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sexta-feira, novembro 08, 2013

Madri

Madri, a cidade dos sonhos do casal. Juntaram grana por três anos até terem condições de fazer aquela viagem da maneira correta: lugar na primeira classe, hotel cinco estrelas, reservas nos melhores restaurantes. Compraram uma câmera nova, os guias mais descolados e ela ainda deu aquele upgrade nas roupas que iria levar dentro da mala recém-adquirida.

O primeiro dia foi perfeito. Temperatura amena, céu azul, caminhando pelas ruas e parando para beber um bom vinho espanhol e saborear uns tapas. Um jantar romântico, uma lua cheia e uma noite perfeita na suíte gigantesca deram o toque final no início maravilhoso de viagem.

Manhã seguinte, após um café da manhã leve e saborosíssimo, saem felizes do hotel, mãos dadas, sorriso no rosto. Ela observa as ruas e ele, involuntariamente, segue por alguns segundos o decote de uma madrilenha de parar o trânsito da união europeia inteira.

Escapou rápido da distração e virou-se para dar de cara com o olhar furioso da mulher. Ainda tentou disfarçar:

- Bonita, né?

A resposta foi um silêncio gelado que durou o restante da viagem inteira. Os 5 dias seguintes seguiram-se protocolares, distantes, sem emoção alguma por parte dela e cheios de olhares pidões, piadas e presentes por parte dele.

Na última noite ele, desesperado para consertar tudo o que aquele olhar rápido e inconsequente havia estragado, fez uma loucura e comprou um colar que sairia praticamente pela metade do que havia custado a viagem inteira.

Na mesa do café da manhã ele então entregou o colar junto com o mais sincero e profundo olhar de arrependimento.

Ela então desabou a chorar e deu nele um abraço apaixonado e arrependido. Imediatamente ele soltou o discurso de improviso:

- Tudo bem, meu amor, eu entendo. Ciúmes é um negócio normal. Eu é que me sinto péssimo por ter estragado nossa viagem com essa bobagem. Justo eu, que tenho a mulher mais maravilhosa do mundo ao meu lado...

Então, antes que ele continuasse, ela interrompeu.

- Não é por isso que eu estou chorando, Julio. É que eu só queria voltar no tempo para não ter jogado sua passagem no rio Manzanares naquele dia em que eu vi você olhando para aquela mulher.

E assim foi, ela de volta pra casa e Julio dormindo três dias no aeroporto para economizar com hospedagem e conseguir pagar o colar que havia comprado.




Direto na têmpora: Trophy Wife - The National

Nomes

Maldita memória. Como ele pôde esquecer o nome daquele menino que fazia natação com ele? Fernando? Bernardo? Eles foram melhores amigos desde bem pequenininhos até os 13 anos de idade, quando o garoto mudou-se para Vitória.

Ernesto? Rodrigo? Re… Ro… o nome com certeza era com “R”. E o sobrenome… com “C”! Não, com “G”, isso, certeza de que era com “G”.

Rogério Gomide? Reinaldo Gouvêa?

Os dois passavam o final de semana brincando no clube, poxa! Ele tinha uma irmã mais nova que usava óculos grossos e o pai tinha um Opala.

Roberval? Não, claro que não era Roberval.

A mãe era dona de casa e fazia um bolo de cenoura absurdo de bom. Era torcedor do Guarani de Campinas, olha só que loucura.

Rinaldo Gonçalves? Rubens Guimarães?

Renato! Isso, o nome dele era Renato. Renato Guerra? Renato Góes? Renato Gomes! Pronto, agora tinha certeza, Renato Gomes era o nome do amigo.

Virou-se para o computador e começou uma busca frenética. Google, Facebook, LinkedIn e dá-lhe milhares de Renato Gomes, mas nenhum que fosse seu velho colega de infância.

Ficou horas nessa obsessão infrutífera até que o chefe chamou sua atenção.

- E aí, Marcelo, cadê o relatório?

Chamado ao dever, esqueceu o assunto e seguiu seu dia com as tarefas chatas e repetitivas de sempre.

À noite, deitou-se exausto e dormiu rápido. Foi acordado no meio da madrugada com um momento de clareza: Henrique Costa! Nem Renato e nem Gomes, Henrique Costa era o nome do coleguinha. O bom e velho Henrique Costa, como poderia esquecê-lo?

Levantou da cama em um salto para o susto da mulher e partiu para o computador rumo a mais uma longa busca através de uma infindável selva de homônimos. Não importava, daquela vez ele estava seguro de que acharia seu amigo perdido, o grande Henrique Costa.

