quinta-feira, janeiro 17, 2013

É bom até que não é mais

Tem uma música da Regina Spektor chamada "On The Radio" que em determinado momento diz assim:

"This is how it works
You're young until you're not
You love until you don't
You try until you can't
You laugh until you cry
You cry until you laugh
And everyone must breathe
Until their dying breath"


Eu acho essa letra linda porque na vida tudo é quase sempre assim: muito bom até que não é mais. O tempo passa, o mundo muda, a gente também. O genial vira bobo, o apaixonante vira chato, o engraçadíssimo vira comum e a gente segue em frente sem ter a obrigação de gostar pra sempre do que já gostou um dia.

Não é falta de esforço, não é desistir das coisas, é simplesmente entender que imobilidade não é exatamente uma qualidade. Pelo menos não na maioria dos casos.


Claro que não vale pra tudo, mas vale muito pra empresas. O que era lindo ontem é comum hoje. O que era fundamental é desnecessário, o que era uma fórmula vira uma bobagem.


Porque o tempo passou, o mundo mudou e tem gente que n ão quer ver, não quer entender que "you try until you can't". Simples assim.

Não é ingratidão com o passado, com o vivido, com o caminho trilhado. É saber que tudo tem seu tempo e que evoluir é o exercício de reconhecer e escolher caminhos novos.


E que tudo aquilo que funcionava muito bem um dia pode deixar de funcionar.




Direto na têmpora: Monsterpussy - The Vaselines

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Rejeição no Facebook

Amiguinhos, trago más (ou boas) notícias: o Facebook não representa a verdade absoluta. É um nicho, um espaço de opinião importante, mas também um lugar para muita gente que replica textos ou conteúdos sem que isso reflita suas atitudes ou visões de mundo.

E para fazer isso de uma maneira apartidária e não ideológica, vou citar dois exemplos em lados opostos do campo político: Marcio Lacerda e Dilma.

Nos meses antes da eleição, ninguém foi tão repudiado no Facebook quanto Marcio Lacerda. Um fato que parece ter representado pouco quando o prefeito foi reeleito com relativa tranquilidade no primeiro turno.

Atualmente, minha timeline parece uma sessão de descarrego contra a Dilma. Ainda assim, a última pesquisa dá números recordes de aprovação popular com 78% de "curtir" para seu desempenho pessoal e 62% para o de seu governo.

O que isso quer dizer? Que existe outro mundo fora do Facebook e que pode ser muito bom olhar pra ele antes de se convencer de tantas verdades postadas ali diariamente.

Nenhuma novidade, eu sei, mas é sempre bom lembrar.




Direto na têmpora: When I'm with you - Best Coast

terça-feira, dezembro 11, 2012

Biblioteca solidária max ultra giga tera plus

Jingle bells vai, jingle bells vem e olha aí a Biblioteca Solidária do tio Maurilo.

Como sempre, vendo os livros que já li ao preço de dois panetones e depois dôo tudo para as crianças da creche Morada Nova, no morro do Papagaio.

E como agora várias pessoas ajudaram cedendo seus livros, o acervo aumentou e o estilo das obras ficou mais variado.


São só 10 reais para qualquer livro, hein?

Quem mandar primeiro o email para mauriloandreas@gmail.com garante o livro. É só pelo email pra evitar confusão: Facebook, blog ou twitter não vale.


Participem, divulguem e façam boas compras. Muito obrigado!



A batalha da noite anterior – Javert Denilson

A condenação da Emília - Ilan Brenman

A lei da atração – Michael J. Losier

A Necessary Spectacle (ING) - Selena Roberts

A semente da vitória – Nuno Cobra

A vida em família – Rodolfo Calligaris

A vida escreve – Chico Xavier

Aconteceu na casa espírita – Emanuel Cristiano

Alegria e triunfo – Lourenço Prado

Além da trilha menos percorrida – M. Scott Peck

Anotações de Servidor – Wagner Gomes da Paixão

Apocalipse – Robson Pinheiro Santos

As mais belas orações dos nossos corações – Marília Borges

As obsessões e o espiritismo - Wagner Gomes da Paixão

Aspectos psicológicos da adoção – Lidia Natalia D. Weber

Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho – Chico Xavier

Canção da natureza – João Nunes Maia

Carta a El-Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil – Pero Vaz de Caminha

