Ontem eu não postei porque meu dia foi interrompido por uma ida a Ouro Preto. Vi mais um livro do qual participei ser lançado, conheci pessoas de uma infância anterior à minha e fui interpelado duas vezes por pessaos que acharam que eu era o marido da minha mãe.
Tá certo, dona Wanda é uma gata e não parece ter a idade que tem, mas na beirola de completar 40 anos o fato não faz muito bem a este gordo pré-careca que vos bloga.
Enfim, é a vida. E o que me resta é a confiança na miopia progressiva da Fernanda. Amém.
Olha aí o gordinho "marido" da minha mãe fazendo pose na cadeira de bolha nova da agência.
Direto na têmpora: It's on! - Korn
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sexta-feira, agosto 26, 2011
segunda-feira, maio 30, 2011
Aladim em Ouro Preto
Sophia percebendo na Igreja do Pilar uma certa referência às mil e uma noites.
- Papai, a gente vai é ali naquela igreja da Yasmin?
Direto na têmpora: Get Better - Mates of State
- Papai, a gente vai é ali naquela igreja da Yasmin?
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quarta-feira, janeiro 12, 2011
Maria Neves: minha bisavó, mãe de todo mundo
- Ô, Jardim, você tá mais gordinho... o que é que tá acontecendo, hein?
- Eu? Gordinho? Que é isso, mulher?
- Ora, não desconversa. Olha esse uniforme, mal cabe em você!
- Deixa de ser boba, mulher, isso aí encolheu porque você não sabe lavar direito.
Ela então ri com gosto.
- Ah, Jardim, Jardim... sua boca fala uma coisa, mas sua barriga diz outra. Fala a verdade, isso é doce de Dona Maria Neves que você anda roubando, não é não?
- Quê? Doce? Para com isso, mulher! Doce... onde já se viu? Roubar doce, eu?
É muito provável que o diálogo acima nunca tenha acontecido, mas pensando bem, sabe que pode ser que tenha sido bem próximo disso? É que Dona Maria Neves, minha bisavó, era uma vítima recorrente do Sr. Jardim, um carteiro de tempos mais antigos que sempre roubava alguns doces de figo cristalizados que costumavam secar nas janelas da velha casa da Rua Xavier da Veiga.
Aliás, o Sr. Jardim não era o único. Estudantes das repúblicas mais próximas e jovens vizinhos também não resistiam àqueles pedacinhos verdes de tentação cobertos de açúcar que ficavam atraindo os passantes como moça bonita, daquelas bem namoradeiras, aboletada na janela.
Eu confesso que também já roubei minha cota de doces de figo, doces de nozes e, é claro, dos deliciosos biscoitos de Maurilo (batizados em homenagem à minha paixão desmesurada por eles). Mas era um roubo sem necessidade para um primeiro bisneto e afilhado que era recebido sempre com um abraço e com a frase ao pé do ouvido “coloca a mão no meu bolso”. Quando eu colocava, saía cheio de balas Erlan entre os dedos e ela completava “se quiser mais é só vir me abraçar”.
Isso sem falar que na casa de Vovó Maria tinha penico ao lado da cama, tinha assoalho com frestas pelas quais se via o galinheiro, tinha aquele frio perfeito de Ouro Preto, tinha cama de mola, tinha família reunida e poste de ferro bem na frente da porta da entrada.
A verdade é que aparte toda a diversão e toda a doçura que a memória empresta ao que se amou, minha avó Maria (que eu nunca chamei de bisa) foi das mulheres mais fortes que já conheci.
Vovó Maria nasceu em São Caetano, hoje Monsenhor Horta, mas mudou-se para Ouro Preto ainda moça. Em Ouro Preto casou-se com Levindo Barbosa Leite, que também veio de Monsenhor Horta e era comerciante na cidade.
As certidões dizem que vovó Maria teve 7 filhos, mas isso é bobagem. Foram dezenas. Não faltaram irmãos, netos, amigos e vizinhos para que Dona Maria pudesse abrigar sob suas asas e cobrir de atenção, conselhos, carinho e, é claro, broncas. Muitas broncas.
Ah, sim, porque não se engane você pensando que Dona Maria Neves era dessas avozinhas de novela que se deixam no sofá e assistem a tudo calmamente sem mover um dedo. Ah, mas isso não, senhor.