Infelizmente o nome certo não era esse, era Henrique Castro. E Marcelo nunca mais soube dele.

Maldita memória.




Direto na têmpora: Simmer Down - The Specials

quinta-feira, outubro 03, 2013

Louco por ela

Tinha começado a correr há cerca de um mês e já se sentia melhor. As roupas começavam a ficar mais largas, o fôlego e o sono melhoravam, sentia-se um novo homem.

Claro que era difícil controlar a dieta e acordar às 5h30 da matina para se exercitar, mas por causa da ruivinha do escritório ele nem sequer pensava nos problemas.

Apaixonou-se por ela assim que a viu e chegou a receber alguns olhares interessantes poucos dias depois. Bastou isso para que ele resolvesse mudar de vida e entrar em forma de vez.

Os colegas repararam a mudança e o incentivavam cada vez mais. Era como se treinasse para uma maratona em que o prêmio fossem os beijos da ruivinha. Era um homem em uma missão e nada poderia pará-lo.

Passou a usar roupas mais modernas e a exalar confiança. Sentia-se pronto. Hoje seria o dia em que puxaria papo com sua musa e a chamaria para sair. Toda a dor, todo o cansaço, toda a forme, tudo valeria a pena.

Posicionou-se estrategicamente perto da copa e aguardou sua paixão chegar para tomar um café como fazia diariamente. Vinha como uma amiga, sorridente, leve, quase um sonho.

Um tempo atrás a amiga poderia atrapalhar, mas para o “novo” ele nada seria empecilho. Preparou-se para a abordagem e já ia abrindo a boca quando ouviu a ruivinha dizer:

- Tô apaixonada mesmo, viu? Ele é muito fofo. Adoro gordinhos!

Fingiu que cumprimentava alguém e mudou sua trajetória rumo ao elevador. Dois minutos depois estava pedindo um X-Tudo na lanchonete da esquina. Com bacon extra, é claro.




Direto na têmpora: Let me go - Cake

segunda-feira, setembro 16, 2013

Esmola

Passou ao lado do mendigo e, sem olhar, tirou a nota de dois reais da carteira e jogou displicentemente na vasilha de plástico que jazia à frente do senhor sujo e de cabelos brancos. Vinte passos à frente, entrou na cafeteria e, ao abrir a carteira, deu falta da nota de cem que havia sacado mais cedo.

- Entreguei pro mendigo por engano.

Imediatamente, quase por reflexo, olhou em volta. O maltrapilho havia sumido e levado sua grana. 

Que descuido! Não que o dinheiro fosse fazer falta, ele andava bem de vida com o novo salário, mas dava raiva demais um ato tão bobo custar tanto.
A raiva começava a subir junto com o café que ele bebia amargamente. Quem mandou ser bonzinho? Quem mandou querer ajudar e dar esmolas pra um vagabundo qualquer? Um grande otário de coração mole, era isso que ele era.
Sentia o rosto queimando de vergonha e frustração e já não olhava para os outros. Abriu o jornal que trazia com ele e fingiu ler alguma coisa para evitar que percebessem, por alguma arte mágica, como ele havia sido burro.
De repente, uma voz grave ecoou pela cafeteria.
- Ô, menina, vê aí um outro café pro dotô e pode colocar um pão de queijo também, viu?
Virou-se e deu de cara com o mendigo sorrindo seu sorriso pobre em dentes, um gigantesco buquê de rosas vermelhas na mão.
- O lanche hoje é por minha conta, dotô, pode aproveitar.
E antes que pudesse esboçar qualquer reação, sentindo-se observado pelo planeta inteiro, ouviu o outro dizer ainda, cheio de simpatia genuína.
- E as flores são pra patroa. Fala que eu mandei um beijo pra ela. O nome é Francisco, viu? 




Direto na têmpora:  Block after block - Matt & Kim

quinta-feira, agosto 22, 2013

Mapas

Délio tinha uma mancha de nascença nas costas, logo abaixo da nuca. Talvez por causa da localização, longe das suas vistas, nunca deu muita bola pra ela nos primeiros anos de vida.

Até que um dia, já com seus 19 anos, uma namorada reparou:

- Dé, alguém já te falou que essa marca nas suas costas é igualzinha ao mapa da Fança?

Délio, que nunca tinha reparado no formato do mapa da França, respondeu que não, mas ficou pensativo com aquele comentário.

