O Mercado Central está fazendo 80 anos. Não o conheço há tanto tempo, mas é quase como se fosse.
Houve um tempo em que eu ia tanto ao Mercado Central que um dos atendentes do Bar da Tia me convidou para o seu casamento. Aliás, o Bar da Tia está no Incultos e é meu santuário por ali. Faz pelo menos 20 anos que não vou a outro bar ali dentro, principalmente se for para me sentar, o que contraria o espírito do Mercadão em sua essência.
Mas o caso de amor com o Mercado Central não é apenas uma questão do pão com linguiça, das porções deliciosas e da cerveja gelada. Tem a ver com os corredores labirínticos, com as frutas e vegetais frescos, com a intimidade e a cortesia em cada rosto, com o artesanato muitas vezes tosco, com a possibilidade da feijoada nas lojas de carne, com os doces e biscoitos e mesmo com a triste área dos animais.
O Mercado Central é um amigo de 80 anos e, por supuesto, tem sua parcela de manias e defeitos. Mas é ainda assim encantador.
Ontem mesmo estive por ali com a Sophia e ela tapou os ouvidos por causa da barulheira do Bar da Tia (que para mim é música). Depois, como já fizemos outras vezes, passeamos pelo lugar, ela encantada com os queijos e com as frutas e eu satisfeito por estar perto de um amigo íntimo.
Sophia ainda não ama o Mercado como eu e talvez nunca chegue perto disso. Pode ser, mas nunca se sabe. O Mercado tem pela frente pelo menos mais 80 anos (Deus queira) e a Sophia terá ainda muitas oportunidades para conhecê-lo melhor.
Quem sabe um dia seja ela a me levar para uma tarde no Bar da Tia, uma cerveja gelada ou um refrigerante, alguma porção saborosa e na volta as sacolas cheias de queijos e doces para os netos que um dia também estarão ali, fascinados como eu ou não.
Direto na têmpora: Last of Days - A Fine Frenzy