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segunda-feira, novembro 11, 2013

Frutas

Ah, minhas crianças, venho aqui lhes dizer que as frutas não nascem das gôndolas.


Venho contar como é bom catar amoras no mato e voltar pra casa inteiramente roxo, manchado até debaixo das unhas, com a roupa inutilizada, a barriga saciada e a alma lavada.

Como é bom aprender a usar uma faquinha inocente para “cascar” laranja sem estragar a casca e depois girar recitando as letras do alfabeto pra ver em que letra ela arrebentava. E essa letra, duvido que vocês saibam, crianças, seria a letra da pessoa com quem você iria casar.

Como é bom subir num pé de jabuticaba e ir “pocando” as cascas com os dentes e cuspindo os caroços no chão, deixando sementes de novas árvores e novas infâncias.

Como é bom ver as mangas “madurarem” quando chega a hora, comer o jambo oco e perfumado debaixo de uma sombra, torcer pra chegar o tempo de pitanga, fazer careta com a carambola roubada ainda verde da casa da esquina, gostar mais de um vizinho do que do outro porque na casa dele tem pé de ameixa japonesa.

Ah, minhas crianças, as frutas não são produtos em oferta, não brotam em bandejas, não vêm do outro lado do mundo a preços com muitos zeros. Isso são outras coisas.

As frutas, meus pequenos, são casca, caroço e caldos. São delícias lambuzadas, catadas, divididas, esperadas. São indicações e pontos de encontro “debaixo da bananeira”, “depois daquele lote que tem limão-capeta”, “a casa do Fulano é a que tem um cajueiro bem na entrada”.

Ou talvez não sejam mais isso. Talvez só existam descascadas e picadas no prato, na lancheira que vai pra escola, na gondola, na feira, no sacolão.

E se for assim, tudo bem, porque esse mundo não é mais meu. O meu ainda tem, e sempre terá, uma mão esticada, um corpo equilibrado, um olhar fixo na amora mais alta, aquela pretinha, madurinha, perfeita pra fazer o dia.
 
 
 
 
Direto na têmpora:  Sacrilege - Yeah Yeah Yeahs

segunda-feira, julho 09, 2012

Cadê Sophia?

 A festa já ia começar, mas cadê Sophia Comelli? Ninguém sabia.

Todo mundo já tinha chegado, a música estava animada, mas nada da Sophia chegar.

Tinham jogos, brincadeiras, correria e diversão, mas cadê Sophia Comelli? Não tinha chegado, não…

Foi aí que, um pouco preocupada, a meninada do Bolão começou a imaginar.

-       Será que um E.T., chegou na casa dela para tomar chá? – perguntou Enzo.

-       Pode ter sido que as plantas cresceram tanto que ela não conseguiu sair – argumentou Ana Carolina.

-       E se o pai dela virou um urso? – disse João Pedro.

-       E se a mãe dela virou uma pata? – espantou-se Maria.

-       Hmmm… eu acho que ela ficou comendo amora até perder a hora – rimou o Lucas Szuster.

-       Ou comendo broa até ficar à toa – completou Sophia Zeferino.

-       Pra mim, ela atrasou porque choveu mel e ela ficou grudada – sugeriu o João Victor.

-       Pois, pra mim, ela quis vestir uma roupa de geleia e ficou toda atrapalhada – respondeu a Ana.

-       Eu acho que uma bruxa quis sequestrá-la – assustou-se o Pedro França.

-       Eu acho que um ogro deixou ela presa dentro da mala – gritou a Julinha.

-       Aposto que ela errou o caminho e foi parar na Bahia – pensou alto o Henrique.

-       Ou pegou um ônibus e foi visitar a tia – falou baixinho a Lalá.

-       O foguete dela pode ter ficado sem gasolina – comentou o Dudu.

-       Ela pode ter ficado conversando com um sapo bonina – arriscou a Cacá.

-       Vai que um elefante sentou no pé dela – exclamou o Thomás.

-       Vai que a cara dela ficou toda amarela – emendou a Nicole.

-       Quem sabe ela está cuidando de mil gatos? – supôs o Marcelo.

-       Quem sabe ela precisou comprar mil sapatos? – divagou a Jojô.

-       Ela pode ter ganhado um sorteio de um milhão – animou-se o Lucas Passeado.

-       Ela pode ter ficado afundada no colchão – matutou o João Camilo.

Estavam todos assim, imaginando coisas malucas, quando chegou a Sophia bem feliz e sorridente.

-       SOPHIA, ONDE VOCÊ ESTAVA? – berraram todos juntos.

E então ela respondeu.

-       Meninada, meninada, vocês não sabem o que aconteceu. Eu já estava saindo de casa quando um E.T. amigo meu apareceu para tomar chá. Quando ele foi embora, eu tentei vir, mas as plantas tinham crescido tanto que fecharam a porta. Aí eu cortei tudo, mas meu pai virou um urso, minha mãe virou uma pata e eu demorei um tempão pra desfazer o feitiço. Quando eu acabei, fiquei horas comendo amoras e depois comendo broa. Aí caiu uma chuva de mel e eu fiquei toda grudada, vesti minha roupa de geleia e fiquei toda atrapalhada. Quando estava prontinha, uma bruxa tentou me sequestrar. Escapei dela, mas um ogro me pegou e prendeu dentro da mala. Foi uma luta pra escapar, mas saí correndo, errei o caminho e fui parar na Bahia. Precisava voltar depressa, então peguei um ônibus, mas, no meio do caminho, resolvi visitar minha tia. Pra chegar na hora, só mesmo de foguete, mas, imaginem só, o meu estava sem gasolina. Fiquei triste, mas aí chegou um sapo bonina e conversou comigo pra me animar. Quando fui me levantar, tinha um elefante no meu pé. Briguei pra ele sair e fiquei com a cara amarela de tanto gritar. Enquanto tiravam o elefante do meu pé e eu lavava meu rosto, passaram mil gatinhos e eu resolvi cuidar de todos eles. Foi aí que eu lembrei de um monte de aniversários e fui na loja comprar mil sapatos de presente. Comprei um cupom e ganhei um milhão na hora. Estava muito cansada de tanta atividade, então fui tirar um cochilo e, juro que é verdade, fiquei afundada no colchão. Quando consegui me livrar, peguei o dinheiro do sorteio, comprei um avião e pedi pro moço me trazer até aqui.

