José Saramago foi autor de alguns dos textos mais poderosos que li em toda a minha vida. O primeiro texto dele que li foi a introdução do livro Terra, do fotógrafo Sebastião Salgado. Independente de opiniões políticas ou diferencas ideológicas sobre o direito à propriedade, um material comovente.
Na descrição do primeiro estupro do Ensaio Sobre a Cegueira, Saramago me fez interromper a leitura, jogar o livro à cama e me levantar completamente alterado enquanto resmungava "filho da puta, filho da puta", diante de uma Fernanda confusa com a cena.
Em Saramago, a ausência da pontuação sempre me pareceu um dividir com o leitor o ritmo do texto. Uma generosidade que nos permite, ao ler, sermos cúmplices de um mestre.
Fora isso, Saramago era ateu e comunista. Opção dele, direito dele, posturas que não tem nada a ver com a qualidade de sua obra. No entanto, hoje a senhora Iara Meirelles (@iara_meirelles) foi citada pela candidata a presidente Marina Silva com a frase: "Como podemos lamentar a morte de uma pessoa que blasfemou contra Deus a vida toda?"
Marina lidou mal com o assunto ao citar sem comentar no próprio texto, criou uma situação embaraçosa para si mesma, mas depois ficou claro que ela não compactuava com a opinião da pessoa.
Como podemos lamentar a morte de uma pessoa que blasfemou contra Deus a vida toda? Isso é intolerância no estado mais puro, é desejar ou achar merecida a morte de quem não concorda conosco. O direito a não ter fé não é tão importante quanto o direito à fé?
Não sei qual é a religião da senhora Iara e não me importa. Tenho certeza de que a visão absurda dela sobre o mundo diz mais sobre sua própria personalidade do que sobre as pessoas que frequentam a sua igreja, qualquer que ela seja.
No entanto, sinto vergonha e pena. Vergonha por imaginar alguém tão obtuso repassando esta visão extremista e impiedosa para criancas, por exemplo. E pena pelas pessoas todas que ainda confundem ou sofrem com a proximidade ultrajante entre discordância e intolerância.
Se Saramago pudesse ressucitar, pediria um texto sobre a Iara. Se bem que ele já escreveu um texto maravilhoso sobre a cegueira. Talvez seja suficiente.
Direto na têmpora: The Bellhop - Pomegranates
14 comentários:
ateus,beatos,iaras, marinas,
estupros,cegueiras, catracas...
só sei que vou continuar pra sempre a minha viagem de elefante.
e os elefantes nunca esquecem, roberto
Matou a pau, redatozim! Assino embaixo!
Obrigado, Rê.
epic fail da marina.
ok, todo mundo erra um dia. ela só escolheu errar na hora e lugar errados. e somando ao fato da opção religiosa dela, não ficou nada legal.
política já é um papo complicado e a mulher ainda dá uma mancada dessas incluindo religião no meio... sorte que o twitter não tem tanto alcance no país. derrapada feia.
Pois é, Tulio, como diz a Helena que trabalha comigo: hordas de estagiários serão demitidas depois dessa.
Muito bom. Mesmo.
Nuh! O último parágrafo enfiou a faca no peito da @iara_meirelles e ainda deu uma torcidinha!
Passa a régua e bate o martelo. Gostei muito do seu texto. Principalmente do final.
Valeu, Roberta.
DEsrespeito e intolerância não dá, né, Rapha?
Gracias, Didi.
Oi, Maurilo! Acompanho sempre o seu blog e simplesmente adoro a sua escrita e forma de pensar! Trabalhei com vc um pouquinho na Pro, mas nem tivemos tempo de trocar umas "ideias",rsrs. Fantástico seu texto sobre o mago Saramago, também fiz um no blog que compartilho com 4 amigas ( http://cincoetanto.blogspot.com/), quando puder faça-nos uma visitinha, será um prazer. Abs, Ana
Poxa, Ana, muito obrigado. Lembro-me de você na Pro, mas realmente nem conversamos naquele tempinho. Vou dar uma passada no cincoetanto.
Abraço,
Maurilo.
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