Amar a Liras de Sintra é de um impossível tão tamanho quanto esquecê-la. O segredo que Padre Alberto descobriu quando deixou a cidade, 13 anos depois de chegar, não era em verdade segredo algum e pairava, morno sobre os telhados de um vermelho acanelado, como alguma forma de certeza indiscutível.
Na igreja que ainda rescendia a mesquita batizou almas, expurgou pecados, confortou os exaustos e distribuiu esperanças insossas. Agora, enquanto fazia as malas, era apenas um gosto de fim que sentia aos fundos da língua.
Os sapatos de um couro amolecido pela lida sequer rangiram quando Padre Alberto atravessou a sacristia e ajoelhou-se em frente ao altar uma última vez. Logo seria sequer lembrança, um rosto qualquer que se esvai da memória de um lugar que esquece para viver.
E com certas ervas de poder conhecido, Marina também se esqueceria. De Padre Alberto, do início de um filho que agora expulsava do ventre, da vergonha e prazer no muro do cemitério.
Com as folhas de gosto forte, arrancava de si um passado, para ser esquecida ela própria como qualquer dor em Liras de Sintra.
Direto na têmpora: Sleep to dream - Fiona Apple
Mostrando postagens com marcador Liras de Sintra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Liras de Sintra. Mostrar todas as postagens
terça-feira, maio 25, 2010
quinta-feira, fevereiro 25, 2010
Liras de Sintra e o Porto
Os peixes abertos de tripas expostas serviam-se às aves e ao vento salgado de Liras de Sintra. Os braços ainda atracados às redes, as mulheres sempre em casa a esperar e o dia seguindo em um lento e insípido arrastar.
Ainda havia o sol quando Pedro Aires deitou-se à areia, mirando uma nuvem com certa forma familiar que ele teimava em não reconhecer. Atrás de si, os telhados de um vermelho acanelado pareciam respirar.
Em torno do seu pensar, tudo era Aurélia, embora ela não mais se houvesse em Liras de Sintra. Pedro Aires ainda pescava como ofício, ainda comia o que a mãe lhe preparasse, ainda era todo certeza de que sua vida ali lhe bastava.
E no entanto havia Aurélia a vestir-se em convite, desenhada em suor e desejo, e, na sua mente, o Porto já ganhava cores de futuro, já soava nome de algo real.
Direto na têmpora: All the beautiful things - Eels
Ainda havia o sol quando Pedro Aires deitou-se à areia, mirando uma nuvem com certa forma familiar que ele teimava em não reconhecer. Atrás de si, os telhados de um vermelho acanelado pareciam respirar.
Em torno do seu pensar, tudo era Aurélia, embora ela não mais se houvesse em Liras de Sintra. Pedro Aires ainda pescava como ofício, ainda comia o que a mãe lhe preparasse, ainda era todo certeza de que sua vida ali lhe bastava.
E no entanto havia Aurélia a vestir-se em convite, desenhada em suor e desejo, e, na sua mente, o Porto já ganhava cores de futuro, já soava nome de algo real.
Direto na têmpora: All the beautiful things - Eels
Labels:
Liras de Sintra,
literatura
quarta-feira, agosto 12, 2009
Ponta dos Caroços, Liras de Sintra
Em Liras de Sintra, os amares que se fazem em segredo acontecem às escuras, além das rochas que cercam o vilarejo. São amares e amantes que sabem a sal e que se desfazem da nostalgia que lhes impregna as roupas para rasgarem as peles na areia e cegarem-se os olhos diante da imensa dor que cada manhã lhes inflinge.
Chamam Ponta dos Caroços ao acidente geográfico que recebe os casais embebidos em fuga e sonho. Um nome que diz nada, que surgiu dos navios emborcados que despejam ali estranhas frutas das índias, e que hoje sinonimiza 20 minutos de paz.
Na Ponta dos Caroços os corpos são apenas corpos e os encontros são eternos em sua fugacidade. São olhos e mãos e sexos e peles que se desprendem e se tocam resvalando o universo em medidas infinitesimais.
