terça-feira, agosto 12, 2008

Chinês é tudo igual

Dizem que chinês é tudo igual. Eu que sempre gostei dos traços orientais (nem se anime, Maki) discordo desde a primeria vez que ouvi a frase. E os próprios chineses também discordam, já que armaram aquela palhaçada de troca de meninas na abertura das Olimpíadas. Um caso vergonhoso de playback de proporções xuxescas.

Lin Miaoke foi a lindinha que dublou e Yang Peiyi foi a voz maravilhosa que a gente ouviu. Uma puta sacanagem que pode acabar com a auto-estima da Yang Peiyi (e quem sabe de quantas mais) e colocar a pobre Lin Miaoke como exemplo de beleza sem talento.

Nem Yang é só boa cantora e nem Lin é só bonita. São meninas de 9 anos que têm o bom e ruim na medida humana exata e que sob a ótica do espetáculos são imperfeitas à sua maneira, por isso precisam ser fundidas em uma.

Vergonhoso, tolo e absolutamente anti-olímpico em espírito. Me lembra o caso de uma menininha de 6 anos que abordou a mãe de uma coleguinha de cabelos cacheados (como os da minha Sophia) e perguntou: "Por que você não deixa ela fazer escova?"

Com que visão das pessoas vão crescer as duas? Que relações terão? Que preconceitos e inseguranças? foi por isso que escrevi isso aqui, muito antes da sensacional campanha do toim, toim, toim, toim. Quem gostar, que arranje uma editora para publicar pra nós:

Cachinhos, conchinhas, flores e ninhos.

A menina tinha mil cachinhos na cabeça
Se a gente olhava de um jeito, cada cachinho era uma conchinha
Se reparava dali, pareciam botões de flores
Se batia os olhos de lá, viravam um monte de ninhos

O pai amava as conchinhas
Brincava com os dedos nelas
E quase sentia o cheiro de mar

A mãe adorava as florzinhas
Cuidava bem de cada uma
Como se ali fosse o seu jardim

E os ninhozinhos?
Ah, dos ninhozinhos nascia cada idéia...
Debaixo dos cachinhos, a cachola da menina inventava histórias
E criava mundos
E encantava pessoas
E ela se ria, ria, ria

Mas um dia falaram para a menina
Que bom mesmo era não ter cachinhos
Que bonito era de outro jeito
Do mesmo jeito que todo mundo tinha

Ela ficou bem triste
Não queria ficar sem eles, os seus cachinhos
Que graça teria uma cabeça
Sem conchinhas, nem florzinhas, nem ninhozinhos?

E aí o papai disse: “Não! Ninguém mexe nas minhas conchinhas”.
E a mamãe falou: “Sai pra lá. Deixa aqui o meu jardim”.
E os ninhozinhos falaram todos juntos
“Não, menininha, deixe a gente ficar aqui”

A menina então pensou, pensou
Fez um carinho nos cachinhos
Ficou se olhando no espelho um tempão
E começou a imaginar como seria se todo mundo mudasse o próprio jeito

Ficou pensando na tartaruga com a juba do leão
Ela toda engraçada com aquela cabeleira
E o leão lá, todo espremidinho dentro do casco.

Imagina a confusão
A zebra com as manchas da girafa
E a girafa com as listras da zebra

O tucano com o topete da cacatua
E a cacatua com o bico do tucano

Um macaco com os pêlos de um poodle
E um poodle com o rabo grande do macaco

Aí ela resolveu
Que cada um é bonito de um jeito
Pra quê mudar assim?
Pra quê querer ser outra coisa?

E com um cabelo cheio de cachinhos, conchinhas, flores e ninhos
É que a menina era feliz.
Muito feliz.





A da esquerda canta, a da direita é linda e a mancha é olímpica.




Direto na têmpora: Fool's Overture - Supertramp

14 comentários:

Anônimo disse...

É isso aí, cada quem com sua beleza própria e cada beleza com seu valor, sem preconceitos e sem padrões. Que ninguém se atreva a tocar nos cachinhos da nossa Sophia!

redatozim disse...

Ali é solo sagrado, anônimo, ninguém toca. Só ela, se quiser, quando crescer.

ndms disse...

Naquele momento eu comentei com a sua mãe: isso é play back ( mas pensava que a voz da propria menina ) . Suas palavras ( a poesia que é muito bonita e fala fundo ao coração ) servem de alento para todos nos, não importando a experiencia de vida ou mesmo a idade de cada um
Parabéns

Danny Falabella disse...

PARABÉNS.viva os cachinhos!!Minha sofia não tem o cabelo enroladinho como a sua, mas um pouco ondulado e agora que está crescendo esta ficando liso e ela - na contramão desta insanidade de odiar cabelo cacheado - ta chateada pq gosta dos poucos cachos que tem...eu rezo todo dia para cada vez mais termos campanhas como a da dove para meninas(que tem a musica true colors como tema)e dar uma neutralizada nesta ditadura do cabelo liso. Quanto ao lance das chinesas, é lamentável assim como muita coisa que ocorre lá.

Laura disse...

Redatozim, fantástico o seu texto! E viva a diferença!!!

Ilda disse...

Tb fiquei indignada com a troca das meninas. E qto aos cachinhos, amei o poema, minha pequetita tem cachinhos e eu tenho cachinhos, acho que o baby que eu tô esperando tb vai ter cachinhos! E ai de quem quiser tirá-los!!!!

redatozim disse...

Obrigado, ndms. Quem sabe uma editora venezuelana anima a publicar.

redatozim disse...

A campanha da Dove é realmente perfeita pra este momento de ditadura do liso, do magro, do branco, do caucasiano e de tudo o que é padrão, danny. Sophia adora os próprios cachinhos e vive exibindo orgulhosa, canta a música do toim, toim, toim, uma delícia. tomara que não mude.

redatozim disse...

Obrigado, laura e viva a diferença!

redatozim disse...

Ilda, que o neném novo venha com cachinhos e com saúde.

LadyoftheFlies disse...

Desculpae pelo comentario meio atrasado mas eu nao podia deixar de faze-lo. Que poema mais lindo, Maurilo, pena que nao tenho uma editora nem conheco ninguem que tenha. Sabe o que voce devia fazer? Imprimir bem bonito e colocar num quadrinho no quarto da Sophia, para ela nunca se esquecer de que os cachinhos dela sao muito, muito especiais. Abaixo a chapinha!
Um abraco
Raquel

redatozim disse...

Raquel,
pode ser uma boa mesmo, mas se tiver o livro vai ser beeeeem melhor. Beijo e obrigado.

Sara disse...

Quando ouvi a notícia nem queria acreditar! Não acho que seja a futilidade que os jogos olímpicos nos querem transmitir, pelo contrário é tudo a favor do verdadeiro talento e da dedicação e esforço de cada um. Aparências, enfim...

redatozim disse...

Pois é, Sara, ficou uma mácula no evento que poderia ser evitada.