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terça-feira, abril 05, 2011

Mais uma pequena tragédia cotidiana

O texto abaixo foi criado como uma piada. Talvez seja impróprio para menores, talvez ofenda os politicamente corretos e talvez incomode os que não têm senso de humor. Leia por sua conta e risco.


Na segunda-feira, Lélio acordou com uma estranha vontade de comer repolho.

Nunca havia gostado de repolho, nunca havia suportado repolho e agora aquilo, um desejo incontrolável, uma ânsia soberana de se alimentar apenas de repolho.

Comeu até se fartar, se empanturrou do vegetal e foi dormir saciado, exausto, exalando repolho. Praticamente uma overdose.


Na terça-feira, Lélio acordou com uma estranha vontade de pintar paredes.

Nunca havia pintado paredes, nunca tinha segurado um pincel e agora aquilo, um desejo incontrolável, uma ânsia soberana de não fazer nada além de pintar paredes.

Pintou paredes até se fartar, se lambuzou de tinta e foi dormir realizado, exausto, sonhando com paredes pintadas. Praticamente uma overdose.


Na quarta-feira, Lélio acordou com uma estranha vontade de dar a bunda.




Direto na têmpora: Machine Civilization - World Order

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Pequenas Tragédias Cotidianas está de volta

O regime estava funcionando. Já havia perdido sete quilos e agora faltavam apenas quatro para atingir o seu objetivo. Estava mais confiante, os homens a olhavam de outra forma e mesmo no trabalho seu desempenho parecia melhorar com o ganho de auto-estima.

O segredo, acreditava ela, era uma combinação de força de vontade e da granola da dona Neide. Comia a granola misturada com o iogurte natural pelo menos quatro vezes ao dia. O produto vinha em um saquinho azul escuro que ela despejava diretamente no iogurte e mexia vigorosamente, acreditando piamente em seus efeitos milagrosos.

Certa manhã, logo antes de sair de casa, sentiu algo extra-crocante na colherada. Olhando para o potinho de iogurte, percebeu um objeto imóvel que parecia levemente com algum inseto.

Guardou o conteúdo na bocheca, sem engolir, enquanto retirava a evidência com a colher e examinava cuidadosamente. A conclusão era inequívoca: uma pequena barata. Ou melhor, metade de uma pequena barata.

O impulso imediato foi cuspir o que estava em sua boca e ligar para dona Neide dizendo poucas e boas. Correu para pia, mas no último instante reparou na calça 40 que a aguardava sobre a cadeira. Ficava sempre ali para lembrá-la de que o sacrifício logo, logo traria frutos. Sua meta a olhava desafiadora como se dissesse "uma baratinha? Vai desistir de mim por causa de uma baratinha?".

Seu coração acelerou. Pensou no número de telefone que havia passado para o mocinho da boate, lembrou-se da cara de inveja da chefe e, encarando a calça tão sonhada, engoliu a colherada que ainda retinha na boca.

Com os olhos fechados, continuo comendo como quem medita. Ia valer a pena. Um dia, tudo aquilo ia valer muito a pena.




Direto na têmpora: Champagne Supernova - Oasis

sexta-feira, junho 19, 2009

Pequenas Tragédias Cotidianas VI

Esperara 13 anos por aquele momento. Desde que se tornara sócio do clube era a primeira vez que a via assim, inteiramente sozinha, sem nenhum olhar que a observasse.

Levantou-se com um salto e, movendo-se como um animal que caça, seguiu na direção da moça.

Ele já estava próximo quando ela percebeu sua presença e sorriu. Ele retribuiu com um sorriso que lhe esticava incomodamente a pele pela simpatia forçada que aplicara ao gesto.

Ajeitou os cabelos, abriu a boca para começar o discurso há tanto tempo ensaiado e, quando esticava a mão direita, sentiu o impacto no fundo da garganta.

Imediatamente levou a mão ao pescoço. Sufocava, sentia-se desfalecer e mal sentiu o impacto de sua cabeça contra o chão.

