Tinha começado a correr há cerca de um mês e já se sentia melhor. As
roupas começavam a ficar mais largas, o fôlego e o sono melhoravam,
sentia-se um novo homem.
Claro que era difícil controlar a dieta e acordar às 5h30 da matina para se exercitar, mas por causa da ruivinha do escritório ele nem sequer pensava nos problemas.
Apaixonou-se por ela assim que a viu e chegou a receber alguns olhares
interessantes poucos dias depois. Bastou isso para que ele resolvesse
mudar de vida e entrar em forma de vez.
Os colegas repararam a
mudança e o incentivavam cada vez mais. Era como se treinasse para uma
maratona em que o prêmio fossem os beijos da ruivinha. Era um homem em
uma missão e nada poderia pará-lo.
Passou a usar roupas mais
modernas e a exalar confiança. Sentia-se pronto. Hoje seria o dia em que
puxaria papo com sua musa e a chamaria para sair. Toda a dor, todo o
cansaço, toda a forme, tudo valeria a pena.
Posicionou-se
estrategicamente perto da copa e aguardou sua paixão chegar para tomar
um café como fazia diariamente. Vinha como uma amiga, sorridente, leve,
quase um sonho.
Um tempo atrás a amiga poderia atrapalhar, mas
para o “novo” ele nada seria empecilho. Preparou-se para a abordagem e
já ia abrindo a boca quando ouviu a ruivinha dizer:
- Tô apaixonada mesmo, viu? Ele é muito fofo. Adoro gordinhos!
Fingiu que cumprimentava alguém e mudou sua trajetória rumo ao
elevador. Dois minutos depois estava pedindo um X-Tudo na lanchonete da
esquina. Com bacon extra, é claro.
Direto na têmpora: Let me go - Cake
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quinta-feira, outubro 03, 2013
segunda-feira, setembro 16, 2013
Esmola
Passou ao lado do mendigo e, sem olhar,
tirou a nota de dois reais da carteira e jogou displicentemente na vasilha de
plástico que jazia à frente do senhor sujo e de cabelos brancos. Vinte passos à
frente, entrou na cafeteria e, ao abrir a carteira, deu falta da nota de cem
que havia sacado mais cedo.
Imediatamente, quase por reflexo, olhou em volta. O maltrapilho havia sumido e levado sua grana.
Que descuido! Não que o dinheiro fosse fazer falta, ele andava bem de vida com o novo salário, mas dava raiva demais um ato tão bobo custar tanto.
- Entreguei pro mendigo por engano.
Imediatamente, quase por reflexo, olhou em volta. O maltrapilho havia sumido e levado sua grana.
Que descuido! Não que o dinheiro fosse fazer falta, ele andava bem de vida com o novo salário, mas dava raiva demais um ato tão bobo custar tanto.
A raiva começava a subir junto com o café
que ele bebia amargamente. Quem mandou ser bonzinho? Quem mandou querer ajudar
e dar esmolas pra um vagabundo qualquer? Um grande otário de coração mole, era
isso que ele era.
Sentia o rosto queimando de vergonha e
frustração e já não olhava para os outros. Abriu o jornal que trazia com ele e
fingiu ler alguma coisa para evitar que percebessem, por alguma arte mágica,
como ele havia sido burro.
De repente, uma voz grave ecoou pela
cafeteria.
- Ô, menina, vê aí um outro café pro dotô e
pode colocar um pão de queijo também, viu?
Virou-se e deu de cara com o mendigo
sorrindo seu sorriso pobre em dentes, um gigantesco buquê de rosas vermelhas na
mão.
- O lanche hoje é por minha conta, dotô,
pode aproveitar.
E antes que pudesse esboçar qualquer
reação, sentindo-se observado pelo planeta inteiro, ouviu o outro dizer ainda,
cheio de simpatia genuína.
- E as flores são pra patroa. Fala que eu
mandei um beijo pra ela. O nome é Francisco, viu?
Direto na têmpora: Block after block - Matt & Kim
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quinta-feira, agosto 22, 2013
Mapas
Délio
tinha uma mancha de nascença nas costas, logo abaixo da nuca. Talvez
por causa da localização, longe das suas vistas, nunca deu muita bola
pra ela nos primeiros anos de vida.
Até que um dia, já com seus 19 anos, uma namorada reparou:
- Dé, alguém já te falou que essa marca nas suas costas é igualzinha ao mapa da Fança?
Délio, que nunca tinha reparado no formato do mapa da França, respondeu que não, mas ficou pensativo com aquele comentário.
