quinta-feira, outubro 04, 2007

Acesso

O tapete na porta da empresa, logo ali no topo da escada, parece dizer “Bem-vindo”, mas o que eu ouço é apenas um tremendo “não”. Será que eu tento subir as escadas ou peço ajuda pra alguém que entre? Nunca sei o que fazer nessas horas. Olho em volta e reparo os buracos no passeio, o lixo largado no chão, a calçada estreita, a falta de rampas no meio-fio e começo a achar que já foi um milagre ter chegado até ali.

Nesse momento dois office-boys me vêem ali parado, indeciso e oferecem ajuda. Carregam a cadeira e pronto, menos um obstáculo. Manobro com dificuldade pelo suntuoso hall de entrada pessimamente sinalizado e chego ao elevador. A fila extensa não me dá preferência. Quando é a minha vez, entro e percebo que os números dos andares são altos demais para mim. Ainda se fosse no terceiro andar, tudo bem, mas no décimo-sétimo é impossível. Peço ajuda mais uma vez e estou no local da entrevista.

Com algum esforço atravesso o carpete felpudo e luto contra a porta estreita da sala. Em cima da hora. Poucos segundos depois meu nome é chamado. Dentro do escritório bem decorado converso com o homem de terno à minha frente. Elogia o meu currículo, minhas referências, impressiona-se com minha formação no exterior e inclusive pede algumas indicações de cursos.

Ele começa a falar de dinheiro, de oportunidades, diz que eu sou a pessoa certa para a empresa e é então que eu peço desculpas antes de interrompê-lo. Calmamente explico que me acho preparado para assumir o cargo, que só havia ouvido coisas boas sobre aquele local, que havia ido até ali com o firme propósito de não deixar aquela vaga escapar, mesmo não sendo a proposta mais rentável que havia recebido. No entanto, desde que chegara ali, as escadas, o hall de entrada, o elevador, o corredor do andar, a própria sala, tudo isso dizia que eu não era o homem certo para a empresa.

Agradeci a proposta, enfrentei o caminho de volta e fui aceitar a oferta que havia recebido de uma concorrente ainda naquela manhã, pensando em quando as pessoas vão descobrir que acessibilidade é, acima de tudo, uma via de mão dupla.




Direto na têmpora: The part you throw away - Tom Waits

10 comentários:

don oliva disse...

Tempos bicudos, tempos inatingíveis, tempos sem sonho. Tempos cruéis, tempos de decepções, tempos de barbárie.

Tempos sem tempo... para as cabeças, as sensibilidades, as esperanças, as ilusões e o amanhã.

Redatozim disse...

Esse foi um texto que escrevi pra uma revista de empresa sobre o tema acessibilidade. Acabou que não vai ser publicado, mas achei legal e pus aqui.

Maria Luiza Pedrosa disse...

Sabe que ontem eu comentei sobre o assunto com uma pessoa do meu trabalho? É uma maratona chegar ao restaurante da empresa, escadas sem fim, pomar no caminho, até um riozinho tem... e se vc esquecer o crachá não almoça, tem que dar meio volta e pegar o bendito... todo engenheiro e arquiteto deveria dar umas voltinhas de cadeira de rodas pelas obras que trabalham, né não?

Redatozim disse...

Verdade pura. De olhos vendados ia ser bom também.

Ana Paula disse...

E quando as vagas para deficientes estão impedidas com cones? Perto da minha casa tem uma farmácia que faz isso para evitar que não deficientes estacionem ali. Aí o deficiente tem que descer do carro, tirar o cone, voltar para o carro, tudo muito prático...

Redatozim disse...

É a lei do foda-se, Ana. e ela impera onde o desrespeito é rei.

Sumire disse...

É, Maurilo, tendo trabalhado com a questão da inclusão de deficientes e com uma colega cadeirante por um tempo, sei mesmo que a dificuldade de acessibilidade é foda...
Agora, o que não me conformo mesmo é que as faculdades de Arquitetura e Engenharia ainda não tenham a Acessibilidade como matéria de grade obrigatória...
Parece piada (de mau gosto)...

Danielle disse...

É Maurilo, vc está entrando para a família! A Ana é minha prima querida!
Sabe que uma vez eu fiz um circuito muuuito legal na serra do cipó com os olhos vendados? Fiquei com um tanto de rocho pelo corpo, mas a sensação e a atividade foram muito reflexivas...

Redatozim disse...

Tem toda razão, Su. É como uma escola de design que não prevê sinalização em braile.

Redatozim disse...

Danielle, tô muito confuso. Assim, de cara não tô sabendo nem quem é você e nem quem é a Ana... risos
Será que é a Ana Paula do Werner? Só asim se for entrar pra família risos