Dona Maria Neves foi Inspetora de Alunos na antiga Escola Normal Oficial de Ouro Preto, meu amigo.
Dona Maria Neves viu o marido ir a falência e trabalhou como uma leoa vendendo seus trabalhos de crochê e à máquina, meu irmão.
Para os casamentos de dezenas e dezenas de noivas, Dona Maria Neves cansou de fazer salgados, doces, bombons, sempre com as bandejas enfeitadas pela amiga Hyara Tonidandel. Sem falar no seu famoso bolo com recheio de nozes, artisticamente confeitado por D. Eliza Alves de Brito.
Dona Maria Neves trabalhou dia e noite para fazer doces e salgados que abasteceram, ao longo de sua vida, as festas e os estômagos das famílias mais requintadas da região; os alunos da Escola Técnica Federal de Ouro Preto e os carnavais do 15 de Novembro, da Associação Comercial e do CAEM.
E daí? E daí que Dona Maria Neves aprendeu com a necessidade o valor da disciplina. Aprendeu com a adversidade a hora de apoiar e a hora de cobrar. Aprendeu com a vida que se doar não é uma opção: é uma obrigação.
Era um caso sério essa tal Maria Neves. Vaidosa, usava sempre saia e casaquinho e tinha pernas de moça mesmo aos 80 anos. Era louca por queijo Palmira, era louca por cinema, era louca por novelas e foi a mulher mais sã que já conheci.
Como amava as pessoas essa tal Maria Neves e sua casa de portas abertas para estudantes, turistas, amigos, equipes de filmagem e qualquer um que se apresentasse. Como amava e como foi amada. Eu, menino ainda, tinha ciúmes dessa avó/bisavó que era de uma cidade inteira. Bobagem minha. No coração de Dona Maria cabia quem soubesse chegar.
Voltando às datas e certidões e fatos, Dona Maria Neves nasceu a 18 de maio de 1903 e morreu em 1 de janeiro de 1986, aos 82 anos. Da sua morte me lembro de muito pouco, mas foi minha primeira perda de alguém realmente amado.
A lembrança mais forte que tenho é dos adultos chorando ao lado da cozinha. Sim, ao lado da cozinha, misturando lágrima, lembrança e o cheiro algo mágico das mais doces delícias. E foi exatamente como deveria ter sido.
Mas não foi o fim, porque a presença é algo que não se interrompe com algo tão bobo quanto a morte. Maria Neves existiu no jeito aparentemente sóbrio e intensamente alegre de minha Tia Avó Ilka. Maria Neves existe na vitalidade imensa, nos quitutes divinos e no amor que não mede palavras da minha Tia Rosa. Maria Neves para mim sempre existirá no cuidado que move céus e mundo de minha mãe Wanda.
Serei eu um pouco Maria Neves? Quem me dera, sou fraco. Mas imagino ainda assim uma cena em que o velho carteiro Jardim se une a um arcanjo mais saidinho e vão os dois juntos, pé ante pé, roubar os doces de figo celestiais que Vovó Maria deixa secando em alguma janela do Éden.
Ela briga, espinafra, mas no fundo então ri. E eles riem também. Mas que fique aqui o aviso, enquanto falamos dos doces de figo, está tudo certo, está tudo bem. Mas se algum anjinho metido, mesmo que seja o tal Gabriel, resolver roubar uma fornada quentinha de biscoitos de Maurilo a coisa muda de figura.
E aí é melhor se prepararem, porque eu não sou Maria Neves, mas vou aí em cima e acabo na hora com essa pouca vergonha.
Direto na têmpora: Just don't love you - Carbon Copies
- Eu? Gordinho? Que é isso, mulher?
- Ora, não desconversa. Olha esse uniforme, mal cabe em você!
- Deixa de ser boba, mulher, isso aí encolheu porque você não sabe lavar direito.
Ela então ri com gosto.
- Ah, Jardim, Jardim... sua boca fala uma coisa, mas sua barriga diz outra. Fala a verdade, isso é doce de Dona Maria Neves que você anda roubando, não é não?
- Quê? Doce? Para com isso, mulher! Doce... onde já se viu? Roubar doce, eu?