Comunicação global – Lair Ribeiro

Cromoterapia – Reuben Amber

De Boca-de-Bode a Gourmet – Lesley Scarioli

Elucidações evangélicas – Antônio Luiz Sayão

Em espírito e verdade – Wagner Gomes da Paixão

Encontro no Ideal - Wagner Gomes da Paixão

Entre a sombra e a luz – Carlos A. Baccelli e Paulino Garcia

Eu, sua mãe – Christiane Collange

Eu te busco – Irene Pacheco Machado

Finanças corporativas – Alexandre Galvão e outros autores

Flor da morte - Henriqueta Lisboa

Flores no pote – Antônio Souza

Hamlet e Macbeth nasceram em Muriaé – Remo Mannarino

Homens que odeiam suas mulheres e as mulheres que os amam – Susan Forward

Jesus perante a cristandade – Frederico Pereira da Silva Júnior

Jesus terapeuta (vol. 2) – Cláudio Fajardo

Laços de ternura – Lidia Natalia D. Weber

Lídia – José Suriñach

Luz imperecível – União Espírita Mineira

Marte e Vênus recomeçando – John Gray

Médiuns – João Nunes Maia

Mentes perigosas - Ana Beatriz Barbosa Silva

Mercados financeiros – Virgínia Oliveira e outros autores

Minha formação - Joaquim Nabuco

Mulher, o negro do mundo – Malcolm Montgomery

Na sombra e na luz – Zilda Gama

O Aleijadinho – Delson Golçalves Ferreira

O alquimista – Paulo Coelho

O evangelho redivivo - Wagner Gomes da Paixão

O homem integral – Divaldo Pereira Franco

O jugo leve – Carlos A. Baccelli e Inácio Ferreira

O livro da bruxa – Roberto Lopes

O mais importante é o amor – Liga Bíblica Mundial

O ministro Che Guevara – Tirso W. Saenz

O pai Goriot - Honoré de Balzac

O poder do Agora – Eckhart Tolle

O presente precioso – Dr. Spencer Johnson

O que é fenômeno mediúnico – Hermínio C. Miranda

O santo inquérito – Dias Gomes

O segredo – Rhonda Byrne

O sucesso é ser feliz - Roberto Shinyashiki

O treco - Artur Eduardo Souza

O vendedor de sonhos – Augusto Cury

O Zahir – Paulo Coelho

Onze minutos – Paulo Coelho

Opções reais – Haroldo Guimarães Brasil e outros autores

Os caminhos do amor e do desamor – José Fonseca Duarte

Os delírios de consumo de Becky Bloom – Sophie Kinsella

Os segredos do seu supra mental – Adelino da Rosa

Poesia a destempo – José Alcino Bicalho

Ponte das lembranças – Eliana Machado Coelho

Presente do mar – Anne Morrow Lindbergh

Prosperidade – Lair Ribeiro

Rituais - Cees Nooteboom

Trilha menos percorrida – M. Scott Peck

Tua casa – João Nunes Maia

Um amor na eternidade – Ivan Jubert Guimarães

Vila dos Confins – Mário Palmério




Direto na têmpora: 1997 - Saint Motel

segunda-feira, novembro 19, 2012

Em algum ponto do caminho


Você já se sentiu genuinamente perdido?

Longe demais para voltar ao ponto de partida e cansado demais para seguir até a chegada?

Você parado, inanimado, no ponto central de um caminho longo que agora já não faz nenhum sentido.

Sem respeitar o que passou, sem acreditar no que virá. Inerte, inepto, infértil.

Você já se sentiu assim?

E enquanto isso, o mundo gira sem promessas. Coisas, pessoas, palavras, luzes e você cansado demais para olhar.

No entanto, muitas vezes basta um passo para que a vida esbarre em você e indique um rumo que você não tinha visto.

Uma estrada com outros percalços e outras paisagens.

Um outro motivo para andar e descobrir que Cervantes estava certo quando disse que “hasta la muerte, todo es vida”.




Direto na têmpora: Lesley Gore on the T.A.M.I. SHOW - Casiotone For The Painfully Alone

segunda-feira, outubro 08, 2012

Minha mãe contou

Quando eu era menino, talvez com meus 6 ou 7 anos, a escolinha onde eu estudava entrou em acordo com os pais e mandou proibir os chicletes dentro do ambiente.

