do cabelo ou da altura. Poderíamos estar dividos entre gordos e magros, com sardas e sem sardas, orelhas presas e orelhas soltas. Até pelo convívio próximo eu nunca tive esse tipo de visão da diferença na questão cor da pele. Às vezes até fazíamos piada, mas nada com o intuito de ofender, apenas repetindo padrões e costumes.

Mas na questão da diversidade sexual a coisa era diferente. A verdade é que na minha adolescência de interior era padrão criticar, evitar, isolar e até mesmo magoar os gays para mostrar como éramos "machos".

Homem que é homem não fala fino, homem que é homem não beija outro homem, coisas do tipo. E isso nos distanciava das pessoas. "Eles" não eram homens, eram algo diferente, estranho.

E por isso eu tive amigos gays que só foram se assumir anos depois e por isso eu agi muitas vezes como um babaca até que eu amadureci e eles também.

Compreendemos mais ou menos ao mesmo tempo que ser gay é como ser louro, ter orelhas de abano ou mãos bonitas. É apenas uma das características que forma aquela pessoa. Passei a compreender, a respeitar e a romper com padrões com os quais fui criado, menos pelos meus pais, e mais pelo ambiente em que vivia.

Para mim, o preconceito perdeu o sentido e já fica difícil entender porque esses caras não podem se casar na igreja ou entrar de mãos dadas no cinema.

"Ah, mas você já chamou um amigo de gay que eu já vi". Sim. E talvez seja apenas um hábito que preciso mudar. Ou talvez não, talvez o humor não precise ser tão correto e tão cuidadoso assim e a brincadeira seja apenas uma brincadeira quando não tem o intuito de machucar. Pode ser também que eu precise refletir ainda mais sobre o assunto.

Não sei.

Mas sei que, para mim, a questão continua a mesma: como reagimos diante do diferente, do que não responde aos padrões aos quais estivemos expostos por tanto tempo. Curiosidade ou medo?

E quanto menos medo, quanto menos ignorância, menos motivos para que continue sendo assim. Porque a violência é quase sempre sinônimo de incompreensão absoluta, a reação de uma criança que, diante de um brinquedo de montar resolve o problema do seu jeito ou se frustra e quebra o joguete.

Eu amadureci (ou estou amadurecendo). E você?



* Parabéns pela inconstitucionalidade da Prop8 na Califórnia.




Direto na têmpora: Elevator love letter - Stars

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Vê se não fode, Nascimento.

Cancelem o carnaval em 2012. O Brasil tem mais problemas a resolver. Sumam de vista também com o Campeonato Brasileiro, as festas de finais de ano e todo e qualquer reality show, meu amigo, porque é problema pra caramba.

Aproveitando o ensejo, matem o Michel Teló, proibam a exibição do Chaves, tirem as novelas do ar, exilem o Silvio Santos, fechem o canal Sony e desliguem os aparelhos do Chico Anysio.

Mas antes e mais importante do que tudo, eliminem qualquer possibilidade de que cheguem um dia as férias do Carlos Nascimento.

Sem o Carlos Nascimento e os arautos da velha imprensa somos um bando de idiotas. Quem nos dirá o que é divertido, o que está na moda, o que é relevante?

Quem nos trará opiniões compradas com dinheiro de mídia para que possamos respeitar, concordar e obedecer?

Já fomos mais inteligentes, já fomos mais obedientes. Já entendemos melhor que se não está na tv não é verdade, não existe.

Que o problema só é real se for veiculado.

Emburrecemos, de fato, sem o discurso de Carlos Nascimento e outros arautos da verdade patrocinada.

Gostamos de bobagem, falamos merda, fazemos piada com pum e cocô, curtimos mais a caixa do que o brinquedo que eles nos oferecem há tanto tempo.

Tá certíssmo o Carlos Nascimento. Mas vai ficar sozinho com toda a razão dele, meus queridos, porque o mundo mudou pra todo mundo. Até mesmo pra Luiza que está no Canadá ou na putaqueapariu.




