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sexta-feira, junho 18, 2010

Saramago e a intolerância

José Saramago foi autor de alguns dos textos mais poderosos que li em toda a minha vida. O primeiro texto dele que li foi a introdução do livro Terra, do fotógrafo Sebastião Salgado. Independente de opiniões políticas ou diferencas ideológicas sobre o direito à propriedade, um material comovente.

Na descrição do primeiro estupro do Ensaio Sobre a Cegueira, Saramago me fez interromper a leitura, jogar o livro à cama e me levantar completamente alterado enquanto resmungava "filho da puta, filho da puta", diante de uma Fernanda confusa com a cena.

Em Saramago, a ausência da pontuação sempre me pareceu um dividir com o leitor o ritmo do texto. Uma generosidade que nos permite, ao ler, sermos cúmplices de um mestre.

Fora isso, Saramago era ateu e comunista. Opção dele, direito dele, posturas que não tem nada a ver com a qualidade de sua obra. No entanto, hoje a senhora Iara Meirelles (@iara_meirelles) foi citada pela candidata a presidente Marina Silva com a frase: "Como podemos lamentar a morte de uma pessoa que blasfemou contra Deus a vida toda?"

Marina lidou mal com o assunto ao citar sem comentar no próprio texto, criou uma situação embaraçosa para si mesma, mas depois ficou claro que ela não compactuava com a opinião da pessoa.

Como podemos lamentar a morte de uma pessoa que blasfemou contra Deus a vida toda? Isso é intolerância no estado mais puro, é desejar ou achar merecida a morte de quem não concorda conosco. O direito a não ter fé não é tão importante quanto o direito à fé?

Não sei qual é a religião da senhora Iara e não me importa. Tenho certeza de que a visão absurda dela sobre o mundo diz mais sobre sua própria personalidade do que sobre as pessoas que frequentam a sua igreja, qualquer que ela seja.

No entanto, sinto vergonha e pena. Vergonha por imaginar alguém tão obtuso repassando esta visão extremista e impiedosa para criancas, por exemplo. E pena pelas pessoas todas que ainda confundem ou sofrem com a proximidade ultrajante entre discordância e intolerância.

Se Saramago pudesse ressucitar, pediria um texto sobre a Iara. Se bem que ele já escreveu um texto maravilhoso sobre a cegueira. Talvez seja suficiente.




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