O homem que leva flores para uma mulher deve ter um salvo conduto que o proteja aonde quer que vá.
Não o entregador da floricultura, pois este realiza apenas um trabalho (mesmo que dos mais nobres, ainda assim um trabalho) e não experimenta a dolorosa condição inerente a quem leva uma flor por desejos maiores.
Ao homem que leva flores à sua amada, é preciso que os ônibus adaptem suas rotas e se apressem para atendê-lo. Nestes mesmos ônibus, é mister que o homem que leva flores tenha por direito um assento reservado, seguindo os moldes que beneficiam idosos e deficientes, mas com muito mais justiça, pois a enfermidade de quem leva flores não tem cura e pressupõe urgência.
Os táxis que conduzem o homem que leva flores devem ter a prerrogativa de desrespeitar preferências, semáforos vermelhos e até mesmo a autoridade policial. E se algum oficial da lei desmedidamente cônscio ainda assim abordar o táxi, é direito do motorista meter a cabeça para fora da janela e a plenos pulmões justificar-se "me desculpe, sargento, mas este homem leva flores... lisiantos!" E assim, como mágica, o que era blitz vira escolta para o homem que leva flores.
À passagem do homem que leva flores, que o cessar-fogo seja automático nos conflitos, que os torturadores recuperem a humanidade e que os delatores relembrem com lágrimas a beleza da causa traída.
E que o por do sol, suave e preciso, alongue-se por mais 5 minutos ao ver chegar o homem que leva flores, pois dele depende muito mais do que se imagina.
Direto na têmpora: Bus song - The Kooks