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segunda-feira, julho 05, 2010

A vaca do apartamento X

Eu já contei aqui no Pastelzinho alguns casos sobre o meu prédio (esse e esse, por exemplo), mas confesso que achei que o pior tinha passado. Ledo engano.

Sabe como o Chaves sofria com a Bruxa do 71? Pois agora é a minha vez de sofrer com a Vaca do apartamento X. A casa da mulher é o seguinte: ela passa o dia inteiro fora e a filha se aboleta com o namorado na janela para fumar, o que resulta em bitucas de cigarro, chicletes, papéis de bala e outras delícias na área externa do meu apartamento.

Minha empregada já brigou com a menina, eu já mandei carta e no sábado até o vizinho da casa ao lado me ligou para reclamar que eles jogam cigarro no quintal dele. O que o Tio Maurilo fez? Escrevi um bilhete, juntei as baganas de cigarro e coloquei na porta da pessoa, dizendo que isso era uma constante e devolvendo o lixo que estavam jogando em minha casa.

Esperei uma reação da mãe e sabe o que ela fez? Mandou um bilhete dizendo que o problema era meu. Hoje cedo coloquei mais bitucas em um saquinho e deixei novamente na porta da moca com um bilhete mal educado. Isso vai render muito e eventualmente vai envolver condomínio, o dono do apê dela e, quem sabe, a policia.

O fato é que a Vaca do apartamento X só me fez confirmar que quando as pessoas reclamam que eu sou rígido demais com a Sophia, elas não fazem ideia de como pais permissivos ou preguiçosos podem estragar uma criança.

Vou pecar pelo excesso com a minha baixinha, mas nunca pela falta. E que Deus me ajude.



Minha vizinha, a permissiva Vaca do apartamento X.




Direto na têmpora: Whip it - Devo

quarta-feira, julho 25, 2007

Apto. do zelador

No térreo, perto da quadra de esportes, ficava o apartamento do zelador. Vivia ali sozinho havia muitos anos, mais tempo do que a grande maioria das pessoas do prédio.

Quem entrasse no apartamentinho veria que ele se resumia a uma cama de solteiro de armar, um pequeno banheiro com uma cortina com motivos tropicais para dar privacidade ao banho e uma diminuta cozinha.

De resto, eram prateleiras de metal onde se acumulavam resistências queimadas de chuveiros, maçanetas rotas, buchas de torneiras, lâmpadas quebradas, persianas esgarçadas, cacos de vasos, lascas de móveis, restos de reboco e todo um mundo de inutilidades, detalhes de outras vidas, um arremedo de história.

Zelar pelo que nunca foi seu, reparar o que ele próprio nunca quebrou, ouvir o que nunca pediu e seguir, o cômodo cada vez mais apertado, trabalhando em um eterno favor à espera do próximo toque do interfone.




Direto na têmpora: Ne me quitte pas – Nina Simone

sexta-feira, maio 25, 2007

Cobertura 803

Frio, cirúrgico, um dos maiores torturadores do Brasil durante a ditadura. Capaz de saber o momento exato de suspender o castigo para evitar o descanso indesejado do desmaio. Um gênio em seu ofício.
Com a volta da democracia, recebeu uma polpuda recompensa pelos serviços prestados (e para manter a boca fechada) e foi alocado em alguma repartição pública obscura.
Mirrado, mínimo, insignificante, era tratado com desdém pelos moradores que o chamavam apenas de “o velho do 803”. Mas à noite, sentado no vaso de sua cobertura, vingava-se de todos quando sabia seus excrementos escorrendo pelas veias do velho prédio e quase gritava: “Comunistazinhos filhos da puta. Cago na cabeça de todos vocês. Filhos da puta.”




Direto na têmpora: The day I tried to live - Soundgarden

Cobertura 801

Depois de anos brigando traçaram uma linha imaginária dividindo o apartamento. Usavam a cozinha em turnos, dormiam em quartos diferentes, comiam em horários distintos.
Um dia ele acordou estranho, ela acordou mudada. Não eram os mesmos. O melhor dele havia ficado em algum lugar do espaço dela, o mais alegre dela se perdeu em algum canto da área dele. E eles nunca encontraram.
Venderam o imóvel e saíram. Um para cada lado, um de cada jeito. Cada um sem seu canto. Incompletos e novos.