E aí, depois de tanta conversa, de tanta bagunça, de tanta aventura, de tanta história e de tanta confusão, sabe o que acontece? A festa acabou. Ah, e esta história também. Tchau!




Direto na têmpora: On Melancholy Hill - Gorillaz

terça-feira, março 27, 2012

Os tigres que caçavam bananas

Pouca gente sabe (na verdade, só eu sabia) que há muitos e muitos anos, os tigres caçavam bananas.

Não queriam saber de comer peixes, nem aves, nem vacas ou porcos. O que eles gostavam mesmo era de atacar uma bananeira indefesa e encher o barrigão com frutas bem maduras. E gulosos, com um apetite de tigre, comiam com casca e tudo.

Só que um dia apareceram macacos nas terras dos tigres. Aqueles bichos espertos logo se apaixonaram pelas bananas também e foi aí que o problema começou.

Como era muito rápidos, vinham saltando de árvore em árvore e logo estavam roubando as bananas dos tigres, que ficavam furiosos com aquilo.

A raiva era muita, mas você já tentou pegar um macaco? Era difícil demais e os tigres ficavam cada vez mais frustrados e com fome.

Chegou um dia em que sobrou apenas uma bananeira cheia, a maior e mais bonita delas. E de guarda por ali, ficava o mais feroz e poderoso dos tigres.

Os macacos queriam muito aquelas bananas, mas sabiam que com aquele tigrão não dava para brincar, então resolveram esperar.

Talvez você não saiba, mas os tigres também dormem, e assim que o grandalhão cochilou, um dos macacos subiu na bananeira e começou a catar as frutas.

Só que o rabo do macaco, comprido como ele só, encostou no focinho do tigre e começou a fazer cosquinhas balançando pra lá e pra cá.

O tigre acordou de repende e sem nem pensar deu uma mordida no rabo do macaco que fugiu como um raio.

Ah, mas vocês nem imaginam o que aconteceu. O tigre lambeu os beiços, sentiu o gosto e disse:

- Hmmmmm... mas isso é melhor que banana! Que coisa gostosa! Está resolvido: de hoje em diante é isso que eu quero comer.

E foi a partir daquele dia que os tigres pararam de comer bananas e começaram a comer veados, porcos-do-mato, bois, búfalos, peixes, macacos, é claro, e até gente.

Por isso, quando acabar essa história, olhe para trás com muito cuidado e veja se não tem um bicho enorme, laranja e preto olhando para você. Se estiver corra! Ou então tente dar uma banana pra ele. Quem sabe funciona?




Direto na têmpora: This tune - Television

terça-feira, agosto 23, 2011

Livros novos

Depois de amanhã vou a Ouro Preto para o lançamento do livro A Família Ouropretana, que comemora os 300 anos de Vila Rica. Nele, um texto meu sobre minha bisavó Maria Neves.

Hoje chegou à minha mesa o primeiro exemplar do livro Na Horta, no Jardim, No Quintal, meu quarto livro infantil publicado e que conta com as belíssimas ilustrações do meu compadre Rogério Fernandes.



Hoje também recebi por email a capa do meu livro Esse Bicho Virou História, o meu quinto livro infantil publicado e que, como o do parágrafo anterior, faz parte da Coleção Tracinho, da Editora Fina Traço.



Ontem mandei três materiais inéditos para outro possível projeto de livro infantil.

Na quinta, reunião para discutir ainda um outro livro infantil.

Amo escrever. Muito. E 2011 tem sido um ano ótimo nesse aspecto.

Só resta agradecer.




Direto na têmpora: In the dark - The Boy Who Trapped The Sun

quinta-feira, junho 02, 2011

Um pé apaixonado

Aquele pé era simplesmente apaixonado por uma menininha de cabelos cacheados e muito risonha.

Ele ficava olhando pra ela, queria conversar com ela, fazer carinho, mas a menina detestava.

- Sai daqui seu cascorento! Vai embora chulezento! Eca, eca, eca!


O pé então tomava um banho reforçado, cortava e limpava bem as unhas, passava cremes, jogava talco entre os dedos e ficava todo lindo e cheiroso só pra menina.

E você acha que adiantava? Que nada! Era só chegar perto que a meninca começava.

- Sai daqui seu cascorento! Vai embora chulezento! Eca, eca, eca!


O pé então ficava cada dia mais triste e mais choroso. E ele ficou tão desesperado de amor que resolveu procurar uma feiticeira que morava na floresta ali perto.

Bateu na porta da casinha, entrou e foi logo chorando:

- Buuuuuuááááá!!! Eu gosto dela e ela não gosta de miiiiiiiiiiimmmmm!!!

- Quem não gosta de você, pezinho?

- A menina sorridente dos cabelos cacheaaaaadooooooossss!!!

- Calma, calma, mas por que ela não gosta de você?

- Porque... porque... porque eu sou um... um... um péééééééé!!!


A feiticeira pensou, coçou a cabeça, procurou no seu livro de poções e feitiços e disse:

- Olha, pezinho, eu tenho aqui alguns feitiços de transformação, mas eu não sou muito boa nisso. Você quer que eu tente mesmo assim? Não dá pra ter certeza do resultado, hein?

- Eu quero, eu quero sim. Qualquer coisa é melhor do que ser um pé desamado.


A feiticeira então fez um pozinho na sua cozinha, jogou em cima do pé falou as palavras mágicas e bum... a transformação ficou completa.