As razões eram mais que justas: além de conter muito açúcar, fazer mal aos dentes e causar risco de acidentes com criancas que corriam sem parar, o chiclete atrapalhava as refeições e tudo mais.

Tudo foi muito bem até o dia em que a professora interpelou uma menininha que mascava seu chiclete tranquilamente durante a aula.

- Fulaninha, a gente já conversou e não pode mascar chiclete. Joga fora, por favor?

- Não posso, fessora.

- Pode, sim, Fulaninha, todo mundo combinou, tem que cumprir. Joga fora, vai.

- Não... não posso jogar fora.

- Como não pode, menina? Tem que jogar fora. Vamos, cospe esse chiclete agora.

- Não posso, fessora, ele não é meu, é da Ciclana, ela só me emprestou um pouquinho...

Parece piada, mas eu acredito, porque foi minha mãe que contou.




Direto na têmpora:  Sweet sour - Band Of Skulls

segunda-feira, outubro 01, 2012

Quase astronauta

Até pouco tempo estava tudo resolvido: Sophia iria ser astronauta. Só falava nisso, só queria isso.

Na escola começou um projeto sobre o espaço sideral e seu entusiasmo era óbvio até que, no final da semana passada, perguntamos:

- E aí, filhinha, tá gostando do projeto?

- Tô, mas eu não quero mais ser astronauta.

- Ué, mas por quê?

E ela, fazendo sua cara de medo exagerado:

- Por causa do buraco neeegrooo...




Direto na têmpora: Two more years - Bloc Party

terça-feira, setembro 18, 2012

Pai e filho

- Pai, olha o que eu construí.

Abaixando o jornal, o pai olhou sem muito interesse o amontoado de palitos de picolé com forma indefinida. Rapidamente voltou à leitura e perguntou automático:

- Bonito, filho, o que é?

- Ainda não sei – respondeu o pequeno – primeiro eu construí, agora preciso inventar.

E assim foi-se a tarde, o jornal relegado a um canto e pai e filho construindo algo enorme a partir de um amontoado de palitos de picolé: um hidroavião, um dragão, um castelo. Um pai. Um filho.




Direto na têmpora:  Super stupid - Funkadelic

sexta-feira, agosto 24, 2012

Meu amigo, o jerico

Desde que eu era pequeno minha mãe sempre dizia: "pára com isso, menino, que ideia de jerico".

Acho que era a coisa que eu mais ouvia.

Quando eu quis comer algodão porque não me achava fofinho, ela disse isso.

Quando eu resolvi ir atrás da minha paixão, Rapunzel, e eles me acharam pedindo carona na beira da estrada com a mochila no ombro, ela também disse isso.

Até quando eu derreti uma joiazinhas dela pra fazer um megasuperanel ela disse isso!

Fui ouvindo, fui ouvindo e acabei mesmo acreditando que eu tinha um amigo chamado Jerico e que vivia tendo ideias muito legais que minha mãe odiava.

Só muito tempo depois fui saber que jerico era tipo um burro. Naquela época, o Jerico pra mim era um menino da minha idade, do meu tamanho, só que muito mais esperto e maneiro do que eu.

Resolvi assumir a amizade e pra tudo o que eu precisava, sabia que podia contar com o Jerico.

Na hora da prova eu não sabia qual era a capital da Bolívia? Perguntava pro Jerico e a resposta vinha fácil: Inhapim.

Não sabia o que dizer pra menina mais linda da escola? Fala pra ela que você é um robô e que foi programado pra ficar ao lado dela até ganhar um beijo, se não você vai destruir a cidade.

Queria entrar pro time de futebol, mas era péssimo? Vai de óculos escuros e bengala, o treinador vai achar que pra quem é cego você até que joga muito bem.

E assim foi. Sempre que eu precisava, o Jerico estava do meu lado. Claro que as sugestões dele nem sempre funcionavam, mas uma coisa eu preciso dizer: ele nunca era chato. Mesmo quando tudo dava errado, eu e ele morríamos de rir e nos preparávamos para outra situação com a mesma vontade de fazer tudo, menos o que todo mundo fazia.

Fui crescendo, entrei para a faculdade, me formei, me casei e hoje trabalho em uma grande empresa. Não vejo mais o Jerico com tanta frequência, mas quando a coisa aperta, quando tudo fica muito comum, eu chamo meu amigo e lá vamos nós descobrir até que ponto somos loucos e até onde os outros são capazes de ir.