E é ali que, recarregadas de infinito, as jovens almas de Liras de Sintra se reconhecem, se preenchem e se preparam para içar velas que as levem distantes por quaisquer caminhos.
Se Liras de Sintra é berço, é também o maior dos pesos.
Direto na têmpora: Twist - Phish
Chamam Ponta dos Caroços ao acidente geográfico que recebe os casais embebidos em fuga e sonho. Um nome que diz nada, que surgiu dos navios emborcados que despejam ali estranhas frutas das índias, e que hoje sinonimiza 20 minutos de paz.
Na Ponta dos Caroços os corpos são apenas corpos e os encontros são eternos em sua fugacidade. São olhos e mãos e sexos e peles que se desprendem e se tocam resvalando o universo em medidas infinitesimais.
E é ali que, recarregadas de infinito, as jovens almas de Liras de Sintra se reconhecem, se preenchem e se preparam para içar velas que as levem distantes por quaisquer caminhos.
Se Liras de Sintra é berço, é também o maior dos pesos.
Direto na têmpora: Twist - Phish
Labels:
Liras de Sintra,
literatura
terça-feira, janeiro 13, 2009
Uma outra Liras de Sintra
Em Liras de Sintra, a cegueira dói um pouco menos do que em outros sítios. Não se perde muito dos telhados de um vermelho acanelado ou da mesquita cambiada em igreja. Em Liras de Sintra, o não enxergar compensa-se.
A própria luz baça não clama à visão em Liras de Sintra, e o sabor dos vinhos ou o sal marinho na face não se perdem por não ver.
A Jonas de Bastos nasceram-lhe os olhos sem uma luz sequer. Adivinha o amadeirado das casas, o abrutalhado das ladeiras, o profundo do triste que há em sua cidade. As Liras de Sintra de Jonas de Bastos são outras e ainda as mesmas de quem ali vive.
Trabalha no mais delicado artesanato de velas e a cera faz-se amiga das pontas dos dedos delicadas, capazes de auscultar com medida os desejos da matéria inerte. Vende-as para usos toscos, de casas pobres e assim sustenta-se. Come seu peixe, mastiga seu pão e bebe seu vinho. Faz da lida o seu viver e nada mais vive.
Jonas de Bastos não vê o uso pouco que se faz de sua arte. E nem se importa. Seu ofício é dar forma à luz e assim cumpre o seu enxergar.
Direto na têmpora: Dance on Glass - The Sisters of Mercy
A própria luz baça não clama à visão em Liras de Sintra, e o sabor dos vinhos ou o sal marinho na face não se perdem por não ver.
A Jonas de Bastos nasceram-lhe os olhos sem uma luz sequer. Adivinha o amadeirado das casas, o abrutalhado das ladeiras, o profundo do triste que há em sua cidade. As Liras de Sintra de Jonas de Bastos são outras e ainda as mesmas de quem ali vive.
Trabalha no mais delicado artesanato de velas e a cera faz-se amiga das pontas dos dedos delicadas, capazes de auscultar com medida os desejos da matéria inerte. Vende-as para usos toscos, de casas pobres e assim sustenta-se. Come seu peixe, mastiga seu pão e bebe seu vinho. Faz da lida o seu viver e nada mais vive.
Jonas de Bastos não vê o uso pouco que se faz de sua arte. E nem se importa. Seu ofício é dar forma à luz e assim cumpre o seu enxergar.
Direto na têmpora: Dance on Glass - The Sisters of Mercy
Labels:
Liras de Sintra,
literatura
quinta-feira, setembro 25, 2008
Certos dias em Liras de Sintra
Em certas ruas de Liras de Sintra, a melancolia é o vizinho senil que se finge não ver. E mesmo como o vizinho que persiste, o escolher não mirá-lo não faz dele menos inconveniente.
O olhar perdido ao estripar o peixe, os dedos sujos de sangue e entranhas nas mesas toscas de uma madeira clara e manchada. Ao lado, a faca larga, de fio infalível. O gume ao alcance da mão, os olhos abertos do peixe e o cheiro de um mar indifente.
Em certos dias, em certas casas, viver é o exercício supremo em Liras de Sintra.