É muito provável que o diálogo acima nunca tenha acontecido, mas pensando bem, sabe que pode ser que tenha sido bem próximo disso? É que Dona Maria Neves, minha bisavó, era uma vítima recorrente do Sr. Jardim, um carteiro de tempos mais antigos que sempre roubava alguns doces de figo cristalizados que costumavam secar nas janelas da velha casa da Rua Xavier da Veiga.
Aliás, o Sr. Jardim não era o único. Estudantes das repúblicas mais próximas e jovens vizinhos também não resistiam àqueles pedacinhos verdes de tentação cobertos de açúcar que ficavam atraindo os passantes como moça bonita, daquelas bem namoradeiras, aboletada na janela.
Eu confesso que também já roubei minha cota de doces de figo, doces de nozes e, é claro, dos deliciosos biscoitos de Maurilo (batizados em homenagem à minha paixão desmesurada por eles). Mas era um roubo sem necessidade para um primeiro bisneto e afilhado que era recebido sempre com um abraço e com a frase ao pé do ouvido “coloca a mão no meu bolso”. Quando eu colocava, saía cheio de balas Erlan entre os dedos e ela completava “se quiser mais é só vir me abraçar”.
Isso sem falar que na casa de Vovó Maria tinha penico ao lado da cama, tinha assoalho com frestas pelas quais se via o galinheiro, tinha aquele frio perfeito de Ouro Preto, tinha cama de mola, tinha família reunida e poste de ferro bem na frente da porta da entrada.
A verdade é que aparte toda a diversão e toda a doçura que a memória empresta ao que se amou, minha avó Maria (que eu nunca chamei de bisa) foi das mulheres mais fortes que já conheci.
Vovó Maria nasceu em São Caetano, hoje Monsenhor Horta, mas mudou-se para Ouro Preto ainda moça. Em Ouro Preto casou-se com Levindo Barbosa Leite, que também veio de Monsenhor Horta e era comerciante na cidade.
As certidões dizem que vovó Maria teve 7 filhos, mas isso é bobagem. Foram dezenas. Não faltaram irmãos, netos, amigos e vizinhos para que Dona Maria pudesse abrigar sob suas asas e cobrir de atenção, conselhos, carinho e, é claro, broncas. Muitas broncas.
Ah, sim, porque não se engane você pensando que Dona Maria Neves era dessas avozinhas de novela que se deixam no sofá e assistem a tudo calmamente sem mover um dedo. Ah, mas isso não, senhor.
Dona Maria Neves foi Inspetora de Alunos na antiga Escola Normal Oficial de Ouro Preto, meu amigo.
Dona Maria Neves viu o marido ir a falência e trabalhou como uma leoa vendendo seus trabalhos de crochê e à máquina, meu irmão.
Para os casamentos de dezenas e dezenas de noivas, Dona Maria Neves cansou de fazer salgados, doces, bombons, sempre com as bandejas enfeitadas pela amiga Hyara Tonidandel. Sem falar no seu famoso bolo com recheio de nozes, artisticamente confeitado por D. Eliza Alves de Brito.
Dona Maria Neves trabalhou dia e noite para fazer doces e salgados que abasteceram, ao longo de sua vida, as festas e os estômagos das famílias mais requintadas da região; os alunos da Escola Técnica Federal de Ouro Preto e os carnavais do 15 de Novembro, da Associação Comercial e do CAEM.
E daí? E daí que Dona Maria Neves aprendeu com a necessidade o valor da disciplina. Aprendeu com a adversidade a hora de apoiar e a hora de cobrar. Aprendeu com a vida que se doar não é uma opção: é uma obrigação.
Era um caso sério essa tal Maria Neves. Vaidosa, usava sempre saia e casaquinho e tinha pernas de moça mesmo aos 80 anos. Era louca por queijo Palmira, era louca por cinema, era louca por novelas e foi a mulher mais sã que já conheci.
Como amava as pessoas essa tal Maria Neves e sua casa de portas abertas para estudantes, turistas, amigos, equipes de filmagem e qualquer um que se apresentasse. Como amava e como foi amada. Eu, menino ainda, tinha ciúmes dessa avó/bisavó que era de uma cidade inteira. Bobagem minha. No coração de Dona Maria cabia quem soubesse chegar.