Um tempinho depois, alguém bateu à porta da menininha. Ela abriu, mas não viu ninguém. Bateram de novo e ela sentiu um focinhozinho gelado cheirando seu pezinho.

Era um coelhinho bem branquinho e fofo que ela pegou e abraçou e amou e cuidou muito bem daquele dia em diante. E o coelhinho foi sempre feliz, feliz.

Mas o que a menina não sabia era que, depois que ela dormia, o coelhinho saía escondido, abria o armário e se deitava bem confortável dentro de algum sapato bem grande.

Ficava ali, aconchegado, sonhando bem descansado com o tempo em que ele ainda era pé.



PS - Essa historinha eu fiz pra Sophia, que simplesmente detesta quando meu pé diz que a ama e tenta dar uns beijninhos nela.




Direto na têmpora: Blue skinned beast - Madness

sexta-feira, maio 06, 2011

O bigode da bruxa

A bruxa Zita vivia em uma casa velha e escura, bem no meio da floresta. As amigas dela já tinham todas se mudado, mas a bruxa Zita continuava morando ali sozinha, longe de tudo e de todos.

Sabe o que é? É que a Zita tinha um pouco de vergonha de sair dali por causa do seu bigode. Sim, é a mais pura verdade, a bruxa Zita tinha um bigodão de meter medo em qualquer um. E nem em bruxas isso é legal.

Do outro lado da cidade, bem longe da floresta, Marcos estava morrendo de tédio. Não achava mais graça na televisão, não se divertia mais com seus jogos eletrônicos, nem descia para o playground do prédio para brincar.

Na verdade, Marcos queria era sair por aí, ver pessoas diferentes, conhecer lugares novos, viver aventuras. Mas ao invés disso, todo mundo dizia que ele era muito criança e Marcos apenas suspirava e brincava de novo com o game que ele já conhecia de cor.

Só que o tempo passou e, como todo mundo sabe, a vida é cheia de coincidências. O dia em que Marcos resolveu fugir de casa foi exatamente o mesmo dia em que a Zita decidiu largar seu cantinho solitário e correr mundo.

E aí, justamente porque a gente vive se encontrando e desencontrando por aqui e por ali, o menino Marcos e a bruxa Zita deram de cara um com o outro exatamente à meia-noite, na praça mais bonita da cidade.

Foram dois sustos grandes. Quer dizer, o Marcos tomou um susto grande e a bruxa Zita teve uma surpresa grande. De qualquer forma, os dois ficaram muito espantados.

- Gente, mas é um menino... o que será que ele está fazendo por aqui? - pensou a bruxa.

- Uau! É uma bruxa! E que bigode enorme! - foi o que pensou o Marcos.

Um ficou olhando para o outro sem saber o que falar, sem saber o que fazer e então, como se tivessem combinado, ele sentou na ponta de um banco e ela sentou na outra.

Ele tentava parecer mais alto, fazia cara de adulto e fingia não ter medo. Ela olhava pros lados, tentava esconder o bigode com a mão e fingia procurar alguma coisa em sua sacola.

Depois de alguns minutos, Marcos não aguentou mais de curiosidade e perguntou:

- A... a... a... a senhora é uma bruxa?

- Sou sim - disse a bruxa Zita tentando parecer simpática. Meu nome é Zita, muito prazer.

- Meu nome é Marcos - o menino respondeu baixinho. Você mora por aqui? Eu não sabia que havia bruxas na cidade.

- Bom, na verdade eu moro na floresta lá longe.

E com um olhar triste, Zita completou:

- Quer dizer, morava...

- Você fugiu de casa? Eu também fugi.

- Bom, eu acho que eu não fugi de casa. É que eu moro sozinha e não dá pra fugir de casa se não tem mais ninguém em casa, né?

- É, mas você pode estar fugindo de alguma coisa que não é uma pessoa. Pode fugir de um medo, de uma briga, de muito barulho, de um monte de coisas.

Os dois então falaram juntos:

- Da solidão...

Daí pra frente, eles foram conversando e sabendo cada vez um pouquinho mais sobre a vida do outro.

O Marcos ficou sabendo que a Zita tinha vergonha do bigode, que quase não saía de casa por isso, que era uma bruxa ótima em fazer poções de troca e que adorava morcegos e teias de aranha bem compridas.

A Zita ficou sabendo que o Marcos também era muito sozinho, que passava o dia inteiro no quarto, que detestava ser tratado como criança, que era fã de Harry Potter e odiava couve.

Falaram tanto, tanto, tanto que quando deram por si (ou será que é por sis?) já estava amanhecendo. A Zita então puxou sua capa e os dois dormiram naquela cabaninha, bem debaixo da estátua, sem que ninguém percebesse.

Os dois acordaram no meio da tarde e, talvez porque houvesse algum feitiço na capa da bruxa, ninguém incomodou os dois. Era um dia de sol e lá foram eles arranjar o que comer.

Marcos ofereceu um cachorro-quente para a Zita e ela, que nunca tinha experimentado, provou e adorou.

Zita fez um guisado de olhos de calango e o Marcos, por educação, teve que provar um pouquinho, mas achou tão delicioso que comeu tudo e ainda repetiu duas vezes.

Resolveram sair daquela cidade e continuar andando por aí. Conheceram lugarejos frios e antigos, passaram por cidades quentes e cheias de gente, brincaram no meio de vilas abandonadas e foram aprendendo um com o outro pelo meio do caminho.

Marcos aprendeu a fazer um guisado de calango quase tão bom quanto o dela e Zita já sabia todos os truques para arrebentar no Super Mario Kart. Ficaram amigos, mas amigos mesmo, como se sempre tivessem estado um do lado do outro.

Mas o tempo passa, a saudade aperta e a vida tem um jeito todo especial de lembrar a gente das coisas que ficaram para trás. Marcos andava com vontade de abraçar seus pais e Zita até sonhava com os longos vôos de vassoura ao lado das suas amigas.