Direto na têmpora: Funkin' For Fun – Parliament
O olhar perdido ao estripar o peixe, os dedos sujos de sangue e entranhas nas mesas toscas de uma madeira clara e manchada. Ao lado, a faca larga, de fio infalível. O gume ao alcance da mão, os olhos abertos do peixe e o cheiro de um mar indifente.
Em certos dias, em certas casas, viver é o exercício supremo em Liras de Sintra.
Direto na têmpora: Funkin' For Fun – Parliament
Labels:
Liras de Sintra,
literatura
segunda-feira, junho 09, 2008
Chuvas em Liras de Sintra
A chuva em Liras de Sintra, quando verte em tempos de frio, encharca os órgãos dos vivos, entranha-se nas paredes das casas, faz brotar o limo como mato nas ladeiras.
As chuvas em Liras de Sintra fazem descer das prateleiras aguardentes escondidas que substituem os bons vinhos de uvas raras e que aquecem o espírito dos que se lançam ao mar e também daqueles que somente esperam.
Os rubros telhados ganham um tom ainda mais vermelho de terra rica e a terra se faz algo nova, como que de outra substância, quando vêm as chuvas a Liras de Sintra.
Ao lado da mesquita aliciada pela fé cristã do povo do lugar, sob uma oliveira deslocada, um passante deixa-se a dois ou três dias, molhado, a receber os grossos pingos na face e o vento em fúria nas costas. Não lhe perguntaram o nome e ele também não o informou. Ninguém o sabe mendigo, estrangeiro, louco e simplesmente o deixam ficar, sem incômodo, auxílio ou interesse. Gela-se o homem sob as chuvas em Liras de Sintra.
Homem de bom coração e melhor curiosidade, Frei Almeida foi o único a aproximar-se do forasteiro, intrigado. Não se sabe o que conversaram, mas sumiram-se os dois sem rastros já na manhã seguinte do encontro. Não se sabe para onde foram ou mesmo se foram juntos e hoje já pouco se fala de Frei Almeida. As chuvas em Liras de Sintra apagam histórias.
Direto na têmpora: Assise - Camille
As chuvas em Liras de Sintra fazem descer das prateleiras aguardentes escondidas que substituem os bons vinhos de uvas raras e que aquecem o espírito dos que se lançam ao mar e também daqueles que somente esperam.
Os rubros telhados ganham um tom ainda mais vermelho de terra rica e a terra se faz algo nova, como que de outra substância, quando vêm as chuvas a Liras de Sintra.
Ao lado da mesquita aliciada pela fé cristã do povo do lugar, sob uma oliveira deslocada, um passante deixa-se a dois ou três dias, molhado, a receber os grossos pingos na face e o vento em fúria nas costas. Não lhe perguntaram o nome e ele também não o informou. Ninguém o sabe mendigo, estrangeiro, louco e simplesmente o deixam ficar, sem incômodo, auxílio ou interesse. Gela-se o homem sob as chuvas em Liras de Sintra.
Homem de bom coração e melhor curiosidade, Frei Almeida foi o único a aproximar-se do forasteiro, intrigado. Não se sabe o que conversaram, mas sumiram-se os dois sem rastros já na manhã seguinte do encontro. Não se sabe para onde foram ou mesmo se foram juntos e hoje já pouco se fala de Frei Almeida. As chuvas em Liras de Sintra apagam histórias.
Direto na têmpora: Assise - Camille
Labels:
Liras de Sintra,
literatura
quarta-feira, abril 23, 2008
De volta a Liras de Sintra
O inverno em Liras de Sintra avistava-se do mar, em certas brumas morosas que davam novas e conhecidas cores ao cair do sol. Ao chegar, trazia um frio sem neves, mas que alojava-se sob as roupas e nem o crepitar de algum fogo vivente fazia amainar.
Os céus ainda mais azuis, os telhados ainda mais acanelados, os rostos ainda mais marcados, adquirindo novas rugas e dores nos dias monótonos que teimavam em ser sempre o mesmo.
Na entrada do pequeno bosque das oliveiras que marcava a cidade ao sul, propriedade não sua, morava Inês Velho Brandão. Ao seu lado, um cachorro algo perdigueiro, de longas sestas no alpendre e parcos carinhos pedidos.
