O ser humano é curioso e temerário diante do diferente. Desde crianças, sempre que estamos diante de algo que não compreendemos ou que não corresponde aos padrões apreendidos inicia-se uma batalha dentro de nós entre o instinto de descobrir e o de se afastar.
Grande parte da nossa personalidade e dos caminhos que seguiremos depende das proporções com que combinamos estes fatores de medo e curiosidade.
Com o tempo, a curiosidade tende a se transformar em empatia e o medo tende a se transformar em raiva. Nasce assim o preconceito.
Fui criado em uma época em que piadas sobre gays e negros eram comuns até mesmo em programas infantis como os Trapalhões. Entendo que também no humor existe a capacidade de diminuir, de subjugar, de excluir alguém pela piada, mas sempre consegui enxergar o lado do riso que mostra com leveza a diferença e aproxima mais do que afasta.
São linhas tênues.
Sempre tive amigos negros, alguns namoricos com mulheres negras e nunca entendi bem o preconceito. Para mim a diferença da cor da pele é a mesma da cor do cabelo ou da altura. Poderíamos estar dividos entre gordos e magros, com sardas e sem sardas, orelhas presas e orelhas soltas. Até pelo convívio próximo eu nunca tive esse tipo de visão da diferença na questão cor da pele. Às vezes até fazíamos piada, mas nada com o intuito de ofender, apenas repetindo padrões e costumes.
Mas na questão da diversidade sexual a coisa era diferente. A verdade é que na minha adolescência de interior era padrão criticar, evitar, isolar e até mesmo magoar os gays para mostrar como éramos "machos".
Homem que é homem não fala fino, homem que é homem não beija outro homem, coisas do tipo. E isso nos distanciava das pessoas. "Eles" não eram homens, eram algo diferente, estranho.
E por isso eu tive amigos gays que só foram se assumir anos depois e por isso eu agi muitas vezes como um babaca até que eu amadureci e eles também.
Compreendemos mais ou menos ao mesmo tempo que ser gay é como ser louro, ter orelhas de abano ou mãos bonitas. É apenas uma das características que forma aquela pessoa. Passei a compreender, a respeitar e a romper com padrões com os quais fui criado, menos pelos meus pais, e mais pelo ambiente em que vivia.
Para mim, o preconceito perdeu o sentido e já fica difícil entender porque esses caras não podem se casar na igreja ou entrar de mãos dadas no cinema.
"Ah, mas você já chamou um amigo de gay que eu já vi". Sim. E talvez seja apenas um hábito que preciso mudar. Ou talvez não, talvez o humor não precise ser tão correto e tão cuidadoso assim e a brincadeira seja apenas uma brincadeira quando não tem o intuito de machucar. Pode ser também que eu precise refletir ainda mais sobre o assunto.
Não sei.
Mas sei que, para mim, a questão continua a mesma: como reagimos diante do diferente, do que não responde aos padrões aos quais estivemos expostos por tanto tempo. Curiosidade ou medo?
E quanto menos medo, quanto menos ignorância, menos motivos para que continue sendo assim. Porque a violência é quase sempre sinônimo de incompreensão absoluta, a reação de uma criança que, diante de um brinquedo de montar resolve o problema do seu jeito ou se frustra e quebra o joguete.
Eu amadureci (ou estou amadurecendo). E você?
* Parabéns pela inconstitucionalidade da Prop8 na Califórnia.
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quarta-feira, fevereiro 08, 2012
quinta-feira, novembro 06, 2008
A história
Tenho 37 anos. Apenas 6 anos antes do meu nascimento, os negros (desculpem, me recuso a usar afro-descendentes, mas aceito sugestões) americanos ganharam direito de voto. Há 53 anos, os negros não podiam sentar nos mesmos assentos que os brancos nos ônibus estadunidenses.
Em termos de história, 50 anos são nada, mas basta uma pequena comparação para perceber o absurdo desse fato.
Os Beatles já faziam sucesso e os negros não podiam votar. O Brasil era bicampeão mundial de futebol e os negros não podiam votar. Brasília já havia sido construída e os negros não podiam votar.
De lá pra cá o ser humano mudou para melhor? Não sei, tenho minhas dúvidas. Na minha pessimista opinião, somos uma raça destinada a existir ao invés de evoluir, mas a vitória de Obama nos EUA, independente do sucesso de seu mandato como presidente, diz alguma coisa boa.
Foi a melhor decisão política para o país? Não posso opinar. Mas a escolha que se faz com esperança, sem ranço, já me parece vitoriosa no próprio nascimento. Que sejam bons e novos tempos para todos.
PS - Tem enquete nova aí do lado. Participe.
Direto na têmpora: Love comes - The Posies
Em termos de história, 50 anos são nada, mas basta uma pequena comparação para perceber o absurdo desse fato.
Os Beatles já faziam sucesso e os negros não podiam votar. O Brasil era bicampeão mundial de futebol e os negros não podiam votar. Brasília já havia sido construída e os negros não podiam votar.
De lá pra cá o ser humano mudou para melhor? Não sei, tenho minhas dúvidas. Na minha pessimista opinião, somos uma raça destinada a existir ao invés de evoluir, mas a vitória de Obama nos EUA, independente do sucesso de seu mandato como presidente, diz alguma coisa boa.
Foi a melhor decisão política para o país? Não posso opinar. Mas a escolha que se faz com esperança, sem ranço, já me parece vitoriosa no próprio nascimento. Que sejam bons e novos tempos para todos.
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