segunda-feira, abril 12, 2010

Todo aquele desejo que eu inventei para você

Charles Barkley foi, na minha opinião, um dos 50 melhores jogadores de basquete de todos os tempos. Além disso, "Sir" Charles é uma peça rara e autor de dezenas de frases espirituosas que serviriam para encher um livro.

Para mim, foi ele quem disse a frase definitiva sobre propaganda e as ilusões que ela cria.

"These are my new shoes. They're good shoes. They won't make you rich like me, they won't make you rebound like me, they definitely won't make you handsome like me. They'll only make you have shoes like me. That's it."

Eu ainda gosto muito de trabalhar com publicidade. É uma daquelas áreas que te permite olhar as coisas por ângulos diferentes, buscar o inusitado ao invés da norma e, principalemnte, não trabalhar de terno. Pelo menos na teoria é assim.

No entanto, eu tenho cada vez mais restrições ao papel da publicidade na sociedade: nós criamos ilusões. Talvez por isso a nova era da comunicação que parece surgir me alivie tanto. Me parece mais "moralmente" correto dialogar com quem tentamos convencer do que iludir a quem tentamos convencer.

Na maior parte do tempo nós não alimentamos o consumidor de informações, não colaboramos com o consumo consciente e nem melhoramos as novas gerações. Pelo menos não de maneira consistente ou remotamente regular. São raríssimos os momentos em que podemos pensar menos no truque e mais no espectador.

Nós vendemos ilusões.

Nossa função não é dizer que o tênis Nike é feito com qualidade (mesmo que por mão de obra infantil). Nossa função é iludir o gordinho sedentário para que ele imagine que um dia será Barkley, LeBron, Messi ou qualquer estrela que ganha milhões enquanto ele usa seus supertênis sentado no sofá em frente à tv.

Nada disso é novo. Não foi Charles Barkley quem me abriu os olhos e essa nem sequer é uma revelação surpreendente ou recente. A gente sempre soube disso. E continuamos inventando desejos e necessidades para os outros.

A verdade é o que o meu ponto não se refere à ética das agências (nisso eu sempre tive sorte). O jogo com os clientes costuma ser limpo e o que me incomoda volta e meia é a essência da profissão.

Não vou deixar de ser publicitário. É o que eu sei fazer, o que faço razoavelmente bem e o que me sustenta. Não me arrependo de ter escolhido este caminho e, mesmo com dúvidas éticas em certos momentos, escrever ainda é um grande prazer, mesmo que seja para anunciar um produto do qual ninguém precisa ou um político pelo qual não tenho admiração.

Esse post é só mesmo um desabafo, um questionamento provavelmente inútil sobre quem eu sou, o que faço e como contribuo para o mundo. Não deve mudar nada a não ser que a comunicação realmente mude. Um atestado de covardia ou de comodismo? Pode ser. Crise existencial? Definitivamente.

Quando Charles Barkley disse aquela frase com a qual abri o post, estava justamente lançando um tênis que lhe rendeu milhões. Ele não recusou o acordo, mesmo sabendo o que estava por trás do seu "empréstimo de imagem".

"Sir" Charles não é inocente e sabe muito bem as regras do jogo. Infelizmente, eu também.




Direto na têmpora: Maybe You Can Owe Me - Architecture In Helsinki

6 comentários:

Eduardo César disse...

Boa reflexão, Maurilo. Mas dê uma olhada nesta propaganda and keep walking: http://www.youtube.com/watch?v=4oAB83Z1ydE&feature=player_embedded

PC disse...

Qual é, Maurilo?
Tudo bem que você fique angustiado e tals.
Mas porra, precisa enfiar a mão logo no "gordinho sedentário"?
É pessoal, caceta?
Nunca mais eu sigo esta josta.
Pronto. Falei...

redatozim disse...

Pra vender computador, né, Edu? ;)

redatozim disse...

O gordinho sedentário sou eu, PC, sou eu!

Jonga Olivieri disse...

Olha Maurilo... Imagina esta sua dúvida numa posição como a minha?
Antes e mais nada, fui e continuo sendo um cara de esquerda.
Fui preso político, fui exilado político, sou até hoje contra este sistema desumano que é o capitalismo. Mas acontece que o próprio raciocínio "Materialista Histórico" (leia-se marxismo) me ajudou a compreender que enquanto o “sistema” está aí, eu tenho que sobreviver dentro dele.
No final das contas é aquilo que você definiu muito bem na sua “pensata”. O quê que adianta você vender um bom ou uma bosta de produto? Um puta dum candidato ou um candidato de merda?
Tambem concordo com o seu raciocínio de que a publicidade nos proporciona uma “certa liberdade”. Eu nunca trabalhei em outra coisa. E, desta forma realizo tudo com um “tesão” danado... para mim o que importa é isso.
Pelo menos crio, até hoje, nem que seja como frila para os poucos clientes que me ajudam a sobreviver no dia a dia da vida. Veja no meu portfólio na web: http://jonga-portfolio.blogspot.com/ , ele está com os meus últimos trabalhos...
Qualquer coisa que você realize, está dentro do “sistema”. Seja criando uma campanha publicitária ou estar numa repartição qualquer fazendo o jogo de chefinos “corruptos”. Afinal, o quê que é pior?

Don Oliva

redatozim disse...

Cada profissão tem seu peso mesmo, Don Oliva, eu sofro com o peso da minha.