Tem dado certo. E sabe a menininha do robô? Tá esperando o nosso terceiro filho.

Valeu, Jerico!


PS - historinha inspirada pela Sophia, que sempre tem as mais adoráveis ideias de jerico.


Direto na têmpora: Naked in the city again - Hot Hot Heat

segunda-feira, agosto 20, 2012

Irreversível

Dizem que a morte é irreversível. Na verdade, não sei.

Até onde percebo, nunca estive morto e não faltam crenças por aí a me defenderem milhares de conceitos diferentes sobre a morte e o que acontece após a mesma.

Já com a vida é diferente. Podemos até ter outras depois, mas nenhuma será igual a esta. É o barro com que trabalhamos hoje, é o que nos resta e o que nos sobra.

É nesse breve percurso, que algumas vezes nos parece tão longo, que deixamos o rastro de nossos erros, nossas mãos estendidas, nossas ações, nossas intenções, nossas conquistas, perdas e paixões. 

Pode ser que haja outra chance em outro lugar, em outra vida, em outra dimensão. Quem sabe?

A verdade é que nessa vida que vivemos, nesse insignificante e único nanoinstante do infinito que nós é dado, não há remendo. Nosso trajeto é nosso legado para outros trajetos tão curtos como os nossos.

A vida, sim, é irreversível, meus amigos. E viver bem é o único caminho.




Direto na têmpora: Remember - The Raveonettes

sexta-feira, agosto 17, 2012

Paixão

Eu respeito e acredito no poder de tudo aquilo que te faça viver melhor e ser mais feliz, seja uma religião, uma dieta ou um programa de tv.

Quem sou eu para tentar te ensinar o que é felicidade quando ainda estou aprendendo que o que é bom pra mim pode ser veneno para os outros?

O fato é que eu acredito na força das paixões. Muitas vezes eu não compreendo alguém que dá a vida por um time de futebol ou que esbraveja e rompe amizades por conta de uma visão política, mas eu admiro. De verdade. E torço pra que essa paixão não seja um equívoco, mas sim um motor que faça a pessoa ser melhor, mais completa, mais "ela mesma".

Até porque, sobre alguém sem paixões há muito pouco o que se dizer.




Direto na têmpora: Sir, Your Fashion Has the Cold Heart of A Killer - The Beautiful Girls


quinta-feira, agosto 16, 2012

O que a gente tem a dizer

Durante anos encontrei profissionais de publicidade que sabiam exatamente como dizer as coisas. Como dizer que o consumidor iria pagar mais, como dizer que aquela promoção era imperdível, como dizer que meu achocolatado era melhor do que o outro. Na verdade, sempre fui, ou tentei ser, um deles.

Os reis da forma, os mestres da boa ideia. Admirava, admiro e respeito todos eles. O título que marca, o roteiro bem sacado são uma forma de trazer leveza, beleza e criatividade ao dia do público. E de vender, é claro.

O problema é que, já faz algum tempo, somos convidados a participar do processo de descobrir, junto ao cliente, "o que deve ser dito". É um passo anterior, que fornece a base para a grande ideia sobre "como dizer".

Talvez seja um momento mais assustador do que a chegada do computador e mais revolucionário do que a popularização da internet. Precisamos nos envolver mais, abrir nossas mentes para outros processos, outras demandas, outras questões.

O desafio de sermos mais completos do que julgávamos necessário faz com que uns aproveitem e outros se encolham.

Por enquanto é uma decisão de cada um. Em pouco tempo será uma questão de sobrevivência. Melhor escolher seu lado agora e arregaçar as mangas, filhote.




Direto na têmpora: One - Vampire Weekend

quinta-feira, agosto 09, 2012

Álbum de fotografias

Gino tinha 21 anos e, no meio do curso de Engenharia Química, com tantas provas, matérias e preocupações com estágios e empregos, já começava a sentir falta da época do colégio.

Foi assim que bateu nele a vontade de rever as fotos da velha turma: as festas, os encontros, a bagunça na escola e a formatura do ensino fundamental.

Abria os arquivos e relembrava rostos, piadas, aventuras e parecia que já não estava mais no meio da faculdade, e sim vivendo novamente os bons momentos dos seus 17 anos. Tudo havia se passado há apenas 4 anos, mas pareciam séculos.

Até que um rosto chamou a atenção de Gino. Começou a reparar em um menino de cabelos claros e olhos bem pretos que aparecia em todas as fotos. Engraçado, não se lembrava dele.