Sem que nenhum dos dois precisasse falar nada, eles já sabiam que estava chegando a hora de dizer adeus.

Os dois tinham mudado muito naquele tempo juntos: estavam mais confiantes, mais corajosos, mais felizes. E um não queria ir embora sem dar um grande presente pro outro.

Nenhum dos dois se lembra (ou talvez se lembrem, mas não queiram contar) de quem foi a ideia da troca, mas o fato é que foi coisa de gênio. A Zita fez uma de suas famosas poções de troca e ziiiiiiiiiiiiinnnnnnnng! Seu bigode foi parar no rosto do Marcos!

Tá certo que na troca ela ganhou algumas espinhas do menino que já estava virando adolescente, mas nem ligou. Em bruxas, espinhas e verrugas são até charmosas. E o Marcos ficou felicíssimo com seu bigode novinho em folha que o fazia parecer mais velho, mais forte, mais poderoso.

Dizem que os dois choraram em silêncio na hora de partir, mas como um estava de costas pro outro, ninguém tem certeza se foi verdade ou não.

Zita reencontrou suas amigas e viveu mais dois mil anos fazendo feitiços, criando aranhas, voando de vassoura e, de vez em quando, se trancando por horas no quarto para jogar Super Mario Kart.

Marcos virou o rei da turma com seu belo bigode de bruxa e com as histórias incríveis que tinha para contar, mas volta e meia ainda ficava quieto, calado no seu canto.

Era um pouco de saudades, um pouco de tristeza, mas era algo mais também.

Ninguém me contou, mas eu sei, que o que o Marcos tinha mesmo era uma vontade danada de comer o guisado de olhos de calango que só a Zita sabia fazer.




Direto na têmpora: Flores - Cafe Tacuba

quinta-feira, maio 05, 2011

Um dinossauro, um quase-dinossauro e um mamute

Trina Tricerátopo

Tricerátopos são dinossauros chifrudos
E com a pequena Trina também é assim
Três chifres na testa muito pontudos
E a barriga bem cheia de comer capim

Mas um dia ela teve um problema profundo
Quando encontrou pela frente um estranho bichinho
Era o primeiro pássaro da história do mundo
Que viu a cabeça da Trina e fez o seu ninho




Erasmo Elasmossauro


Bem diferente e muito querido
Erasmo não era um dinossauro comum
Vivia na água, tinha pescoço comprido
E fazia bolhinhas quando soltava pum

Levantava a cabeça para respirar
Mas tinha um fôlego superfantástico
Se nascesse hoje em dia ia arrebentar
Na seleção americana de pólo aquático



Milton Mamute

Milton Mamute era um bicho pesado
Tinha patas enormes, admiráveis
Seu andar era firme e nunca apressado
E só comia vegetais muito saudáveis

Suas presas eram feitas de puro marfim
E seu pelo o protegia do frio assustador
Mas o clima esquentou, o gelo teve fim
E o pobre Milton quase morreu de calor




Direto na têmpora: I can't win - The Strokes

sexta-feira, abril 29, 2011

Três dinossauros

Pedro Pterodáctilo

Pedro Pterodáctilo tinha uma voz horrível
E voava bem alto quando queria cantar
Lá em cima, sozinho, se achava incrível
E soltava agudos de arrepiar

Mas um dia berrando se distraiu
E foi cantando e voando entusiasmado
Tão alto, tão alto ele subiu
Que chegou perto do sol e saiu todo queimado



Bob Brontossauro


Bob Brontossauro era o maior pescoçudo
Vivia escutando a conversa alheia
Era um fofoqueiro, dava notícia de tudo
E deixava todos de cabeça cheia

Outro dia algum bicho ficou bem zangado
E passou uma rasteira naquele enxerido
O Bob caiu todo desengonçado
E ficou bem quietinho com o pescoço torcido



Tito Tirassonauro

Tito Tiranossauro era assustador
Tinha garras enormes e era muito voraz
Por onde passava levava o pavor
E todos fugiam sem olhar para trás

Mas havia um problema que dava canseira
Ao tiranossauro que comia bichinhos
Quando tinha nas costas alguma coceira
Nunca alcançava com os braços curtinhos




Direto na têmpora: Whistle for the choir - The Fratellis

Os brinquedos

Mais uma historinha "orientada" pelos meninos da AURA.


Eram três amigos bem diferentes
Amigos de verdade, do coração
Espertos, fortes e inteligentes
Um ogro, um burro e um dragão

Você deve estar pensando
“Eu conheço esse esquema,
Eu conheço esse bando
Eles são do cinema”

Mas fique bem atento
Ao que eu vou te dizer
Espere um momento
Que eu vou esclarecer

Esse trio estranho do qual eu falei
Não é do Shrek e nem é da Fiona
Aqui não tem bruxa, aqui não tem rei
Também não tem gato com uma botona

Estes três amigos moram em outro lugar
Um quarto quentinho de um menino sardento
E ficam quietinhos se ele acordar
Guardados no canto de um apartamento

Mas quando o garoto entra em sono profundo
Eles correm e vivem milhões de aventuras
Não são mais bonecos, são donos do mundo
São seres bem vivos, imortais criaturas

Por isso, não trate tão mal seus brinquedos
Não deixe a boneca e o carrinho jogados
Pois cada um deles tem seus segredos
E você não vai querer que eles fiquem zangados





Direto na têmpora: Told you so - The Guggenheim Grotto

quarta-feira, abril 20, 2011

Adiantando o texto da AURA

Um fazendeiro morava em um sitiozinho com seus três filhos. Era uma família pobre, mas muito feliz e que vivia em um lugar cheio de árvores, com muitas frutas e um riachinho de água fresca que corria ali perto.

Um dia, o fazendeiro descobriu que tinha acertado os números da MegaSena. Era dinheiro demais e todos eles ficaram muito felizes, já pensando nas coisas boas que iriam conseguir.