Os dias passavam e Délio cada vez mais se convencia de que aquilo só podia ser um sinal, uma indicação clara de que seu destino estava do outro lado do Atlântico, em Paris, Cannes ou em alguma cidadezinha do interior francês.

Começou a estudar a língua, informou-se sobre literatura, cinema, queijos e vinhos franceses e, assim que se formou em Turismo, partiu para encontrar o caminho que estava impresso em sua pele desde que nasceu.

No país novo conseguiu trabalho, fez amigos e, beirando os 30 anos, arranjou uma companheira francesa que, em sua mente, talvez fosse o grande objetivo daquela mensagem hereditária com a qual sempre convivera. Nunca mais voltou ao Brasil e tinha plena certeza de que toda a sua vida, cada minuto de sua existência, só fazia sentido por causa de Marie.

Casaram-se e já no primeiro ano ela engravidou. Com três anos de casamento veio o segundo pimpolho, mas, com a mesma mágica súbita que tudo começou, as coisas azedaram por volta do quinto ano.

Já não conversavam, a paciência de um com o outro rareava e as discussões entre eles ganhavam proporções gigantescas e faziam fama na vizinhança. Separaram-se após seis anos de união, não sem antes enfrentarem uma longa batalha judicial repleta de acusações mútuas e dor.

Era um homem ferido, traído pelos sinais.

Dali em diante já não se animava com relacionamentos românticos, desiludido pela peça que lhe havia pregado o destino, a maldita mancha que, na verdade, não era uma indicação de felicidade, mas o aviso de um desastre.

Viveu solitário e morno,sem grandes paixões, sem grandes momentos, sem grandes reviravoltas. Essa não era definitivamente a vida que esperava na França.

Aos 60 anos, em um exame de rotina, o médico comentou:

- Curiosa essa sua mancha nas costas. Alguém já te disse que ela tem o fomato do...

- Sim, do mapa da França. Eu sei...

- Mapa da França? Não, na verdade ela se parece com um mapa, mas não da França.

E mostrando a mancha através de um espelho completou o raciocínio de forma definitiva.

- Tá vendo? É o mapa da Alemanha sem tirar nem pôr. Perfeito!

E assim terminou a consulta, com Délio amargo, murcho, derrotado. Bem de saúde, sem dúvida, mas cheio de ódio pela antiga namorada dos 19 anos e sua terrível ignorância em Geografia.





Direto na têmpora: Ice Cream Truck - Casiotone For The Painfully Alone

quarta-feira, agosto 21, 2013

Caos

Tico ouviu um estrondo e imediatamente ficou alerta. Era novo naquela região e de onde vinha, uma fazenda tranquila no interior do Estado, esse tipo de barulho não era comum.

Tico havia chegado a Belo Horizonte coisa de dois dias atrás e ainda se acostumava com os sons, as cores e os movimentos da cidade. Saiu de casa praticamente uma única vez para uma consulta de rotina e de resto ficava por ali, meio sem ter o que fazer no apartamento.

Poucos segundos depois, um novo estrondo. E mais outro. Uma sucessão de explosões fez com que Tico corresse em busca de abrigo temendo o pior. O que seria aquilo?

Circulou o apartamento pequeno, mas apenas confirmou o que já sabia: estava sozinho. Tadeu havia saído mais cedo e deixado que ele enfrentasse aquela loucura sem um único conselho ou dica sobre como agir.

O barulho não parava. Às vezes cedia e parecia que ia sumir apenas para voltar com mais violência ainda.

Tico se encolhia e apavorava cada vez mais. Por onde andaria Tadeu? Será que corria mais risco do que ele diante daquela balbúrdia?

Os minutos passaram como se fossem horas e Tico ali, começando a madrugada sem pregar os olhos ouviu o barulho da porta. Ficou indeciso entre correr para saber de Tadeu o que havia acontecido ou manter-se seguro e encolhido em sua cama.

Ao ouvir a voz de Tadeu sentiu-se mais confiante e correu ao seu encontro. O rapaz estava suado, agitado, cumprimentou Tico praticamente sem olhar e seguiu para o quarto dando socos no ar, saltando, agindo como Tico nunca tinha visto e como não conseguia compreender.

O barulho continuava e Tico aproveitou um momento de calma em que Tadeu sentou-se na sala para subir em seu colo.

Só então o rapaz percebeu como seu cão devia estar realmente assustado com aquela confusão toda.

- Ô, Tico, que susto, hein, garoto? Foi o Galo, Tico! É campeão, pretinho! A gente é campeão, pô!




Direto na têmpora: I need fun in my life - The Drums