Direto na têmpora: Sexy M.F. - Prince

quarta-feira, maio 16, 2007

Apto 202

Morava sozinho. Acordava às 6 da manhã, almoçava na fábrica, chegava em casa às 8 da noite. Aos sábados via televisão. Aos domingos pedia uma pizza e caminhava na calçada.
Um dia subiu as escadas, andar por andar, e trocou todos os capachos dos apartamentos de lugar. Passou o domingo rindo baixinho em casa. Nem foi caminhar na calçada.




Direto na têmpora: Beast of burden - Rolling Stones

quarta-feira, maio 09, 2007

Cobertura 802

Júlio tinha 53, uma BMW ‘07, uma tv de plasma 50’ e uma namorada de 22. Morava sozinho em sua cobertura, mas quase nunca ficava por ali. Se não estava no escritório, estava em alguma rave madrugada afora.
Júlio quase não conversava com a Cuca (a tal namorada de 22): faltava assunto e sobrava tesão. Era secretamente invejado por amigos, colegas de trabalho e vizinhos, mas o que ninguém sabia é que, nos poucos momentos em que ficava em casa, Júlio abria um guaraná, assava um pão de queijo e colocava Frank Sinatra na maior altura. Era o único momento em que pensava seriamente em desistir dessa vida e começar a envelhecer.
Mas aí a Cuca ligava e já viu, né? Não dá pra perder o DJ Koslowski na Chucha Madre.




Direto na têmpora: ABC - Jackson Five

Apto 103

O gato de Helena sabia tudo o que ela sentia. Cada segredo, cada dúvida, cada medo, cada alegria, tudo era confidenciado ao bichano.
Um dia o gatinho soltou um miado que parecia dizer “João”. Amanheceu morto com veneno de rato misturado na ração.
Helena detesta fofoca.




Direto na têmpora: Come and buy my toys - David Bowie

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Cobertura 804

Daquela vez o Júnior tinha passado dos limites. Acordou com a ressaca clássica, gosto de corrimão de zona, sede filhadaputa e tudo mais. A cabeca doía incrivelmente e, se ele conseguisse falar, juraria nunca mais beber.
Arrastou-se da cama, os olhos cheios de areia. Acender a luz, nem pensar. Pegou a calça de ontem para vestir e o simples pensamento do café da manhã já o deixou com ânsias. A cabeça parecia querer explodir.
Levantou-se num esforço hercúleo e ao apalpar um dos bolsos sentiu acidentalmente um pedaço de papel. Retirou cuidadosamente e leu a mensagem: “Tucão. 9901 8543.”
Naquele momento, a dor que preocupava o Júnior já não era a da cabeça.




Direto na têmpora: Quicksand - David Bowie

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Apto 304

Quando o resgate chegou ela estava no chão e o frasco de comprimidos aberto sobre a mesa. Ficou duas semanas no hospital e, quando voltou, ninguém soube dizer quem tinha ligado para pedir ajuda. Na dúvida, mandou entregar um bolo caseiro para cada apartamento.
Todos de chocolate, mas apenas um deles com ciromazina suficiente para matar uma pessoa.




Direto na têmpora: Besame mucho - The Beatles

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Apto. 301

Os banhos do Dico duravam horas. Um dia, cantando uma ária de La Traviata a plenos pulmões, uma lagartixa caiu em sua boca. Engasgou-se por um momento, quase sufocou, tentou cuspir, mas acabou engolindo a bichinha na confusão.
Ao contar o caso para a mulher, comentou enquanto ela fazia cara de nojo: “sei lá, parece ostra”.




Direto na têmpora: Today's undertaking - M. Ward

Apto. 603

Nívea chegou da roça e foi viver dois quartos – com terceiro reversível – na cidade grande. Trabalhava em um supermercado, namorava (e às vezes até um pouco noivava) um rapaz formado em Ciências Contábeis. Gostava dele, do cheiro dele. Bom coração tinha o moço. Sério.
Não gostava mesmo era da cidade. Tinha raiva de manga em prateleira, tinha birra de rua sem terra, tinha um fechar de olhos doído com som de buzina.
Quando chovia muito, de vento, Nívea abria a janela e deixava molhar a sala. Ficava ali, solta no piso de taco, vestido colado no corpo, cabelo empapado, e só assim era um pouco feliz.




Direto na têmpora: Do the evolution - Pearl Jam