A primeira coisa que o fazendeiro fez foi ir para a capital e comprar um apartamento bem grande, em um prédio bem alto, no meio de uma cidade enorme. Era um lugar cheio de luxo e conforto, e o fazendeiro levou os filhos pra lá rapidinho.

Só que o tempo foi passando e as crianças não estavam nada felizes. Sentiam falta da rocinha deles e só foram sorrir mesmo quando a avó deles apareceu no apartamento para visitar.

A avó então começou a reparar nos meninos na hora das brincadeiras:

- Esses meninos estão sempre assustados, parecem passarinhos...

Na hora do almoço:

- Esses meninos comem pouco, parecem passarinhos...


Na hora do sono:

- Esses meninos têm o sono leve, parecem passarinhos...


Depois que ela foi embora, as crianças ficaram ainda mais quietas e passavam horas olhando pela janela.

Um dia, o pai estava assistindo alguma coisa em sua supertelevisão de plasma quando de repente um dos meninos se jogou pela janela. Depois dele, veio o outro e também saltou. Antes que o pai pudesse se recuperar do susto, o terceiro fez o mesmo e também se foi.

O pai correu pela janela desesperado. Olhou para o chão, mas não viu nada. Olhou para o céu e percebeu três passarinhos coloridos voando sobre o céu cinza daquela cidade enorme.

Alguns dias depois, cheio de tristeza e de culpa, o pai vendeu o apartamento e voltou para o seu velho sítio. Chegando lá, reparou em três passarinhos coloridos. Um que bebia água no riachinho, outro que bicava uma goiaba em uma das árvores e outro que pousou no ombro dele e começou a cantar, cantar, cantar.

O pai nunca mais saiu do sítio e foi muito feliz com toda aquela beleza à sua volta e com os três passarinhos que viviam livres, felizes e que estavam sempre ao seu lado.




Direto na têmpora: Psychogirl - Jens Lenkman

terça-feira, abril 19, 2011

Bilboquê

Escrever para mim é quase uma necessidade. Não falo apenas do meu trabalho como redator publicitário, mas também do blog, das redes sociais, dos meus pequenos contos, das historinhas infantis, de tudo o que produzo, enfim.

Por isso, vocês não podem acreditar na alegria que vivi hoje na Bilboquê, uma escola de Belo Horizonte que escolheu o meu "Estranhas Histórias" para realizar um trabalho precioso com seus alunos por volta dos 5 anos, mais ou menos da idade da Sophia.

Antes de mais nada, enquanto visitava a escola acompanhado pela Coordenadora Maria Helena, uma turma de criancas me avistou e começou a gritar "Ei, Maurilo" e vieram todos pulando de alegria me abraçar.

Descemos para onde seria o evento e me emocionei com tudo, desde o avental com a temática do livro usada pela educadora Júnia, responsável pelo projeto, até as perguntas que as crianças me fizeram.

A turma escolheu alguns textos e as crianças fizeram cada uma o seu "Estranhas Histórias" personalizado, com ilustrações próprias dos textos. Além disso, fizeram um quebra-cabeça com os personagens, criaram um bonequinho da Maria Mola e, ponto máximo, cada um desenvolveu um personagem original, fez um boneco e escreveu a história. Conheci o João Elétrico, o Menino ET, a Ivete Maluquete, a Menina Flor, o Rafael Boneco de Papel e muitos outros.

Como encerramento, ainda cantaram uma canção de agradecimento falando das crianças inventadas do Sítio do Picapau Amarelo.

Ao Bilboquê, meu agradecimento por este momento tão maravilhoso que faz valer cada linha que já escrevi em minha vida. À Júnia e à Maria Helena, os parabéns pelo cuidado e pela beleza do projeto.

Às crianças Artur, Bernardo, Camila, Gustavo, João Pedro, Natalia, Sara, Vitor e todas as outras de outras turmas que estiveram ali, um beijo enorme e o desejo que continuem tão entusiasmados pela leitura como eu pude ver hoje.

Uma bela manhã de terça salvando um dia que não prometia muito.










Direto na têmpora: Let's Get Out Of This Country - Camera Obscura

segunda-feira, abril 11, 2011

Noite de lua cheia

Fazia um frio danado e era noite de lua cheia. Três meninos caminhavam pela floresta, um agarrado na roupa do outro, tremendo de medo.

Andavam, andavam, andavam e ficavam cada vez mais perdidos, cada vez mais assustados, cada vez com mais fome e com mais sono.

De repente, ouviram um uivo longo e horrível:

- Aaaaaauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!

Os três meninos se agarraram ainda mais. Será que era um lobo? Será que era um monstro? Que bicho faria aquele barulho horrível?

Eles então ficaram quietinhos. De repente, os meninos viram uma luzinha bem ao longe. Foram andando pé ante pé, com muito cuidado e cada vez que escutavam aquele barulho medonho, quase morriam de susto.

De repente, eles chegaram perto da luzinha e viram uma casa escura, velha, caindo aos pedaços. Chegaram perto e deram um pulo! O uivo terrível vinha lá de dentro! E agora, o que eles poderiam fazer?

Os três então foram andando de costas quando de repente um homem alto e barbudo, todo sujo de carvão apareceu e segurou os três.

- Ora, ora, vocês por aqui? Venham, venham conhecer minha casa.

Os meninos gritaram, espernearam, tentaram fugir dali, mas o homem era muito forte e levou os três para dentro da casa.

Eles fecharam os olhos e ouviram aquele som assustador de novo, dessa vez do lado da orelha deles e muitos barulhos de pratos, gente falando e... risos.

Peraí, risos!?

Eles então abriram os olhos e, quando viram, tinha um monte de crianças sentadas em volta de uma mesa, comendo ensopados, saladas, carnes e delícias de todo o tipo.