Voltando às datas e certidões e fatos, Dona Maria Neves nasceu a 18 de maio de 1903 e morreu em 1 de janeiro de 1986, aos 82 anos. Da sua morte me lembro de muito pouco, mas foi minha primeira perda de alguém realmente amado.
A lembrança mais forte que tenho é dos adultos chorando ao lado da cozinha. Sim, ao lado da cozinha, misturando lágrima, lembrança e o cheiro algo mágico das mais doces delícias. E foi exatamente como deveria ter sido.
Mas não foi o fim, porque a presença é algo que não se interrompe com algo tão bobo quanto a morte. Maria Neves existiu no jeito aparentemente sóbrio e intensamente alegre de minha Tia Avó Ilka. Maria Neves existe na vitalidade imensa, nos quitutes divinos e no amor que não mede palavras da minha Tia Rosa. Maria Neves para mim sempre existirá no cuidado que move céus e mundo de minha mãe Wanda.
Serei eu um pouco Maria Neves? Quem me dera, sou fraco. Mas imagino ainda assim uma cena em que o velho carteiro Jardim se une a um arcanjo mais saidinho e vão os dois juntos, pé ante pé, roubar os doces de figo celestiais que Vovó Maria deixa secando em alguma janela do Éden.
Ela briga, espinafra, mas no fundo então ri. E eles riem também. Mas que fique aqui o aviso, enquanto falamos dos doces de figo, está tudo certo, está tudo bem. Mas se algum anjinho metido, mesmo que seja o tal Gabriel, resolver roubar uma fornada quentinha de biscoitos de Maurilo a coisa muda de figura.
E aí é melhor se prepararem, porque eu não sou Maria Neves, mas vou aí em cima e acabo na hora com essa pouca vergonha.
Direto na têmpora: Just don't love you - Carbon Copies
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segunda-feira, dezembro 13, 2010
Referência de trem bão
Outro dia fomos dormir, por motivo de dedetização, na casa dos meus pais. Ficamos no mesmo quarto eu, Fernanda e Sophia.
Na manhã seguinte, perguntamos se a baixinha tinha gostado e a resposta não poderia ter sido melhor.
- Gostei. Parece que a gente dormiu em Ouro Preto, né?
E acreditem, para ela é difícil um elogio maior do que esse.
Direto na têmpora: No sex in the champagne room - Chris Rock
Na manhã seguinte, perguntamos se a baixinha tinha gostado e a resposta não poderia ter sido melhor.
- Gostei. Parece que a gente dormiu em Ouro Preto, né?
E acreditem, para ela é difícil um elogio maior do que esse.
Direto na têmpora: No sex in the champagne room - Chris Rock
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segunda-feira, outubro 11, 2010
Nessas terras frias tem algo de bom
O frio de Ouro Preto é bom pra comer chocolate, é bom pra andar pelas ruas mesmo com a cidade cheia, é bom pra entrar em bares, é bom pra rever amigos, é bom pra curtir família.
O frio de Ouro Preto é bom pra quase tudo, de pizza a uma boa noitada. De festa em república a filme alugado em casa. De uma boa soneca a uma noite virada.
O frio de Ouro Preto só não é bom pra uma coisa: tomar banho. Com um frio desses, minha gente, tomar banho é quase um martírio.
Direto na têmpora: All I want for Christmas - Joss Stone
O frio de Ouro Preto é bom pra quase tudo, de pizza a uma boa noitada. De festa em república a filme alugado em casa. De uma boa soneca a uma noite virada.
O frio de Ouro Preto só não é bom pra uma coisa: tomar banho. Com um frio desses, minha gente, tomar banho é quase um martírio.
Direto na têmpora: All I want for Christmas - Joss Stone
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sábado, setembro 05, 2009
Afrescos do Êro Preto
Mal chegamos a Ouro Preto e, enquanto passeávamos pelas ruas, uma certa casa chama a atenção da minha Sophia. Com voz entusiasmada ela me chama:
"Olha, papai, uma casa de osso de cachorro!"
E o pior é que, olhando de perto, eu vi e entendi que ela tava certa. Confere aí.

Direto na têmpora: Je ne suis pas ta chose - Camille
"Olha, papai, uma casa de osso de cachorro!"
E o pior é que, olhando de perto, eu vi e entendi que ela tava certa. Confere aí.