Direto na têmpora: Dance with me - Etta James

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Occupy e SOPA

Dois movimentos ganharam muito espaço na internet recentemente. Um deles, na verdade, ainda está por acontecer verdadeiramente.

O Occupy Wall Street foi um movimento que buscou questionar, protestar e tentar transformar o capitalismo através de uma ação de presença física em seu símbolo máximo que é Wall Street. O movimento ganhou outras cidades, invadiu a internet, mas, até onde eu sei, não obteve resultados concretos.

Sendo honesto, é um movimento de pressão que revela insatisfações, levanta questionamentos, mas acredito que só pode trazer mudanças práticas com a chegada de novos empresários e políticos com novas visões. Cabe ao povo votar, pressionar e aguardas. Fora isso, não há muito o que fazer.

Independentemente de concordar ou não com o movimento, ele é um tanto inocente em suas pretensões.

Ao contrário do Occupy, onde a insatisfação das pessoas comuns era a base, com a SOPA a batalha na verdade se dá entre algumas grandes empresas (Google, Facebook) e outras ainda maiores (Time Warner, CBS).

Outra diferença é que no caso da SOPA os boicotes podem ser eficientes, embora eu ache difícil imaginar que o Google irá parar de funcionar por causa da lei ou que as pessoas deixarão de ver filmes da Warner para protestar.

A propósito, eu sou contra a SOPA pelo poder que ela confere ao governo americano de proibir sites que sejam ideologicamente conflitantes com seus interesses sobre as mais diversas alegações. No entanto, para mim esta é outra batalha perdida. A vantagem é que pelo próprio espaço da guerra ser virtual, existe espaço para burlar a vigilância com soluções tecnológicas e outras artimanhas.

Se a SOPA vingar, como eu imagino que irá vingar, os direitos autorais terão vencido uma batalha contra a "liberdade" da internet, mas a guerrilha está só começando.




Direto na têmpora: Videogames - Lana Del Rey

terça-feira, janeiro 03, 2012

Os jovens velhos

Eu invejo os da geração de hoje por serem nativos digitais. Acho que eles têm uma oportunidade de ouro para transformar os meios digitais enquanto consumidores e atores na circulação das mensagens.

Por isso talvez eu me assuste tanto quand me deparo com jovens velhos, gente de 20 anos ou menos que quer ditar regras para tudo. Perfil de twitter de carro só pode falar sobre carro, Facebook de shopping só pode falar sobre compras e promoções, blog de agência de publicidade tem que ser um portifólio online.

Esse raciocínio tolo deve significar que se você está namorando só pode falar de amor com ela. Se está na pelada com os amigos, não pode falar de política, só de futebol.

Quanto mais eu trabalho em comunicação, mais eu acredito que as relações das pessoas com as marcas se dão além dos produtos e serviços em si (e graças a Deus a agência em que eu trabalho pensa assim também). Infelizmente algumas pessoas pensam como se pensava há 50 anos e jogam fora a oportunidade de inovar, de viver seu tempo com o que ele tem de bom.

Pobres coitados. Tão jovens e já tão velhos.




Direto na têmpora: Eyelids - Fridge

segunda-feira, novembro 28, 2011

Cagador de Regra em Redes Sociais

A profissão de Cagador de Regra em Redes Sociais está em alta. São centenas de milhares de especialistas dissecando a situation e criando normas fundamentais.

Por exemplo, já ficou definido que Facebook não é lugar para falar de futebol, política ou sexo e que Twitter não é lugar para falar sobre o clima. Também já está mais provado que alguns assuntos em TT (insira aqui o seu) são a conclusão definitiva de que o Brasil não vai para frente.

O problema é que o conteúdo a que você tem acesso nas redes sociais é escolha sua e, muito mais fácil do que querer fazer com que todos concordem com você, é simplesmente escolher seguir quem é relevante para seus objetivos.

Tá certo, cagar regra é bom e todo mundo tem direito à sua opinião, mas não fique achando que o FB ou o Twitter vão mudar por causa das suas preferências. Pare de seguir algumas pessoas, reduza o número de amigos e crie um ambiente mais saudável e agradável para você mesmo.