Os meninos pularam de alegria, sentaram com os outros e comeram, comeram, comeram até cansar. E só quando ouviram de novo o uivo é que foram perceber que ele vinha de uma enorme panela de pressão, cheia de mais uma sopa gostosa que eles iam provar em seguida.




Direto na têmpora: Sticky honey - Juliette & The Licks

terça-feira, março 29, 2011

A medida do carinho

Eu sempre fui desmedido em meus carinhos. Gosto do abraço apertado, de jogar pro ar, de grudar com vontade. Meu carinho é arrebatamento puro, carece de delicadeza.

Na AURA estou aprendendo, a duras penas, que é possível amar muito e leve. Dosar o toque, evitar o abraço, privilegiar a sensibilidade.

São crianças com limitações e dores e impedimentos e embora seja precisa amá-las exageradamente, é preciso ser moderado no contato.

É difícil pra mim, mas estou aprendendo. Abaixo, uma foto da turminha que lá esteve hoje e a historinha que fiz a partir do pedido deles de incluir: falcão de fogo, vizinho e dentes-de-sabre. A próxima terá: três meninos, um lobo, uma noite de lua cheia.


Atrás, da esq. para a dir.: Eric, Juninho, Sabrina, Samara e Vanderlúcio. Na frente, da esq. para a dir.: Emerson, Oseias, Rainer, Evelyn e Lorena.



O falcão de fogo


Do lado da casa de um homem, vivia um falcão de fogo, em cima de uma grande árvore. Era um pássaro muito bonito, de asas brilhantes e bico forte, rápido como uma flecha.

Só que tinha um problema, só o homem conseguia ver o pássaro, ninguém mais.

E aí aconteceu o que a gente já sabia que ia acontecer: o homem ficou com fama de doido. Todo mundo ria dele e gritava “olha lá o doido do falcão”, “lá vai o maluco que vê bichos de fogo”.

Mas o homem nem ligava, continuava olhando pro pássaro na árvore ao lado e acreditando nele como quem acredita nas próprias mãos.

Um dia, uma chuva muito forte caiu na cidade. O rio subiu e muitas casas foram inundadas. Pessoas ficaram presas em cima dos telhados, gente se agarrou a árvores e ninguém sabia o que fazer.

O homem que todos achavam louco morava em um lugar bem alto e lá de cima viu aquilo tudo acontecer. Ele então foi correndo pra árvore e começou a pedir socorro para o falcão de fogo:

- Ajuda eles, falcão! Você é forte, você é rápido, você pode salvar essa gente!

Enquanto isso, lá embaixo na cidade, a água continuava subindo. Já tinha gente achando que ia se afogar quando, de repente, um rastro flamejante desceu como um raio e começou a pegar pessoas em suas garras e levar embora.

No começo todos se assustaram, mas depois começaram a perceber que aquela luz estava levando todos para um lugar seco e seguro. Em poucos minutos, todo mundo estava salvo.

A partir daquele dia, ninguém nunca mais duvidou do homem. Eles ainda não viam o falcão, mas aprenderam a acreditar que nem tudo o que é verdadeiro a gente consegue enxergar.

E por isso, quando o homem contou que tinha um tigre dentes-de-sabre morando em um quartinho da sua casa, ninguém duvidou, ninguém riu, ninguém achou que ele estava maluco.

Todos deram os parabéns ao homem e ficaram muito felizes em saber que além do falcão de fogo, a cidade agora tinha outro amigo para cuidar deles, mesmo que eles não pudessem ver.

Afinal, tem muitas coisas que a gente só enxerga de verdade, com os olhos do coração.




Direto na têmpora: Be sweet - The Afghan Whigs

sexta-feira, março 04, 2011

O fazendeiro e o Burumbá

Um fazendeiro vivia com sua mulher e seus 5 filhos em uma fazenda bem grande.

Era um lugar bonito e cheio de bichos. Tinha vacas, cavalos, porcos, galinhas, perus e um monte de outros animais que andavam soltos ali por perto como cobras, capivaras, tucanos, micos e sapos.

Só que o fazendeiro tinha um segredo. Além desses bichos todos, ele guardava em um lugar bem escondidinho um Burumbá.

Aí você me pergunta "o que é um Burumbá"? E eu te respondo: Burumbá é um bicho do tamanho de um gato, com uma pelagem preta comprida, uma cabeça bem grande, olhos de jacaré e uma boca pequena, mas que fala todas as línguas de gente e de bicho.

O fazendeiro passava horas trancado no esconderijo conversando com o Burumbá, ouvindo histórias, contando causos e levando broa de fubá, que era o que o bicho mais gostava de comer.

Um dia, o filho mais novo do fazendeiro resolveu seguir o pai e encontrou o esconderijo. Entrou e tomou o maior susto quando viu o Burumbá.

O menino ficou assim, assustado, meio sem saber o que fazer, mas quando o Burumbá começou a conversar com ele, foi se acalmando e achou que o bichinho até que era muito simpático.

Assim que saiu dali, foi correndo e contou o segredo pro irmão número 4, que contou pro irmão número 3, que contou pro irmão número 2, que contou pro irmão número 1, que contou pra mãe, que contou pra cozinheira, que contou pro capataz.

A novidade se espalhou e, de uma hora pra outra, todo mundo ia conversar com o Burumbá, até mesmo os bichos da fazenda e da mata.

O fazendeiro logo percebeu o que estava acontecendo e ficou morrendo de raiva. Brigou com todo mundo, tentou tirar o Burumbá dali, mas as pessoas tanto pediram que ele levou o Burumbá pra morar na casa.

Alguns dias se passaram e o fazendeiro percebeu que as vacas tinham parado de dar leite e nem chegavam mais perto do laguinho. Um tempinho depois, os porcos começaram a latir como os cães. Tudo muito estranho, mas a gota d'água foi quando os perus começaram a esconder os ovos das galinhas.