Mulher de poucas falas, o lenço permanente atado à cabeça e um sorriso incompleto e curto, Inês fazia de satisfazer os viajantes sua ocupação. Já fora mais requisitada e de uma destas visitas restou José, o filho único de pai nenhum.
Hoje, sustentam-se mais pela caça do que pelo amor. A José, a morte vem por instinto e Inês cansa mãos e olhos nas longas noites em que arranca peles e estripa os coelhos prodigamente abatidos e vendidos em feiras de domingos. Sentem um pelo outro a necessidade de uma companhia, mas ninguém ousaria dizer amor.
Um dia morrerá o cão e José partirá atrás de algo maior. Inês será novamente só ela e não mais venderá o corpo. Roubará azeitonas, pedirá um auxílio, olhará a cidade onde sempre esteve e nunca viveu. Na casa não baterão mais viajantes e Liras de Sintra já dela não se lembrará.
Direto na têmpora: I don't like mondays - Boomtown Rats
Os céus ainda mais azuis, os telhados ainda mais acanelados, os rostos ainda mais marcados, adquirindo novas rugas e dores nos dias monótonos que teimavam em ser sempre o mesmo.
Na entrada do pequeno bosque das oliveiras que marcava a cidade ao sul, propriedade não sua, morava Inês Velho Brandão. Ao seu lado, um cachorro algo perdigueiro, de longas sestas no alpendre e parcos carinhos pedidos.
Mulher de poucas falas, o lenço permanente atado à cabeça e um sorriso incompleto e curto, Inês fazia de satisfazer os viajantes sua ocupação. Já fora mais requisitada e de uma destas visitas restou José, o filho único de pai nenhum.
Hoje, sustentam-se mais pela caça do que pelo amor. A José, a morte vem por instinto e Inês cansa mãos e olhos nas longas noites em que arranca peles e estripa os coelhos prodigamente abatidos e vendidos em feiras de domingos. Sentem um pelo outro a necessidade de uma companhia, mas ninguém ousaria dizer amor.
Um dia morrerá o cão e José partirá atrás de algo maior. Inês será novamente só ela e não mais venderá o corpo. Roubará azeitonas, pedirá um auxílio, olhará a cidade onde sempre esteve e nunca viveu. Na casa não baterão mais viajantes e Liras de Sintra já dela não se lembrará.
Direto na têmpora: I don't like mondays - Boomtown Rats
Labels:
Liras de Sintra,
literatura
terça-feira, março 18, 2008
Liras de Sintra ainda
Liras de Sintra é ainda um pequeno Portugal, mesmo sem nem de perto sê-lo. Seus vinhos de uvas raras não atrapam turistas ou enólogos, são tesouro muito próprio que enebria quem ali escolhe. Em Liras de Sintra não se bebe defronte ao mar, este sim, oficina de sustento, mas jamais é negada uma copa a quem se conheça a dor ou o riso.
De costas para o mar e de frente para os telhados muito vermelhos, deixava-se Nuno da Costa Oliveira, o torpor do vinho formigando-lhe as pontas dos dedos, o olho vazado ainda mais vivo do que o outro. Já não pescava, mas os cheiros da maré baixa e do barro fresco, fusos como uma trama, o mantinham vivo. E ocupava-se em cuidar as ruas.
A meia visão perdida não foi fruto de lida mal feita no mar. Roubou-a um filho. Tomás. Fugido de Liras de Sintra após o agravo feito ao pai, não mais se soube dele. Uma notícia sequer, se vivo ou morto. E na função de Nuno Oliveira, o olhar as ruas era um imenso “perdôo-te” na espera do filho que já mais não vem.
Direto na têmpora: Captain Bacardi - Lee Ritenour
De costas para o mar e de frente para os telhados muito vermelhos, deixava-se Nuno da Costa Oliveira, o torpor do vinho formigando-lhe as pontas dos dedos, o olho vazado ainda mais vivo do que o outro. Já não pescava, mas os cheiros da maré baixa e do barro fresco, fusos como uma trama, o mantinham vivo. E ocupava-se em cuidar as ruas.
