O tapete na porta da empresa, logo ali no topo da escada, parece dizer “Bem-vindo”, mas o que eu ouço é apenas um tremendo “não”. Será que eu tento subir as escadas ou peço ajuda pra alguém que entre? Nunca sei o que fazer nessas horas. Olho em volta e reparo os buracos no passeio, o lixo largado no chão, a calçada estreita, a falta de rampas no meio-fio e começo a achar que já foi um milagre ter chegado até ali.
Nesse momento dois office-boys me vêem ali parado, indeciso e oferecem ajuda. Carregam a cadeira e pronto, menos um obstáculo. Manobro com dificuldade pelo suntuoso hall de entrada pessimamente sinalizado e chego ao elevador. A fila extensa não me dá preferência. Quando é a minha vez, entro e percebo que os números dos andares são altos demais para mim. Ainda se fosse no terceiro andar, tudo bem, mas no décimo-sétimo é impossível. Peço ajuda mais uma vez e estou no local da entrevista.
Com algum esforço atravesso o carpete felpudo e luto contra a porta estreita da sala. Em cima da hora. Poucos segundos depois meu nome é chamado. Dentro do escritório bem decorado converso com o homem de terno à minha frente. Elogia o meu currículo, minhas referências, impressiona-se com minha formação no exterior e inclusive pede algumas indicações de cursos.
Ele começa a falar de dinheiro, de oportunidades, diz que eu sou a pessoa certa para a empresa e é então que eu peço desculpas antes de interrompê-lo. Calmamente explico que me acho preparado para assumir o cargo, que só havia ouvido coisas boas sobre aquele local, que havia ido até ali com o firme propósito de não deixar aquela vaga escapar, mesmo não sendo a proposta mais rentável que havia recebido. No entanto, desde que chegara ali, as escadas, o hall de entrada, o elevador, o corredor do andar, a própria sala, tudo isso dizia que eu não era o homem certo para a empresa.
Agradeci a proposta, enfrentei o caminho de volta e fui aceitar a oferta que havia recebido de uma concorrente ainda naquela manhã, pensando em quando as pessoas vão descobrir que acessibilidade é, acima de tudo, uma via de mão dupla.
Direto na têmpora: The part you throw away - Tom Waits