Com certeza não eram da mesma sala, mas o garoto podia ser de outra classe. A idade era mais ou menos a mesma dele na época e não seria estranho se eles tivessem amigos em comum.

Passou as fotos na escola, as fotos das festas, da formatura e o menino sempre estava ali, sorridente, brincalhão e irritantemente desconhecido.

Deu de ombros, desligou o computador e foi dormir. Inútil, a imagem do menino tão presente e que escapava da sua memória o mantinha acordado. Resolveu mandar um email com uma das fotos para ver se alguém da turma se lembrava.

Acordou no dia seguinte, correu pra mais uma das intermináveis aulas e, no meio do caminho, foi checar os emails. Dos 13 emails para amigos que havia enviado, 7 haviam respondido e nem um sequer se lembrava do garoto.

Achou aquilo estranho e ficou mais impressionado ainda quando de noite descobriu que nenhum dos colegas se lembrava do rapaz. Encaminhou a foto para a turma inteira e, 3 dias depois, tinha a certeza na caixa de emails: ninguém sabia quem era o mocinho de olhos escuros.

Os dias se passavam e Gino ficava cada vez mais incomodado com aquilo. A coisa chegou a tal ponto que se resolveu a matar estágio e foi até a escola falar com os professores. Como podia se esquecer de alguém que estivera tão perto dele em tantas ocasiões? Algum educador com certeza poderia esclarecer o mistério.

Chegou à escola e deu de cara com o Romão da portaria. O Romão estava ali há uns 30 anos e seria a pessoa certa para esclarecer as coisas.

Conversaram fiado, trocaram novidades e logo depois o Gino já foi mostrando a foto. Romão olhou, olhou e um tempo depois perguntou.

- Como é que você fez isso? 

- Isso o quê?

- Essa foto com o Rui.

- Ah, então esse de cabelo claro chama Rui? De que turma ele era?

- Chamava Rui, sim. Como é que você fez isso?

- Fiz o quê, Romão? São as fotos da minha época aqui na escola.

Romão balançou a cabeça. Gino ficou olhando pra ele sem entender até que o velho porteiro falou.

- Gino, essa foto é impossível. O Rui estudou aqui 20 anos antes de você. Ele tinha uns 16 anos quando se enforcou no banheiro do vestiário. Eu sei porque fui eu quem tirou o corpo da corda. Agora, me responde como é que você fez isso?

Gino saiu correndo. Apagou todas as fotos do computador, reformatou a máquina e jurou nunca mais dizer uma palavra sobre o assunto para ninguém. Nunca mais procurou o Romão e nem buscou o contato dos velhos amigos.

O medo durou uns 3 anos. Dormia de luz acesa,acordava sobressaltado, olhava pra trás sempre que estava sozinho e sentia arrepios e calafrios a todo o instante.

Com o tempo foi esquecendo as fotos, esquecendo o menino-fantasma e seguiu sua vida. Formou-se, casou, teve duas filhas e assim seguia sua história.

Em uma manhã de domingo qualquer acordou com uma bagunça tremenda na sala. Levantou-se e encontrou as baixinhas com as fotos do casamento espalhadas pela sala. Comentavam que o pai usava cavanhaque, que estava mais magro, que não tinha cabelos, brancos, que a mãe que estava linda, que a avó estava engraçada.

Juntou-se a elas, pegou uma foto a esmo e gelou ao ver, bem atrás dele e da mulher, aqueles cabelos claros, aquele sorriso vivo e aqueles malditos olhos bem pretos que olhavam direto para a câmera.




Direto na têmpora: Jane Says - Jane's Addiction

terça-feira, julho 24, 2012

O jeito dela

Nada é mais italiano do que uma história contada por Sophia.

Da mente para a boca, um torvelinho. Da boca para as mãos, um furacão.

Tirar dela o gesto, é roubar-lhe um pouco da voz, é amansar a fantasia, é fazer dela mais uma menina comum.

Menos italiana, menos força da natureza, menos minha Sophia.




Direto na têmpora: Finish line - Fanfarlo

segunda-feira, julho 09, 2012

Cadê Sophia?

 A festa já ia começar, mas cadê Sophia Comelli? Ninguém sabia.

Todo mundo já tinha chegado, a música estava animada, mas nada da Sophia chegar.