A meia visão perdida não foi fruto de lida mal feita no mar. Roubou-a um filho. Tomás. Fugido de Liras de Sintra após o agravo feito ao pai, não mais se soube dele. Uma notícia sequer, se vivo ou morto. E na função de Nuno Oliveira, o olhar as ruas era um imenso “perdôo-te” na espera do filho que já mais não vem.
Direto na têmpora: Captain Bacardi - Lee Ritenour
Labels:
Liras de Sintra,
literatura
quarta-feira, setembro 19, 2007
Primeiro capítulo de algo
Em Portugal existe ainda um lugarzinho chamado Liras de Sintra. Um olho salgado de mar, outro que espia certas uvas raras que dão bons vinhos e se encarapitam em bruscas encostas. Liras de Sintra é daqueles sítios onde se vive como se fez o viver em épocas dos livros de histórias: fala-se muito sobre o alheio, pesca-se sardinhas a modas já esquecidas, colhe-se a oliveira e embriaga-se do próprio vinho (ou numa hipótese melhor, do vinho de um vizinho mais desprendido).
Azulejada de uns tantos azuis de um escuro sóbrio, Liras se amorena no topo das casas. Uma olaria à chegada dali ocupa-se em produzir telhas de um vermelho acanelado, com algo de índias e especiarias. Obram para si próprios e, ao fim de curtos períodos, reúnem-se todos para remoçar os telhados e avivar os primeiros encontros que se tenham com desconhecidos ou velhos conhecidos. Não é único o relato que credita a esse particular o cheiro de barro fresco que amaina sedes de quem por ali pisa.
Quando os mouros estiveram em Liras de Sintra deixaram uma mesquita muito branca, onde após convertidos todos de uma só vez em milagre famoso e cantado aos ventos, criaram o hábito de celebrar as missas cristãs em latim e árabe. Alguns lugarejos vizinhos, tomados de soberba e malícia, passaram a chamar os de Liras de “mouros em terços”, alcunha injusta e impudica que o povo local firmemente rejeita.
E assim vive-se por ali, à margem do que nos convém chamar tempo. E assim pode-se encontrar, em modesta e firme casa à subida da Ladeira das Dores, João de Torres Madeira, alfaiate e um seu criado, disponha. De ternos de linho, coletes de lã e redes de pesca fazia-se o grosso ofício de João Madeira. Trazia nas agulhas não o gênio de cortes e estilos, mas o preciso saber de como é o vestir em Liras de Sintra.
Direto na têmpora: O sol - Bonsucesso Samba Clube
Azulejada de uns tantos azuis de um escuro sóbrio, Liras se amorena no topo das casas. Uma olaria à chegada dali ocupa-se em produzir telhas de um vermelho acanelado, com algo de índias e especiarias. Obram para si próprios e, ao fim de curtos períodos, reúnem-se todos para remoçar os telhados e avivar os primeiros encontros que se tenham com desconhecidos ou velhos conhecidos. Não é único o relato que credita a esse particular o cheiro de barro fresco que amaina sedes de quem por ali pisa.
Quando os mouros estiveram em Liras de Sintra deixaram uma mesquita muito branca, onde após convertidos todos de uma só vez em milagre famoso e cantado aos ventos, criaram o hábito de celebrar as missas cristãs em latim e árabe. Alguns lugarejos vizinhos, tomados de soberba e malícia, passaram a chamar os de Liras de “mouros em terços”, alcunha injusta e impudica que o povo local firmemente rejeita.
E assim vive-se por ali, à margem do que nos convém chamar tempo. E assim pode-se encontrar, em modesta e firme casa à subida da Ladeira das Dores, João de Torres Madeira, alfaiate e um seu criado, disponha. De ternos de linho, coletes de lã e redes de pesca fazia-se o grosso ofício de João Madeira. Trazia nas agulhas não o gênio de cortes e estilos, mas o preciso saber de como é o vestir em Liras de Sintra.
Direto na têmpora: O sol - Bonsucesso Samba Clube
Labels:
Liras de Sintra,
literatura
Assinar:
Comentários (Atom)