Os dias passavam e Délio cada vez mais se convencia de que aquilo só podia ser um sinal, uma indicação clara de que seu destino estava do outro lado do Atlântico, em Paris, Cannes ou em alguma cidadezinha do interior francês.
Começou a estudar a língua, informou-se sobre literatura, cinema, queijos e vinhos franceses e, assim que se formou em Turismo, partiu para encontrar o caminho que estava impresso em sua pele desde que nasceu.
No país novo conseguiu trabalho, fez amigos e, beirando os 30 anos, arranjou uma companheira francesa que, em sua mente, talvez fosse o grande objetivo daquela mensagem hereditária com a qual sempre convivera. Nunca mais voltou ao Brasil e tinha plena certeza de que toda a sua vida, cada minuto de sua existência, só fazia sentido por causa de Marie.
Casaram-se e já no primeiro ano ela engravidou. Com três anos de casamento veio o segundo pimpolho, mas, com a mesma mágica súbita que tudo começou, as coisas azedaram por volta do quinto ano.
Já não conversavam, a paciência de um com o outro rareava e as discussões entre eles ganhavam proporções gigantescas e faziam fama na vizinhança. Separaram-se após seis anos de união, não sem antes enfrentarem uma longa batalha judicial repleta de acusações mútuas e dor.
Era um homem ferido, traído pelos sinais.
Dali em diante já não se animava com relacionamentos românticos, desiludido pela peça que lhe havia pregado o destino, a maldita mancha que, na verdade, não era uma indicação de felicidade, mas o aviso de um desastre.
Viveu solitário e morno,sem grandes paixões, sem grandes momentos, sem grandes reviravoltas. Essa não era definitivamente a vida que esperava na França.
Aos 60 anos, em um exame de rotina, o médico comentou:
- Curiosa essa sua mancha nas costas. Alguém já te disse que ela tem o fomato do...
- Sim, do mapa da França. Eu sei...
- Mapa da França? Não, na verdade ela se parece com um mapa, mas não da França.
E mostrando a mancha através de um espelho completou o raciocínio de forma definitiva.
- Tá vendo? É o mapa da Alemanha sem tirar nem pôr. Perfeito!
E assim terminou a consulta, com Délio amargo, murcho, derrotado. Bem de saúde, sem dúvida, mas cheio de ódio pela antiga namorada dos 19 anos e sua terrível ignorância em Geografia.
Direto na têmpora: Ice Cream Truck - Casiotone For The Painfully Alone
Até que um dia, já com seus 19 anos, uma namorada reparou:
- Dé, alguém já te falou que essa marca nas suas costas é igualzinha ao mapa da Fança?
Délio, que nunca tinha reparado no formato do mapa da França, respondeu que não, mas ficou pensativo com aquele comentário.
Os dias passavam e Délio cada vez mais se convencia de que aquilo só podia ser um sinal, uma indicação clara de que seu destino estava do outro lado do Atlântico, em Paris, Cannes ou em alguma cidadezinha do interior francês.
Começou a estudar a língua, informou-se sobre literatura, cinema, queijos e vinhos franceses e, assim que se formou em Turismo, partiu para encontrar o caminho que estava impresso em sua pele desde que nasceu.
No país novo conseguiu trabalho, fez amigos e, beirando os 30 anos, arranjou uma companheira francesa que, em sua mente, talvez fosse o grande objetivo daquela mensagem hereditária com a qual sempre convivera. Nunca mais voltou ao Brasil e tinha plena certeza de que toda a sua vida, cada minuto de sua existência, só fazia sentido por causa de Marie.
Casaram-se e já no primeiro ano ela engravidou. Com três anos de casamento veio o segundo pimpolho, mas, com a mesma mágica súbita que tudo começou, as coisas azedaram por volta do quinto ano.
Já não conversavam, a paciência de um com o outro rareava e as discussões entre eles ganhavam proporções gigantescas e faziam fama na vizinhança. Separaram-se após seis anos de união, não sem antes enfrentarem uma longa batalha judicial repleta de acusações mútuas e dor.
Era um homem ferido, traído pelos sinais.
Dali em diante já não se animava com relacionamentos românticos, desiludido pela peça que lhe havia pregado o destino, a maldita mancha que, na verdade, não era uma indicação de felicidade, mas o aviso de um desastre.
Viveu solitário e morno,sem grandes paixões, sem grandes momentos, sem grandes reviravoltas. Essa não era definitivamente a vida que esperava na França.