O fazendeiro ficou muito desconfiado daquilo tudo e resolveu ficar bem atento pro que andava acontecendo. Não demorou muito e ele reparou que o Burumbá ficava andando de um lado pro outro, conversando com todos os animais e que por onde ele passava, tudo ia ficando estranho.

Ele então pegou o Burumbá, trancou em um quartinho e perguntou:

- Burumbá, Burumbá, o que é que você anda fazendo por aí que os bichos estão ficando esquisitos?

E o Burumbá calado.

- Burumbá, Burumbá, é melhor você me contar a verdade.

E o Burumbá calado.

Aí o fazendeiro pegou um pedaço de fumo de rolo, que era a única coisa que assustava o Burumbá e chegou bem pertinho dele.

Na mesma hora o bichinho começou a falar e contou pro fazendeiro tudo o que tinha feito. Não é que o sem vergonha andava fofocando com os bichos todos?

Falou para as vacas que os peixes tinham dito que bicho nenhum aguentava o cheiro de leite delas. Falou pros porcos que todo mundo detestava o grunhido deles e amava o barulho dos cachorros. Falou pros perus que o fazendeiro não gostava deles e que era por isso que ele só pegava os ovos das galinhas.

Pra desfazer aquela confusão toda foi uma trabalheira danada. O fazendeiro ficou tão bravo que fez o Burumbá contar a verdade, pedir desculpas para todos os bichos e depois mandou ele embora pra nunca mais voltar.

Depois daquele dia, a fazenda voltou ao normal, mas no fundo, no fundo, todo mundo sentia falta das conversas com o bicho falador.

E o Burumbá? Ah, o burumbá foi pra mata e logo arranjou uma toca pertinho da curva do rio pra morar.

Dizem que ele anda muito feliz, falante como nunca, mas que naquela região, agora a anta tenta subir em árvores, a onça só come cogumelos e os macacos choram sem parar, mas ninguém entende porquê.


PS - Esse texto foi criado a partir de uma sugestão do Gustavo, uma das crianças que conheci na AURA.




Direto na têmpora: Sweet tides - Thievery Corporation

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Lagarta ou borboleta, sei lá

Depois que fiz o poeminha da lagarta pra turminha da Sophia ela veio me dizer que talvez tenha se confundido e que é bem possível que seja Turma da Borboleta.

Enfim, só pra garantir, segue um texto que já tinha colocado aqui mesmo no Pastelzinho, mas que pode tornar-se subitamente relevante outra vez.


Borboleta é um bichinho que é feito de vento, Sophia, com um pouquinho de tinta em cima.

Borboleta é raiozinho de sol, Sophia, na hora que aprende a brincar.

Borboleta é uma flor que se apaixonou pelo beija-flor e não quis mais saber do chão, Sophia.

Borboleta é um sonhozinho que escapa da nossa cabeça quando a gente acorda feliz, Sophia.

Borboleta é a lagarta, Sophia, quando descobre o que é mágica.

Borboleta, Sophia, é um arco-íris que gosta de flores.

Borboleta é uma paixãozinha bem leve que acaba ganhando asas, Sophia.

Borboleta, Sophia, é uma coisinha feita de todas as cores do "sim".

Borboleta é o que leva a gente, Sophia, quase sem peso, quase só cores, pra onde o nosso "querer" mandar.

Borboleta, Sophia, é o milagre da metamorfose, é o efeito do vento, é um pouco jardim, é um presente que veio do seu pedido, um bichinho que vi de outro jeito com esses olhos que você empresta pra mim.





Direto na têmpora: October - Broken Bells

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Turma da Lagarta

Sophia agora é da Turma da Lagarta no Clic e aí eu fiz isso aqui.


Ondulando ela vai, como o lápis sobre uma carta

O bicho se empreguiça, se empanturra e nunca se farta

Ai, como come a lagarta


De tanto se encher fica gorda, feliz como pinto no lixo

E segue sempre faminta, com seu andar de encolhe-espicho

Ai, como come esse bicho


Até que se vê enorme, de forma bela e roliça

E sente soprar nos olhos alguma antiga preguiça

Ai, uma rede de treliça


Se enrola toda de seda, quietinha na posição

Seu casulo é sua cama e dormir sua profissão

Ai, ter o sonho como função


Então, desperta diversa, impossível reconhecer

Agora já é borboleta, que nunca se soube ser

Ai, lagarta virou borboleta, vida nova para viver





Direto na têmpora: Someone like you - Adele

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Rango!

Johnny Depp interpreta (sim, Luciano Huck, "interpreta") a voz do camaleão Rango na próxima animação fodásticva que eu já estou doido pra ver. Saca só.







Direto na têmpora: Factory - Band of Horses

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Outros monstrinhos

Do monstro cheio de dentes

É fácil seguir a pista

Basta ir atrás do barulhão

Do motorzinho do dentista


__//__


Nariz longo, cheiro ruim

E o corpo todo escamoso

O monstro não come gente

Mas acha ratinho gostoso


__//__


Atacava como uma cobra

Voava como um pardal

O monstro se distraiu

E deu de cara na catedral




Direto na têmpora: Answer to yourself - The Soft Pack

segunda-feira, janeiro 17, 2011

Porra, Luciano

Não tenho nada contra o Luciano Huck. É um apresentador que se comunica bem com o povão, que tem um programa bem produzido e que, pelo que me consta, pode até ser alguém simpático na vida privada. Isso sem falar que nos apresentou Dani Bananinha, Feiticeira, Tiazinha e, por isso, agradeço.

Valeu, Huckão, mas dublagem nunca mais, falô?


Acontece que alguém teve a ideia de colocar o Huck como a voz do personagem Flynn na nova animação da Disney, "Enrolados". Péssima ideia. Horrível mesmo.

Luciano Huck quase tira todo o prazer de assistir o filme. Não, não é só porque a voz dele já seja conhecida e você fique lembrando da cara dele quando assiste o desenho. É pior. Luciano Huck não sabe interpretar e deixa o personagem completamente sem emoção e sem qualquer tipo de simpatia.