Tinham jogos, brincadeiras, correria e diversão, mas cadê Sophia Comelli? Não tinha chegado, não…

Foi aí que, um pouco preocupada, a meninada do Bolão começou a imaginar.

-       Será que um E.T., chegou na casa dela para tomar chá? – perguntou Enzo.

-       Pode ter sido que as plantas cresceram tanto que ela não conseguiu sair – argumentou Ana Carolina.

-       E se o pai dela virou um urso? – disse João Pedro.

-       E se a mãe dela virou uma pata? – espantou-se Maria.

-       Hmmm… eu acho que ela ficou comendo amora até perder a hora – rimou o Lucas Szuster.

-       Ou comendo broa até ficar à toa – completou Sophia Zeferino.

-       Pra mim, ela atrasou porque choveu mel e ela ficou grudada – sugeriu o João Victor.

-       Pois, pra mim, ela quis vestir uma roupa de geleia e ficou toda atrapalhada – respondeu a Ana.

-       Eu acho que uma bruxa quis sequestrá-la – assustou-se o Pedro França.

-       Eu acho que um ogro deixou ela presa dentro da mala – gritou a Julinha.

-       Aposto que ela errou o caminho e foi parar na Bahia – pensou alto o Henrique.

-       Ou pegou um ônibus e foi visitar a tia – falou baixinho a Lalá.

-       O foguete dela pode ter ficado sem gasolina – comentou o Dudu.

-       Ela pode ter ficado conversando com um sapo bonina – arriscou a Cacá.

-       Vai que um elefante sentou no pé dela – exclamou o Thomás.

-       Vai que a cara dela ficou toda amarela – emendou a Nicole.

-       Quem sabe ela está cuidando de mil gatos? – supôs o Marcelo.

-       Quem sabe ela precisou comprar mil sapatos? – divagou a Jojô.

-       Ela pode ter ganhado um sorteio de um milhão – animou-se o Lucas Passeado.

-       Ela pode ter ficado afundada no colchão – matutou o João Camilo.

Estavam todos assim, imaginando coisas malucas, quando chegou a Sophia bem feliz e sorridente.

-       SOPHIA, ONDE VOCÊ ESTAVA? – berraram todos juntos.

E então ela respondeu.

-       Meninada, meninada, vocês não sabem o que aconteceu. Eu já estava saindo de casa quando um E.T. amigo meu apareceu para tomar chá. Quando ele foi embora, eu tentei vir, mas as plantas tinham crescido tanto que fecharam a porta. Aí eu cortei tudo, mas meu pai virou um urso, minha mãe virou uma pata e eu demorei um tempão pra desfazer o feitiço. Quando eu acabei, fiquei horas comendo amoras e depois comendo broa. Aí caiu uma chuva de mel e eu fiquei toda grudada, vesti minha roupa de geleia e fiquei toda atrapalhada. Quando estava prontinha, uma bruxa tentou me sequestrar. Escapei dela, mas um ogro me pegou e prendeu dentro da mala. Foi uma luta pra escapar, mas saí correndo, errei o caminho e fui parar na Bahia. Precisava voltar depressa, então peguei um ônibus, mas, no meio do caminho, resolvi visitar minha tia. Pra chegar na hora, só mesmo de foguete, mas, imaginem só, o meu estava sem gasolina. Fiquei triste, mas aí chegou um sapo bonina e conversou comigo pra me animar. Quando fui me levantar, tinha um elefante no meu pé. Briguei pra ele sair e fiquei com a cara amarela de tanto gritar. Enquanto tiravam o elefante do meu pé e eu lavava meu rosto, passaram mil gatinhos e eu resolvi cuidar de todos eles. Foi aí que eu lembrei de um monte de aniversários e fui na loja comprar mil sapatos de presente. Comprei um cupom e ganhei um milhão na hora. Estava muito cansada de tanta atividade, então fui tirar um cochilo e, juro que é verdade, fiquei afundada no colchão. Quando consegui me livrar, peguei o dinheiro do sorteio, comprei um avião e pedi pro moço me trazer até aqui.

E aí, depois de tanta conversa, de tanta bagunça, de tanta aventura, de tanta história e de tanta confusão, sabe o que acontece? A festa acabou. Ah, e esta história também. Tchau!