Ou não. Afinal, se a sua onda é cagar regra, vai nessa! E se eu achar que isso é um problema, basta que eu pare de seguir você.




Direto na têmpora: Rock Island Line - Mano Negra

quarta-feira, agosto 24, 2011

Mapas

Quando eu comecei a estudar o mundo ainda tinha Iugoslávia, Tchecoslováquia e União Soviética. Eritreia para mim não existia. Eu me lembro da separação dos dois Mato Grosso e, é claro, Goiás ainda era um estadão com Tocantins e tudo.

Como ficou claro, não é novidade para mim essa mudança na composição de países e unidades federativas, mas confesso que ainda me surpreendo um pouco.

Sei lá, o sul querer virar um país? Esquisito demais. E agora, o Pará correndo o risco de se dividir em três?

Talvez esse estranhamento aconteça justamente porque eu não vivo e nunca vivi nestes lugares. Talvez seja só uma coisa minha mesmo de achar nações e mapas uns negócios meio sólidos demais para evaporarem ou se quebrarem.

Mas, quem tem que resolver isso são os moradores e cada um tem lá suas questões, seus motivos, sua realidade. É como guerra por religião: não entendo, mas também não discuto.

Para mim, morar em Minas Gerais / Brasil ou na República Federativa do Horizonte Bonito não faz a menor diferença. A não ser que tenha IPTU grátis, doce de leite fresco entregue na porta todas as manhãs e fontes de Coca Cola pelas ruas.

Aí eu apoio o plebiscito na hora.




Direto na têmpora: Adaptor - The Fins

sexta-feira, agosto 19, 2011

Poderico

Tem gente que faz qualquer migalha de poder se transformar em uma espada de fogo. Basta que lhe seja oferecida a condição de ter um único subordinado que seja ou, temeridade ainda maior, a possibilidade de emitir sua opinião sobre qualquer processo.

É gente que se leva a sério demais, que não entende sua função dentro de algo maior e que transforma pitacos pessoais em leis que vigoram única e exclusivamente em seu mundinho.

Gente assim acha que dizer "não" mostra competência. Acha que dar chiliques mostra firmeza. Acha que não está ali para dialogar e sim para mandar.

Gente assim está em todo lugar e se entrincheira em seu cargo como se a própria existência da raça humana dependesse disso.




Direto na têmpora: Shine like stars - Glasvegas

quinta-feira, agosto 11, 2011

Para não ser unidimensional

Oscar Schmidt foi um excelente pontuador no basquete. Seu arremesso de três pontos era mortal e o Brasil deve a ele o ouro e uma partida memorável, que deveria virar filme, na final do Panamericano de 87 contra os americanos.

Michael Jordan começou a carreira como um jogador ágil, de grande impulsão, atlético e excelente pontuador. Excelente na universidade, entrou na NBA como uma grande promessa.

Não satisfeito, Michael Jordan praticou e desenvolveu um arremesso de média e longa distância extremamente eficiente, transformou sua presença no garrafão em uma ameaça real, tornou-se um jogador de defesa implacável e um "passador" dos melhores.

Ainda hoje é considerado o melhor jogador de basquete da história.

Seria injusto da minha parte dizer que Oscar nunca trabalhou para melhorar as outras partes do seu jogo, mas se trabalhou não teve muito sucesso. Tornou-se um jogador que investiu em seu ponto forte até se tornar excelente nele, mas ficou unidimensional.

Jordan investiu tempo e esforço justamente no que não era bom. Tornou-se completo, versátil, praticamente impossível de ser detido. Recusou-se a tentar cobrir seus defeitos com seus pontos fortes e evoluiu. Encarou cada limitação de frente e trabalhou à exaustão.

Fica aí um bom conselho para você que é excelente em um tipo de função. Quando disser "eu não sou bom nisso", não o faça como uma desculpa para se livrar da tarefa, mas como promessa de que vai melhorar. Torne-se indispensável por vários motivos e não apenas por um.

Acredite, é sempre bom ter um "jogo" mais completo.




Direto na têmpora: Dirty boots - Sonic Youth