Tá certo, ele não é ator e não tem a obrigação de saber interpretar, mas então por que ele? Por que não usaram alguém capaz de fazer bem a voz do personagem? Por que submeter tantas pessoas a esta tortura monótona?

O pior é que a voz da Rapunzel é ótima, da madastra é ótima, o filme tem um visual maravilhoso, os personagens coadjuvantes são muito legais, a trilha é bem bacana e, ainda assim, no meio de tudo isso está lá a voz do Luciano Huck, destruindo tudo como uma barata morta no meio do delicioso jantar.

Enfim, se você tem filhos, assista. Se não tem, procure uma versão legendada ou aguarde o DVD e assista em casa com legendas.

A verdade é que fiquei com tanta raiva da voz do Luciano no meio do filme que nem a lembrança da Tiazinha, da Feiticeira e da Dani Bananinha amenizaram a dor. Maldição.




Direto na têmpora: Iceage babeland - Natalie Portman's Shaved Head

segunda-feira, janeiro 03, 2011

A cabritinha e a ovelhinha

Sophia pediu e eu fiz mais uma historinha pra ela. Se alguém aí gostar, fique à vontade para contar em casa ou arranjar editora, beleza?


Lita era uma cabritinha muito boazinha, que vivia em uma fazenda cheia de animais em um lugar muito bonito.

Ela era muito querida por todos, educada, amiga e sempre que podia ia visitar os outros bichos para conversar e se distrair um pouco.

Um dia, quando chegou perto do galpão onde viviam as ovelhas, a Lita teve uma surpresa: lá dentro estava uma ovelhinha tão bonita como ela nunca tinha visto.

Ah, eu me esqueci de contar para vocês que a Lita era também um pouco insegura, sabe. Mesmo com muitos amigos ela não se achava tão bonita e pra ela isso era um problemão. Sabe por quê? Porque ela achava que os outros bichos só iam gostar dela de verdade se ela fosse linda, olha só que bobagem...

Bom, mas o que é bobagem para uns, para outros é muito importante, aí aconteceu que a partir daquele dia a Lita não teve mais sossego. Ela vivia achando que os amigos dela iam gostar mais da ovelhinha nova, que ela ia acabar ficando sozinha e um monte de outras coisas ruins. Aí ela tomou uma decisão! Ela tinha que fazer alguma coisa, porque daquele jeito não podia ficar.

Lita foi para casa e começou a executar seu plano. Passou um dia inteirinho trancada no estábulo, se preparando toda e deixou todo mundo curioso.

Quando Lita saiu, parecia outra pessoa. Ela tinha colado as orelhas com fita adesiva pra elas ficarem mais curtas, tinha enchido o corpo de algodão bem branquinho, tinha escondido seus chifrinhos com um pano branco, tinha enchido as bochechas de alfafa para elas ficarem mais gordinhas e tinha até colocado uma lente de contato para mudar a cor dos olhos.

Os outros animais quando viram aquilo, caíram na gargalhada. “Que coisa mais esquisita!” gritavam eles. “É uma cabra com jeito de ovelha... uma cabrelha!” falou alguém. E a pobre da Lita, morrendo de vergonha, saiu correndo dali.

Ela se escondeu atrás de uma árvore bem grande e ficou chorando baixinho, bem quietinha pra ninguém ouvir. De repente, ela ouviu uns passos cuidadosos e o rosto de uma ovelha apareceu entre as folhagens. Era Sophia, a ovelhinha que a Lita quis imitar!

- Oi, Lita, está tudo bem com você? O que foi que aconteceu? – disse Sophia com carinho.

- Nada... me deixe sozinha...

- Olha, eu sei que a gente não se conhece direito, mas pode se abrir comigo. Eu estou aqui pra te ajudar.

Lita ficou calada, sentindo uma coisa que ela não sabia direito o que era. Será que a culpa daquela bagunça era da Sophia? Será que ela realmente queria ajudar ou só tinha ido ali para rir dela?

Sophia então, meio sem jeito disse:

- Posso te contar um segredo? Eu quase fiz a mesma coisa que você.

A Lita tomou um susto.

- O Quê? Como assim?

- É... eu sempre achei você linda, sabe? Você é magrinha, tem esse pelo curtinho, esses chifrinhos moderníssimos, esses olhos diferentes, essas orelhas longas e charmosas... sempre que eu te via, ficava achando que nunca ia me enturmar na fazenda porque todos sempre iam gostar mais de você.

A Lita não podia acreditar no que estava ouvindo, mas a Sophia continuou.

- Um dia, eu guardei duas cenouras do lanche, joguei no barro branco atrás do moinho, deixei só a pontinha e coloquei bem em cima da minha cabeça. Meu pai viu aquilo e veio falar comigo. Quando eu contei que queria ser igual a você, ele me explicou que todo mundo é diferente. As vacas são lindas porque são grandes e gordas, com aqueles olhos redondos. Os cavalos são maravilhosos por causa do seu pelo brilhante e do seu porte elegante. Cada um bonito do seu jeito.

A Lita baixou a cabeça e ficou pensando um pouquinho. Não é que a Sophia tinha razão? Até a Pururuca, uma leitoazinha nova, era linda com aquele focinho achatado e a pele bem rosinha. E mesmo que não fosse bonita, ninguém gostava mais ou menos dela por causa disso.

A Lita então começou a perceber que tinha feito uma grande bobagem. Foi andando até o riachinho e tirou aquela fantasia toda.

Depois daquele dia, Lita e Sophia ficaram inseparáveis. É claro que uma continuava achando a outra a coisa mais linda do mundo, mas isso agora nem importava. O que importava mesmo, é que cada uma tinha a sua beleza, o seu jeito, os seus gostos e que era também por serem diferentes, que elas eram amigas de verdade.





Direto na têmpora: Gila - Beach House