Aos 60 anos, em um exame de rotina, o médico comentou:
- Curiosa essa sua mancha nas costas. Alguém já te disse que ela tem o fomato do...
- Sim, do mapa da França. Eu sei...
- Mapa da França? Não, na verdade ela se parece com um mapa, mas não da França.
E mostrando a mancha através de um espelho completou o raciocínio de forma definitiva.
- Tá vendo? É o mapa da Alemanha sem tirar nem pôr. Perfeito!
E assim terminou a consulta, com Délio amargo, murcho, derrotado. Bem de saúde, sem dúvida, mas cheio de ódio pela antiga namorada dos 19 anos e sua terrível ignorância em Geografia.
Direto na têmpora: Ice Cream Truck - Casiotone For The Painfully Alone
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quarta-feira, agosto 21, 2013
Caos
Tico ouviu um estrondo e imediatamente ficou alerta. Era
novo naquela região e de onde vinha, uma fazenda tranquila no interior do
Estado, esse tipo de barulho não era comum.
Tico havia chegado a Belo Horizonte coisa de dois dias atrás
e ainda se acostumava com os sons, as cores e os movimentos da cidade. Saiu de
casa praticamente uma única vez para uma consulta de rotina e de resto ficava
por ali, meio sem ter o que fazer no apartamento.
Poucos segundos depois, um novo estrondo. E mais outro. Uma
sucessão de explosões fez com que Tico corresse em busca de abrigo temendo o
pior. O que seria aquilo?
Circulou o apartamento pequeno, mas apenas confirmou o que
já sabia: estava sozinho. Tadeu havia saído mais cedo e deixado que ele
enfrentasse aquela loucura sem um único conselho ou dica sobre como agir.
O barulho não parava. Às vezes cedia e parecia que ia sumir
apenas para voltar com mais violência ainda.
Tico se encolhia e apavorava cada vez mais. Por onde andaria
Tadeu? Será que corria mais risco do que ele diante daquela balbúrdia?
Os minutos passaram como se fossem horas e Tico ali,
começando a madrugada sem pregar os olhos ouviu o barulho da porta. Ficou
indeciso entre correr para saber de Tadeu o que havia acontecido ou manter-se
seguro e encolhido em sua cama.
Ao ouvir a voz de Tadeu sentiu-se mais confiante e correu ao
seu encontro. O rapaz estava suado, agitado, cumprimentou Tico praticamente sem
olhar e seguiu para o quarto dando socos no ar, saltando, agindo como Tico
nunca tinha visto e como não conseguia compreender.
O barulho continuava e Tico aproveitou um momento de calma
em que Tadeu sentou-se na sala para subir em seu colo.
Só então o rapaz percebeu como seu cão devia estar realmente
assustado com aquela confusão toda.
- Ô, Tico, que susto, hein, garoto? Foi o Galo, Tico! É
campeão, pretinho! A gente é campeão, pô!
Direto na têmpora: I need fun in my life - The Drums
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quinta-feira, junho 14, 2012
Verde
- Então tá bom, chegando em casa eu te conto a novidade, tá?
- Novidade? Que novidade, Guta?
- É segredo, curioso. Em casa você fica sabendo.
Pronto, bastou aquilo pra bagunçar o dia dele. Cabeça
voando, falava consigo mesmo diante da tela imóvel do computador.
- Segredo? Guta nunca teve segredo pra mim. Bom, coisa ruim
não deve ser pela voz dela. Ou então é bom pra ela e ruim pra mim. E se a
novidade for aquele curso na França que ela sempre sonhou? E se ela estiver
indo embora?
Ficou naquela, entre intrigado e irritado pela tal novidade.
Na volta, o caminho que ele fazia diária e calmamente de bicicleta, agora
parecia a subida da Graciosa. A cabeça não parava. Maldita curiosidade.
O tempo no elevador, outra eternidade. Abriu a porta e se
deparou com ela a sorrir no meio da sala. A mesma Guta, mas agora com cabelos
completamente verdes.
- Cabelo verde, Guta? Sério?
- Não gostou?
- Não sei. Verde? Difícil de acostumar.
- Pois é, resolvi hoje cedo, assim, de surpresa.
- É? Mas cabelo verde? Tem certeza? De onde você tirou essa
ideia?
- Sei lá, assim que eu soube que o juiz havia autorizado a
adoção hoje cedo decidi que queria ser a primeira mãe de cabelo verde da minha
família.
Ele não parava de chorar. Seria pai. E então era verde a
cor da alegria.
Direto na têmpora: Can't get used to losing you - The English Beat
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