No dia seguinte, quando recebia alta do hospital, só conseguia tocar o curativo na testa e pensar na maldita mosca que havia engolido. Maldito azar. Malditos 13 anos de espera jogados fora.




Direto na têmpora: Man in the Corner Shop - The Jam

segunda-feira, março 02, 2009

Pequenas Tragédias Cotidianas V

Ernesto começou a perder os cabelos. Solteiro, menos de 30 anos ainda e o rapaz já ostentava uma promissora calva.

Procurou médicos, buscou os medicamentos mais avançados, enveredou-se em receitas caseiras, crendices e simpatias. Nada adiantou, Ernesto era um careca em franco desenvolvimento.

Pensou que não era tão mal assim. A calvície poderia dar a ele um ar mais distinto, responsável, até mesmo sofisticado. Mudou seu guarda-roupas e começou mesmo a suprimir alguams gírias do seu cotidiano.

Em poucos meses ninguém lhe dava menos que 45, 47 anos. Casou-se com uma amiga de sua mãe e herdou dela os filhos (o primogênito era apenas 6 anos mais novo que ele).

Quando morreu, aos 60 anos, o mundo à sua volta imaginava que ele beirava os 80. Deixou viúva a mulher, os enteados e a frase na boca dos conhecidos "viveu bastante, coitado, já estava mesmo na hora."




Direto na têmpora: God Only Knows - The Beach Boys

quinta-feira, abril 24, 2008

Pequenas Tragédias Cotidianas IV

Ele odiava o maldito anão de jardim que ficava na área de lazer, perto da piscina. Sempre que era obrigado a passar por ali, e isso era praticamente todo dia por causa da localização da sua vaga de garagem, tinha a nítida sensação de que a escultura de gesso zombava dele, os olhos grandes, o chapéu vermelho e pontudo, a barba branca que negava a expressão jovial e contente.

Murmurava sempre um “vai tomar no cu” ou “anão filho da puta” ao passar pelo pequenino. Virou uma obsessão.

Às vezes acordava sobressaltado pelo pesadelo com a face sorridente do boneco se aproximando mais e mais do seu próprio rosto. Pesadelo recorrente e incômodo. Resolveu que precisava fazer algo.

Eram três da manhã quando esgueirou-se pelo jardim e surrupiou o anão. Subiu ao telhado onde ficavam as antenas do velho prédio e, após sussurrar uma última ofensa, lançou a estátua no vazio. Estranhou o ruído, mais abafado do que imaginara, e desceu para o apartamento.

Surpreendeu-se com a comoção na entrada do prédio na manhã seguinte e, ao ser informado sobre o bizarro acidente que envolveu um anão de jardim caído dos céus e a morte do porteiro, estremeceu.

Nunca foi tido como suspeito e o assunto foi esquecido, mas ainda hoje, ao pregar os olhos, o pesadelo recomeça, agora com o anão e o porteiro. Sorrindo, sorrindo sempre os dois.




Direto na têmpora: Windowsill - Arcade Fire

terça-feira, abril 15, 2008

Pequenas Tragédias Cotidianas III

Tomou a última taça da garrafa de vinho e foi dormir. Não estava bêbado, mas sentia aquele torpor gostoso que ajuda a esquecer o diazinho miúdo e sujo que terminava ali.

Dormiu nu e, em uma das jogadas de corpo durante a noite, derrubou sem ver o despertador. Acordou com uma leve dor de cabeça, recolheu o despertador desconectado da tomada e consultou o relógio de pulso para descobrir que estava meia hora atrasado.

Optou pelo banho à noite para ganhar tempo, escovou os dentes e vestiu-se apressado. Correu até a cozinha, abriu a geladeira e, atabalhoadamente, derrubou o leite na camisa recém-colocada. Escolheu outra camisa e disparou até o carro.

No primeiro cruzamento, avançou o amarelo. No segundo, colidiu com uma kombi antiga e sem seguro. Avisou à secretária do ocorrido e resignou-se, a manhã estava perdida. Passou os dados para o rapazinho mulato e gorducho, vistoriou brevemente a kombi para não pagar mais do que os danos causados pelo acidente, deixou seu próprio carro na oficina de confiança, a uns bons 40 minutos dali, e chamou um táxi para chegar no escritório ainda pela manhã.