Direto na têmpora: On Melancholy Hill - Gorillaz

quinta-feira, junho 28, 2012

Futuro

O futuro tem o hábito engraçado

De nunca chegar

Para quem vive no passado




Direto na têmpora: Countdown - Pulp

sexta-feira, junho 22, 2012

Hot Heat

Eu torci muito pelo LeBron James em Cleveland (exceto contra o Boston, é claro). Eu me decepcionei muito com LeBron James nos anos seguintes, não tanto como jogador, mas principalmente por sua postura fora das quadras. Eu me rendi ao talento de LeBron James nos últimos dias.

Aliás, ano passado eu escrevi esse texto aqui sobre ele e muito do que eu achava continua valendo.

O fato é que o Miami Heat venceu um time mais jovem e muito talentoso, mostrou calma diante da pressão e provou que pode sim, e infelizmente, confirmar a bravata de LeBron ao dizer que foi a Miami para ganhar "não um, não dois, não três, mas múltiplos títulos".

Não é um resultado que me deixa feliz, até porque gosto muito do time do Thunder, mas é, acima de tudo, merecido.

E, mais importante, LeBron James mostrou que não é o garotinho assustado que imaginávamos diante dos grandes momentos. É um jogador capaz de fazer com que os grande momentos se curvem a ele.

Parabéns, Heat. Parabéns, LeBron. Ah, e parabéns pro Wade de quem eu sempre gostei.




Direto na têmpora: She don't use jelly - The Flaming Lips

segunda-feira, junho 18, 2012

Sertanejo

Sou do fazendeiro o oposto
Na lida que inventei
Amores, sortes e gosto
Colho mais do que plantei

Não há horta ou semeadura
Não se tira do mal a raiz
E ainda assim há fartura
De tudo o que faz feliz

Na chuva ou na estiagem
Sol rachando ou geada
Minha terra não é miragem
É vida que me foi dada

Ao fim desta safra tardia
Retorno à terra enfim
Deixando semente em Sophia
O bem que existiu em mim




Direto na têmpora: This city's a mess - Said The Whale

quinta-feira, junho 14, 2012

Verde

- Então tá bom, chegando em casa eu te conto a novidade, tá?

- Novidade? Que novidade, Guta?

- É segredo, curioso. Em casa você fica sabendo.

Pronto, bastou aquilo pra bagunçar o dia dele. Cabeça voando, falava consigo mesmo diante da tela imóvel do computador.

- Segredo? Guta nunca teve segredo pra mim. Bom, coisa ruim não deve ser pela voz dela. Ou então é bom pra ela e ruim pra mim. E se a novidade for aquele curso na França que ela sempre sonhou? E se ela estiver indo embora?

Ficou naquela, entre intrigado e irritado pela tal novidade. Na volta, o caminho que ele fazia diária e calmamente de bicicleta, agora parecia a subida da Graciosa. A cabeça não parava. Maldita curiosidade.

O tempo no elevador, outra eternidade. Abriu a porta e se deparou com ela a sorrir no meio da sala. A mesma Guta, mas agora com cabelos completamente verdes.

- Cabelo verde, Guta? Sério?

- Não gostou?

- Não sei. Verde? Difícil de acostumar.

- Pois é, resolvi hoje cedo, assim, de surpresa.

- É? Mas cabelo verde? Tem certeza? De onde você tirou essa ideia?

- Sei lá, assim que eu soube que o juiz havia autorizado a adoção hoje cedo decidi que queria ser a primeira mãe de cabelo verde da minha família.

Ele não parava de chorar. Seria pai. E então era verde a cor da alegria.




Direto na têmpora:  Can't get used to losing you - The English Beat

terça-feira, junho 12, 2012

All you need is love

Uma fagulha.
Um instante.
Duas palavras, talvez três.
Um começo sorri.
O resto é entrega, é labuta, é a busca.
Porque o amor não é presente, é conquista.
A dor e o prazer de lutar juntos a luta que se escolheu lutar.
Uma vida inteira, muitas.
E ainda assim morrer sabendo que desistir nunca foi uma opção.
Porque viver de outro jeito não seria viver.




Direto na têmpora:  Dearest - The Black Keys

segunda-feira, junho 11, 2012

O namorado da Fernanda

Amanhã é Dia dos Namorados. Dia de jantares e motéis e presentes e beijos e reencontros e longos telefonemas.

E no meio de tudo isso eu ainda acordo pensando como um menino: "ela disse sim, ela disse sim".




Direto na têmpora: FNT - Semisonic