Direto na têmpora: Je ne suis pas ta chose - Camille
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segunda-feira, agosto 03, 2009
Patrimônio
A casa de Ouro Preto está sendo reformada pelo Patrimônio Histórico. Parte elétrica, telhado, madeiras com cupim, tudo será recuperado para que o imóvel centenário fique definitivamente nos trinques.
Infelizmente o Patrimônio não recupera o tempo. Não traz de volta os colchões de palha, os penicos debaixo da cama e o banheiro longe, longe, entre a cozinha com fogão a lenha e o forno que ficava do lado de fora.
Aliás, era do lado de fora que eu olhava impressionado cortarem o pescoço das galinhas e deixarem o sangue escorrendo em uma bacia.
As tábuas do chão da casa tinham enormes festas entre si que deixavam entrar muito frio, a luz da manhã e, à noite, ruídos assustadores que ninguém conseguia me convencer que vinham do galinheiro.
A casa de Ouro Preto era para mim um lugar meio mágico. Quem sai de Ipatinga achando que frio é só uma invenção dos mais velhos, chega a Ouro Preto e descobre que o frio é algo que se enxerga, que se sente nos ossos e que se traduz em meias de lã, camadas de cobertores e em um amor imensurável por qualquer réstia de sol.
Minha bisavó Maria me recebia cheia de balas Erlan que me mostrava em segredo bem lá no fundo dos bolsos largos. Fazia o melhor doce de figo do mundo, medalhão de queijo, rosquinha de nata e o biscoito de Maurilo (nomeado em homenagem à minha paixão por ele).
Minha Sophia herdou de mim o amor pela casa, por Ouro Preto e pelo biscoito de Maurilo. E para mim não há alegria maior do que saber que, renovada, a casa ainda será palco de alegrias novas e outras para a minha filha. E ali sentiremos juntos o frio, pisaremos o calçamento irregular, comeremos língua de gato e gritaremos juntos ao primeiro relance das fachadas imemoriais: "Olha, o Êro Preto!"
Direto na têmpora: You're the one that I want - John Travolta & Olivia Newton John
Infelizmente o Patrimônio não recupera o tempo. Não traz de volta os colchões de palha, os penicos debaixo da cama e o banheiro longe, longe, entre a cozinha com fogão a lenha e o forno que ficava do lado de fora.
Aliás, era do lado de fora que eu olhava impressionado cortarem o pescoço das galinhas e deixarem o sangue escorrendo em uma bacia.
As tábuas do chão da casa tinham enormes festas entre si que deixavam entrar muito frio, a luz da manhã e, à noite, ruídos assustadores que ninguém conseguia me convencer que vinham do galinheiro.
A casa de Ouro Preto era para mim um lugar meio mágico. Quem sai de Ipatinga achando que frio é só uma invenção dos mais velhos, chega a Ouro Preto e descobre que o frio é algo que se enxerga, que se sente nos ossos e que se traduz em meias de lã, camadas de cobertores e em um amor imensurável por qualquer réstia de sol.
Minha bisavó Maria me recebia cheia de balas Erlan que me mostrava em segredo bem lá no fundo dos bolsos largos. Fazia o melhor doce de figo do mundo, medalhão de queijo, rosquinha de nata e o biscoito de Maurilo (nomeado em homenagem à minha paixão por ele).
Minha Sophia herdou de mim o amor pela casa, por Ouro Preto e pelo biscoito de Maurilo. E para mim não há alegria maior do que saber que, renovada, a casa ainda será palco de alegrias novas e outras para a minha filha. E ali sentiremos juntos o frio, pisaremos o calçamento irregular, comeremos língua de gato e gritaremos juntos ao primeiro relance das fachadas imemoriais: "Olha, o Êro Preto!"
Direto na têmpora: You're the one that I want - John Travolta & Olivia Newton John
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segunda-feira, abril 13, 2009
Anjos no Êropreto
Chegou ao ponto de dois fotógrafos do Rio de Janeiro pedirem pra tirar uma foto dela, mas como um anjinho tímido, ela recusou. Essa fui eu quem tirou.

Anjo também faz pose.
Direto na têmpora: If god will send his angels - U2

Anjo também faz pose.
Direto na têmpora: If god will send his angels - U2
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