Passou o almoço no trânsito e, chegando na sala, acessou os emails. Três mensagens do principal cliente, pedindo um retorno urgente até o meio-dia. Assoviou a Marcha Turca de Mozart e sentiu a dor de cabeça crescer um pouquinho. A tarde seria mesmo para salvar o emprego.




Direto na têmpora: Too busy thinking about my baby - Marvin Gaye

sexta-feira, abril 11, 2008

Pequenas tragédias Cotidianas II

O vaso chinês


Quando o menino atravessou a sala correndo com a bola de futebol, Mariana olhou e até pensou em dizer algo, mas desistiu. Segundos depois, ao ouvir o barulho de algo se quebrando, só conseguiu pensar “tomara que não seja o vaso da tia Célia, tomara que não seja o vaso da Tia Célia.”.

Foi repetindo mentalmente o mantra até chegar na sala e perceber que havia sido o vaso da Tia Célia. Entre esganar o filho, paralisado em cima do sofá, e trancar-se no quarto o resto da tarde, optou pela saída número 2.

Deitou na cama e, enquanto percebia a chegada da enxaqueca, lembrou-se das palavras que Tia Célia sussurrou antes de morrer: “esse vaso vai te fazer feliz com ele”. “Ele”, no caso, era o marido há 16 anos e pai de seus três filhos, inclusive do caçula ensandecido que destruíra o vaso.

Molhou o paninho na água morna, repousou sobre os olhos e, subitamente, teve a sensação de que a felicidade conjugal se esvaía. Não comentou nada, mas começou a suspeitar do marido. Vasculhava bolsos, acessava emails, investigava o celular, aparecia no trabalho sem avisar, enfim, uma espreita que durou um bom tempo.

Nunca descobriu nada, mas como tinha nas vísceras a certeza de que o fim do vaso representava o fim da harmonia do casal, nunca mais olhou para o marido do mesmo jeito. Guardava inclusive um certo ódio por ele continuar aparentando tanta normalidade mesmo após uma perda daquelas.

Para se vingar, arranjou um amante. Separaram-se 5 meses depois e ela ficou com os filhos, apesar de não fazer questão nenhuma do caçula endiabrado.




Direto na têmpora: Desculpe, Babe - Mutantes

quinta-feira, abril 10, 2008

Pequenas Tragédias Cotidianas I

A mousse de chocolate, receita de família, era famosa. Na geladeira, uma grande vasilha guardava o restinho da iguaria quando ele saiu para trabalhar, antecipando uma manhã rápida, um almoço insosso e a redenção com a mousse ainda nova.

Carimbou furiosamente as horas da primeira parte do dia, costurou as ruas tediosamente conhecidas e chegou ávido, requentando e engolindo quase sem mastigar o bife bem passado e mal temperado.

Dentro da geladeira, a vasilha vazia. Morava sozinho e hoje não tinha diarista. Ninguém mais tinha a chave, aliás, nem a tal diarista, moça jeitosa que vinha às quintas para limpar o apartamento. Era ele quem abria a porta pela manhã e fechava quando ela saía após o almoço.

Olhou por alguns segundos ainda a vasilha vazia, a geladeira repentinamente sem graça. Fechou a porta e adivinhou a luzinha se apagando lá dentro. Em sua vida morosa e vazia, aquilo parecia um sinal claro do desespero. O sumiço da mousse representava nada mais do que um bom motivo para acabar com aquilo tudo, pendurado pela gravata, saltando pela janela ou respirando no escapamento de seu velho carro.

Voltou ao trabalho entre intrigado e prostrado. Sentou-se à mesa e, num lampejo, lembrou-se de ter levantado, nem bem acordado, e comido o resto da mousse no meio da madrugada. “Idiota”, pensou, e carimbou lentamente as horas da segunda parte do dia.




Direto na têmpora: Sowing the seeds of love - Tears for Fears